Muito risco para pouco retorno: por que o crédito privado não está compensando hoje — e quais são as exceções
Em participação no podcast Touros e Ursos, Alfredo Menezes, CEO e CIO da Armor Capital, afirma que spreads no crédito provado estão “apertados demais”, não compensam o risco de calote. Ele defende foco em juros reais, com críticas até ao Tesouro IPCA+ e aos prefixados

O crédito privado vive um momento delicado no Brasil. Após uma sequência de episódios que abalaram a confiança dos investidores e expuseram fragilidades relevantes em grandes empresas, o mercado agora enfrenta um cenário em que o risco segue elevado, mas o retorno oferecido por títulos como debêntures, CRIs e CRAs parece cada vez mais limitado.
Na avaliação de Alfredo Menezes, CEO e CIO da Armor Capital, os spreads pagos por empresas estão “apertados demais” e não refletem o risco real de calote.
Os spreads são os prêmios de risco, o percentual que um título de renda fixa privada precisa pagar a mais que um título público de mesmo prazo e indexador.
“É um ganho muito pequeno diante da possibilidade de inadimplência. Eu não correria esse tipo de exposição hoje na renda fixa”, afirmou o gestor em participação no podcast Touros e Ursos, do Seu Dinheiro.
A avaliação vem na esteira de uma sequência de eventos recentes que colocaram em xeque a percepção de segurança do crédito corporativo no Brasil, com casos emblemáticos envolvendo Americanas (AMER3), Light (LIGT3), Grupo Pão de Açúcar (PCAR3), Raízen (RAIZ4) e Braskem (BRKM5).
Endividamento excessivo e recuperações judiciais ou extrajudiciais — além de fraude, no caso da Americanas — levaram os preços das debêntures dessas empresas a caírem e contaminaram mesmo os títulos de dívida de outras empresas, num efeito-contágio.
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As recomendações de Menezes para a renda fixa podem ser ouvidas no vídeo a seguir, a partir do minuto 27:49:
As exceções no crédito privado
Para Menezes, no entanto, existem algumas exceções na renda fixa privada: é o caso de títulos emitidos pelos grandes bancos.
Além disso, o gestor acredita que o foco do investidor na renda fixa hoje deveria ser buscar títulos indexados à inflação que possuam isenção de imposto de renda, desde que emitidos por empresas sólidas.
LCIs e LCAs são exemplos entre os títulos bancários isentos, que por vezes podem ser indexados à inflação e ainda contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Já as debêntures incentivadas de infraestrutura, além de isentas, costumam ser atreladas à inflação. A orientação aqui é ficar com aquelas de menor risco, emitidas por empresas consideradas boas pagadoras.
"Eu priorizaria papéis indexados à inflação, isentos, de empresas de boa qualidade. Porque, mesmo no Tesouro IPCA+ [título público indexado à inflação], existe um risco: no Brasil, o imposto incide sobre o ganho nominal, não sobre o real. Então, quanto maior a inflação, menor é o juro que você recebe e, consequentemente, a proteção contra a alta dos preços", afirmou durante o programa do Seu Dinheiro que vai ao ar semanalmente.
Esse fenômeno da perda de proteção contra a inflação nos títulos indexados não isentos de IR, pelo fato de a tributação incidir tanto sobre o ganho real quanto sobre a correção pela inflação, já foi esmiuçado nesta outra reportagem do Seu Dinheiro.
Menezes também recomenda ficar de fora dos títulos prefixados. "No momento, com esse tipo de ativo você sabe exatamente quanto vai ganhar, mas não sabe quanto vai perder", afirma.
Os títulos prefixados pagam um juro nominal pré-definido, então não há correção pela inflação. Isso os torna mais arriscados do ponto de vista da volatilidade, podendo haver perdas expressivas na marcação a mercado no caso de alta forte nos juros futuros ou nas expectativas de inflação. E, para Alfredo Menezes, não é seguro apostar no caminho dos juros no Brasil hoje.
Com dúvidas sobre qual é o nível de juros reais de equilíbrio da economia brasileira, especialmente em um cenário de expansão fiscal, o risco de novas altas nas taxas não pode ser descartado.
Caso isso aconteça, os prefixados longos tendem a sofrer desvalorização relevante, gerando perdas para quem precisar sair antes do vencimento. Por isso, o gestor prefere estratégias que ofereçam maior proteção ao longo do tempo, como os títulos atrelados à inflação, menos voláteis.
Touros e Ursos da semana
No episódio completo dos Touros e Ursos, Menezes também comentou como esse é um dos principais elementos por trás da recente valorização do real ante o dólar. Além disso, ele falou sobre os rumos da Selic daqui para a frente e as apostas da gestora para o longo prazo.
Entre os Touros e Ursos, se destacam negativamente os mercados preditivos no Brasil. Do outro lado, o foco cai sobre a Hapvida (HAPV3) e gigantes da tecnologia lá fora. Confira o episódio completo abaixo:
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