Entre a Copa do Mundo e a guerra: como a Direcional (DIRR3) encarou os desafios macro do 2T26 e o que esperar, segundo o CEO
Apesar da desaceleração das vendas na reta final do trimestre, a construtora manteve margens sólidas e geração de caixa. Ao Seu Dinheiro, o CEO Ricardo Gontijo fala sobre demanda, preços, Riva e os riscos da inadimplência

A Copa do Mundo desviou a atenção dos compradores de imóveis, a guerra no Oriente Médio pressionou os preços da construção civil e as famílias brasileiras sentiram o efeito dos juros. Esse é o cenário por trás do balanço do segundo trimestre da Direcional (DIRR3).
No entanto, como desafios nunca faltam para construtoras, o contexto mais adverso serviu para reforçar uma mensagem que a companhia já vem construindo com o mercado há trimestres: a de consistência. É assim que o CEO Ricardo Gontijo enxerga os números divulgados na noite de ontem (11).
"Mesmo em cenários mais desafiadores ou mais voláteis, a gente consegue manter uma performance bastante sólida”, afirmou em entrevista ao Seu Dinheiro.
A construtora queridinha de analistas e gestores reportou um lucro líquido de R$ 201,6 milhões entre abril e junho deste ano, avanço de 9,7% em relação ao mesmo período de 2025. As expectativas de mercado compiladas pela Bloomberg apontavam para R$ 226 milhões.
Já o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) subiu 27,3% na comparação anual, para R$ 311,5 milhões no segundo trimestre. Segundo o consenso da Bloomberg, o mercado esperava R$ 343 milhões. A receita líquida, por sua vez, saltou 20% no ano, para R$ 1,2 bilhão, em linha com as projeções.
A margem bruta, que indica quanto da receita sobra após os custos diretamente ligados aos empreendimentos, ficou em 40%, aumento de 1,1 ponto percentual (p.p) frente ao segundo trimestre de 2025.
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A geração de caixa, foi de R$ 129,6 milhões no trimestre, revertendo o consumo de R$ 76,5 milhões registrado entre janeiro e março.
O caixa mais forte também ajudou a Direcional a reduzir a alavancagem. A dívida líquida caiu de R$ 612,8 milhões no fim do primeiro trimestre para R$ 492,3 milhões em junho. Com isso, a relação entre dívida líquida e patrimônio líquido recuou de 24% para 18% no período.
Os efeitos da Copa do Mundo e da guerra
Segundo Gontijo, um dos principais obstáculos do trimestre apareceu na reta final de junho, quando a Copa do Mundo tirou a atenção dos clientes, que postergaram a compra do imóvel para depois do torneio. Para ele, esse é o principal fator por trás da desaceleração anual de 3,5 p.p na velocidade de vendas (VSO) no trimestre, para 23%.
Mas o executivo vê o efeito como passageiro. "Julho ainda começou em ritmo mais fraco, mas a demanda deu sinais de recuperação a partir da metade do mês", disse ao Seu Dinheiro.
Além da Copa, outro elemento desafiou a Direcional e todo o setor ao longo dos últimos três meses: a guerra no Irã. Com o mercado preocupado em relação ao impacto da valorização do petróleo nos custos da construção, o aumento acelerado de preços foi uma alternativa explorada por outros players do setor.
No entanto, a Direcional evitou aumentos mais agressivos. Segundo Gontijo, os reajustes ficaram próximos do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) — que avança 6,4% em 12 meses — enquanto o trabalho da área de suprimentos ajudou a absorver parte da pressão sobre os insumos.
A decisão passa justamente pela velocidade de vendas. Em um cenário de juros elevados e, consequentemente, de custo de capital mais alto, a companhia entende que vender mais rápido é mais vantajoso do que buscar ganhos adicionais de preço.
“A prioridade aqui na Direcional continua sendo a velocidade de vendas. No momento que a gente tem um custo de capital muito alto no Brasil, ter uma maior velocidade de vendas gera mais valor do que o incremento de preço”, afirmou Gontijo.
Riva vira ponto de atenção
A Riva — marca voltada ao segmento de média renda que atende as faixas 3 e 4 do Minha Casa Minha Vida — encerrou o trimestre com VSO de 21%, abaixo dos 23% registrados nos primeiros três meses do ano. Do lado das vendas, a subsidiária registrou queda anual de 13,3% entre abril e junho, para R$ 590,4 milhões.
Em um ambiente de juros elevados e famílias mais endividadas, o desempenho pode levantar dúvidas sobre um eventual enfraquecimento do consumidor de média renda. Mas Gontijo diz não enxergar esse movimento.
“Quando a gente analisa internamente não há essa preocupação. Continuamos vendo uma demanda sólida e forte. A questão foi muito mais de mix de produtos: tivemos lançamentos em praças onde a velocidade de vendas ou a demanda são estruturalmente menores. Esse foi o principal motivo para a VSO de 21%", afirmou Gontijo.
