JGP vê empresas brasileiras espremidas em 2027 e alerta para o que pode acontecer se ajuste fiscal não vier
Gestora aponta combinação de demanda mais fraca, juros elevados e incerteza fiscal como desafio para as companhias no próximo ano

O mercado brasileiro fez uma aposta em outubro — e precisou rever os planos depois das urnas. A expectativa de uma mudança na condução da economia deu fôlego à bolsa, ao real e aos juros futuros na primeira metade do mês. Com a reeleição de Lula, porém, o otimismo virou correção.
Agora, a JGP vê um problema que pode ir muito além da turbulência eleitoral: em 2027, as empresas brasileiras correm o risco de enfrentar uma economia mais fraca sem o alívio dos juros menores.
Diante desse cenário, a gestora interrompeu suas apostas direcionais em ações e passou a adotar uma postura mais cautelosa, reduzindo a exposição ao risco e preservando flexibilidade para aproveitar oportunidades.
“Vemos uma combinação particularmente desafiadora para 2027: perspectivas de resultados corporativos pressionados por uma demanda doméstica mais fraca, acompanhadas de despesas financeiras ainda elevadas e menor potencial de compressão dos prêmios de risco”, afirma o gestor de ações da JGP.
Mercado precisou rever aposta após as eleições
Depois de um primeiro turno que fortaleceu a oposição e alimentou apostas em uma condução econômica mais ortodoxa, os ativos brasileiros ganharam fôlego.
A perspectiva de uma eventual mudança de governo era associada à possibilidade de maior disciplina fiscal, com superávits primários e uma trajetória menos acelerada da dívida pública.
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Esse cenário poderia abrir espaço para a queda dos juros, reduzir o custo de capital das empresas e favorecer os ativos de risco, segundo a gestora. Com a reeleição de Lula para o mandato de 2027 a 2030, porém, parte dessa expectativa foi desfeita.
O Ibovespa caiu quase 10% no acumulado de outubro e chegou a recuar 16% em relação ao pico anterior ao segundo turno. O real perdeu 5,1% frente ao dólar no mês, depois de ter acumulado, em determinado momento, uma valorização que chegou perto de 10%. Nos juros futuros, o contrato com vencimento em janeiro de 2031 subiu 133 pontos-base.
Para a JGP, a reação reflete a revisão das perspectivas para a política fiscal e, consequentemente, para a trajetória dos juros.
A gestora avalia que o resultado eleitoral tornou mais difícil a perspectiva de um ajuste robusto das contas públicas — justamente um dos fatores que sustentavam a melhora esperada para os ativos brasileiros.
“Com o resultado eleitoral, entendemos que o cenário de ajuste fiscal e flexibilização monetária se tornou mais restritivo”, diz a gestora.
O que está em jogo para os juros — e para as empresas
O ponto central da preocupação está na falta de clareza sobre como o governo pretende conduzir as contas públicas a partir de 2027.
Segundo a JGP, a equipe econômica sinaliza um ajuste fiscal limitado para cumprir o centro da meta de resultado primário, de superávit de 0,5% do PIB no próximo ano. Para os anos seguintes, no entanto, ainda não há detalhes concretos sobre a estratégia.
A discussão também enfrenta resistências dentro do próprio governo. Integrantes de alas do PT chegaram a classificar um eventual ajuste fiscal como “estelionato eleitoral”, o que adiciona incerteza sobre o espaço político para medidas de contenção de despesas.
Na avaliação da JGP, sem uma consolidação fiscal mais consistente, o Banco Central pode ter menos espaço para continuar reduzindo a taxa básica de juros.
Uma trajetória mais pressionada da dívida pública também tende a pesar sobre o câmbio, com potencial de alimentar a inflação e dificultar ainda mais o trabalho da autoridade monetária.
“A perspectiva de uma consolidação fiscal menos intensa limita o espaço para cortes de juros, mantendo o custo de financiamento das empresas em patamares elevados por mais tempo”, afirma a gestora.
Demanda mais fraca e dívida das famílias pressionam os balanços, avalia JGP
A JGP também chama atenção para sinais de enfraquecimento do consumo. O elevado endividamento das famílias limita a capacidade de sustentar os gastos, enquanto os resultados recentes de empresas brasileiras já começam a mostrar uma demanda doméstica menos vigorosa.
Esse quadro pode se tornar mais difícil em 2027, especialmente se vier acompanhado de despesas financeiras ainda altas. Para companhias que dependem do consumo interno, a combinação tende a dificultar o crescimento das vendas e a recuperação das margens.
A leitura da gestora é que a perspectiva de melhora dos ativos brasileiros estava apoiada, em boa medida, na expectativa de uma redução relevante dos juros e do custo de capital — e não necessariamente em uma melhora imediata dos fundamentos das empresas.
Com o cenário fiscal mais incerto, esse possível impulso perdeu força. Por isso, a JGP passou a reduzir suas exposições direcionais em ações.
A mudança não significa necessariamente abandonar oportunidades na bolsa, mas evitar uma aposta ampla no mercado enquanto não há maior clareza sobre a política econômica e seus efeitos sobre os resultados corporativos.
“Entendemos que o ambiente atual exige maior cautela e seletividade na alocação de risco, preservando flexibilidade para aproveitar oportunidades que possam surgir à medida que houver maior clareza sobre a condução da política econômica e seus impactos sobre os mercados”, afirma a gestora.
JGP também vê exterior com cautela
O cenário internacional adiciona outra camada de incerteza à alocação. Em outubro, o Nasdaq caiu 6,7%, enquanto o S&P 500 e o Russell 2000 tiveram desempenho relativamente estável.
A correção no setor de tecnologia refletiu dúvidas sobre a sustentabilidade da alta das empresas ligadas à inteligência artificial, diante do volume elevado de investimentos e do endividamento necessário para financiar a expansão.
A JGP também acompanha os possíveis efeitos da transformação tecnológica sobre os negócios, com a perspectiva de que a inteligência artificial crie vencedores e perdedores entre as companhias.
Nesse ambiente, a capacidade de transformar investimentos em ganhos efetivos de produtividade e receita passa a ser um ponto importante para avaliar as empresas.
A avaliação sobre a economia global também segue dividida.
Nos Estados Unidos, a atividade permanece resiliente, mas a inflação continua elevada. Na China, a atividade doméstica mostra fraqueza, apesar do desempenho melhor de empresas exportadoras, enquanto o consumo interno ainda apresenta sinais de pouco vigor.
Diante desse conjunto de fatores, a JGP prefere manter uma postura mais seletiva, tanto no Brasil quanto no exterior.
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