‘Onda azul’ na urna, ‘onda vermelha’ na bolsa: o fantasma que derrubou Wall Street após a vitória democrata
Na véspera do payroll, a festa com a vitória esmagadora do Partido Democrata deu lugar à cautela em Wall Street, com investidores reavaliando novos riscos para o setor de IA

O otimismo com a 'onda azul' nos Estados Unidos durou pouco. Um dia após a guinada dos índices com a ampla vitória do Partido Democrata no Congresso e no governos de alguns Estados-chave nas eleições de meio de mandato, os investidores colocaram novos riscos para o setor de tecnologia à mesa: a possível regulação da inteligência artificial (IA) e limitação da infraestrutura de data centers.
A 'nova' preocupação derrubou os índices de Wall Street: Nasdaq, que concentra as principais empresas de tecnologia, tombou 5,5%, aos 24.314,997 pontos. Com a derrocada, o índice passou a ser negociado mais de 10% abaixo do recorde registrado no mês passado, quando encostou nos 28 mil pontos.
Dow Jones também registrou perdas de 3,4%, encerrando o pregão desta quinta-feira (5) aos 51.523,06 pontos, e S&P 500 teve queda de 4,4%, aos 7.353,63 pontos.
Os três índices registraram o pior desempenho diário desde abril de 2025.
O ETF iShares Semiconductor (SOXX), que reúne empresas de semicondutores, estendeu as perdas pelo segundo dia consecutivo, com queda de 12,8%.
A escalada da aversão a risco ainda fez o VIX (CBOE Volatility Index), também conhecido como o “índice do medo” de Wall Street, saltar quase 70% e superar os 28 pontos — atingindo o maior nível desde 31 de março.
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Do seu mínimo ao seu máximo intradiário de quinta-feira, o VIX oscilou mais de 11 pontos, a maior variação em um único dia desde 9 de abril. O indicador mede a volatilidade do mercado, e sua alta denota aumento da aversão a risco.
Ao meio-dia, quase 800 mil contratos de opções de compra (calls) foram negociados no VIX, 3,5 vezes mais do que a média dos últimos 30 dias, segundo dados da Cboe.
A eleição de meio de mandato acirrou a disputa política em torno dos centros de dados e da infraestrutura de inteligência artificial (IA), o que deve mudar a relação entre o setor de tecnologia e Washington.
"Além de potencialmente reverter alguns dos cortes de impostos e gastos aprovados pelos republicanos no ano passado, parece provável que os democratas tentem aprovar regulamentações para limitar a expansão da IA de alguma forma", avalia Stephen Brown, economista-chefe para América do Norte da Capital Economics.
Com um Congresso mais crítico às empresas do setor, a fiscalização sobre as gigantes de tecnologia e a expansão dos centros de dados de IA tendem a aumentar.
O Texas, por exemplo, é um dos principais Estados na construção dessas estruturas, e a governadora democrata eleita, Gina Hinojosa, defendeu, durante a companha, a suspensão de novos projetos até que sejam adotadas regras mais rígidas.
"Embora já estejamos vendo bastante resistência regulatória nos níveis estadual e local, o que pode atrasar a construção de data centers, a regulamentação federal representa um risco ainda maior para o setor de IA, pois também pode atrasar a velocidade de adoção da tecnologia", avalia o economista-chefe da Capital Economics.
Ele ainda acredita que os resultados das eleições de meio de mandato aumentaram ainda mais a probabilidade de já termos atingido o pico para as ações relacionadas à IA e podem atrasar o aumento de produtividade nos próximos anos.
À espera de novos dados
O relatório oficial de empregos não agrícolas, o payroll, de outubro também ficou no radar. O documento de referência do mercado de trabalho para o Federal Reserve (Fed, o Banco Central norte-americano) será divulgado na manhã desta sexta-feira (6).
Mas, nesta quinta-feira, os investidores tiveram uma espécie de prévia: os dados divulgados pelo Departamento do Trabalho mostraram que os pedidos iniciais de seguro-desemprego caíram 6 mil na semana encerrada em 31 de outubro, para 189 mil em dados ajustados sazonalmente, abaixo da estimativa de 196 mil dos economistas consultados pela Reuters e no menor nível em 57 anos.
Na avaliação de Juliana Benvenuto, coordenadora de investimentos da Avenue, os dados do mercado de trabalho ganham ainda mais relevância diante do atual ciclo de juros do Fed.
Na semana passada, o Comitê Federal do Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) manteve os juros inalterados na faixa de 3,75% a 4,00%, após uma elevação em setembro.
Hoje, o mercado precifica cerca de 66% de chance de uma alta de 0,25 ponto percentual na taxa na próxima decisão, em 9 de dezembro.
"Nesse cenário, números mais fortes de emprego podem reforçar as expectativas de juros elevados por mais tempo", avalia Juliana.
Ibovespa no vermelho
A aversão a risco externa também contaminou o mercado brasileiro. O principal índice da Bolsa, Ibovespa (IBOV), encerrou o pregão com baixa de 0,82%, aos 166.191,45 pontos.
Já o dólar à vista ganhou força ante o real e terminou o dia cotado a R$ 5,4886 (+0,68%).
As incertezas sobre o governo 'Lula 4' e a perspectiva de juros elevados por mais tempo ditaram os movimentos do mercado local.
"O mercado acompanhou com cautela as reuniões de transição entre Lula, ministros e economistas no Palácio da Alvorada. A ausência de definições sobre a equipe econômica e as diretrizes fiscais manteve a busca por proteção no câmbio e penalizou a renda variável", afirmou Emerson Junior, head de câmbio e contas internacionais da Convexa Investimentos.
Os investidores devem seguir em compasso de espera pelo pronunciamento do presidente Lula em rede de rádio e televisão previsto para o próximo domingo (8), em meio à expectativa de aceno formal ao compromisso com a responsabilidade fiscal e ajuste nas contas públicas.
A deterioração do cenário local também entrou na conta. Ontem (4), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve a taxa Selic em 13,75% ao ano, uma pausa após cinco reduções seguidas nos juros e, mais uma vez, a decisão foi unânime. A manutenção da taxa básica de juros já era esperada pelo mercado.
O colegiado chamou a atenção para a desancoragem das expectativas para a inflação, agora "adicionalmente" distantes da meta.
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