A expectativa, porém, é de recuperação, com a VSO da Riva retornando aos patamares observados nos últimos trimestres.
A inadimplência das famílias preocupa?
Embora a Direcional atue com foco no Minha Casa Minha Vida, segmento mais protegido das oscilações do cenário macroeconômico, uma preocupação vem ganhando espaço entre os investidores do segmento nos últimos meses: a inadimplência, que avança a níveis preocupantes entre as famílias brasileiras graças aos juros elevados.
Isso porque o financiamento bancário não necessariamente cobre todo o valor do imóvel. Parte do montante que cabe ao comprador — como uma parcela da entrada, por exemplo — pode ser financiada diretamente pela construtora. É o chamado pró-soluto, modalidade em que a Direcional assume o risco de o cliente não honrar os pagamentos.
Há ainda os casos em que o próprio cliente opta por financiar diretamente com a construtora uma parcela maior do valor do imóvel, em vez de recorrer ao crédito bancário.
No fim de junho, os recebíveis relacionados ao financiamento direto aos clientes somavam R$ 3,16 bilhões, alta de 38% em um ano e de 2% em relação ao primeiro trimestre.
Desse montante, R$ 2,15 bilhões estavam na chamada tabela direta, modalidade em que a Direcional financia integralmente o imóvel para o comprador.
A carteira cresceu 40% em relação ao 2T25, embora tenha recuado 2% na comparação trimestral. Outro R$ 1 bilhão estavam no pró-soluto — parcela do preço do imóvel que não é financiada pelos bancos —, com avanço de 32% em um ano e 12% no trimestre.
Ao mesmo tempo, a companhia vem reforçando a proteção para eventuais perdas. No primeiro semestre, foram reconhecidos R$ 44,3 milhões em provisões para perdas em contas a receber, ante R$ 40,9 milhões no mesmo período de 2025, uma alta de cerca de 8,5%.
Gontijo reconhece que o cenário exige atenção. Por isso, a Direcional tornou mais rígidos os critérios para concessão de pró-soluto a partir de outubro do ano passado.
“Estamos sendo muito criteriosos, o que nos faz ter a convicção de que a qualidade da nossa carteira tem melhorado ao longo do tempo”, afirmou.
Mas o dinheiro que a Direcional tem a receber dos clientes também cumpre uma função importante em um cenário de potencial pressão sobre os custos da construção: como esses recebíveis são corrigidos por índices de preços, eles funcionam como uma espécie de proteção contra a inflação.
Tanto o pró-soluto quanto a tabela direta possuem mecanismos de correção. No segundo caso, diz Gontijo, os valores são corrigidos pelo INCC durante as obras e pelo IPCA mais 12% ao ano após a entrega das chaves. A companhia também conta com a alienação fiduciária do imóvel como garantia para inadimplência.
Os distratos
Outro ponto de atenção no trimestre veio dos distratos, que totalizaram R$ 330 milhões em Valor Geral de Vendas (VGV) no trimestre, alta de 41,8% em base anual, correspondendo a 16,6% das vendas brutas do período — acima do patamar que a Direcional considera confortável, na casa dos 10%.
No semestre, o movimento fica ainda mais evidente: foram R$ 635,8 milhões em distratos, avanço de 69,5% sobre os R$ 375,1 milhões registrados na primeira metade de 2025.
A companhia diz que os distratos continuam concentrados em determinadas praças nas quais subsídios habitacionais concedidos por governos regionais foram descontinuados ou enfrentaram problemas operacionais.
Desta vez, o principal impacto veio de Manaus, no Amazonas. Mais de 600 unidades foram distratadas no estado depois que compradores perderam o acesso a subsídios estaduais que ajudariam a completar o valor necessário para a aquisição dos imóveis.
“Um cliente que tinha condição de compra com auxílio do governo deixa de ter. Então, a gente acaba tendo que distratar porque ele não consegue comprar a unidade que imaginou”, disse Gontijo.
O lado bom, na visão do CEO, é que não faltam interessados. A companhia informou que 98% das unidades distratadas já foram revendidas, o que reforça que a demanda nessa faixa de preço continua forte.
Ainda assim, o movimento tem consequências para a operação. Ao revender uma unidade que foi distratada, a companhia praticamente repõe uma venda perdida, em vez de adicionar uma nova ao resultado.
“O principal ponto é que a gente acaba tendo uma venda líquida perto de zero. O ideal é que tivéssemos novas. Certamente nosso ritmo de receita seria muito maior, teríamos diluição da linha de despesas e um impacto positivo no resultado”, disse Gontijo ao Seu Dinheiro.
O CEO destaca que esse efeito ainda não terminou e novos distratos devem ocorrer ao longo dos próximos meses, mas a expectativa é de normalização no médio prazo.
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