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Obra dirigida e co-estrelada por Jesse Eisenberg passa por cenários-chave em Varsóvia e em Lublin; com extrema sensibilidade, diretor leva os personagens e os espectadores a uma jornada quase autobiográfica
Uma volta às raízes judaicas, permeada por nostalgia, sentimentos conflitantes e relações familiares complexas. É esse o mote do filme A Verdadeira Dor (A Real Pain, no título original), dirigido e co-estrelado por Jesse Eisenberg.
Apesar de não estar indicado na categoria de Melhor Filme do Oscar 2025, o longa é representado pela indicação de Kieran Culkin como Melhor Ator Coadjuvante e pela nomeação em Melhor Roteiro Original.
Até o momento, outras premiações, como o Globo de Ouro e o Critics’ Choice Award, reconheceram o trabalho de Culkin, aumentando as chances do ator de Succession em levar para casa a estatueta mais concorrida de Hollywood.
Premiações à parte, o filme caiu nas graças dos espectadores por tratar com sensibilidade a rememoração da herança judaica. Entre os cenários atravessados pelos primos David (Eisenberg) e Benji (Culkin) para recuperar a história de sua avó Dory, estão lugares como o campo de concentração de Majdanek e um antigo cemitério judaico.
Os protagonistas fazem uma turnê pela capital Varsóvia e pela cidade interiorana de Lublin junto a outros turistas judeus não-poloneses que tentam, de alguma forma, entender e fazer as pazes com o passado doloroso de seus ancestrais.
Acompanhados por James (Will Sharpe, de The White Lotus), um estudioso guia não-judeu, os personagens lidam, cada um à sua forma, com o peso emocional de uma viagem que extrapola as fronteiras do turismo puro e simples.
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Seja pela direção e pelo roteiro sensíveis de Eisenberg ou pelo carisma inigualável de Culkin, é natural sair da sala de cinema com um quê de curiosidade: é possível fazer a mesma tour pela Polônia retratada em A Verdadeira Dor?
Indo direto ao ponto: até o momento, sites como GetYourGuide não vendem exatamente o mesmo roteiro. Mas é possível ir até cada um dos pontos turísticos e históricos visitados por David e Benji, por conta própria.

Diferentemente do polêmico Emilia Perez, que, apesar de se passar no México, teve a maior parte das cenas filmadas na França, as cenas do filme de Eisenberg que se passam na Polônia foram filmadas na íntegra no país.
A inspiração para a história, inclusive, partiu de uma viagem que o diretor fez em uma tentativa parecida com a dos personagens de recuperar sua ancestralidade judaica.
Em entrevista à Condé Nast Traveller, Jesse Eisenberg revela que muito do filme pode ser considerado autobiográfico. “A casa que os primos visitam no final do filme foi a casa da minha família até 1939 e muito do que eu conto no filme são histórias da minha família ou combinações das histórias de dois parentes.”
A história começa já no aeroporto Chopin Airport (ex-Warsaw-Okęcie Airport), que possui também relação com a invasão nazista na Polônia.
Inaugurado em 1934, ele foi bombardeado no primeiro dia da Segunda Guerra Mundial e posteriormente reparado pelos nazistas. Durante a ocupação, ele foi usado como hub e oficina de consertos para a força aérea alemã.
Ao final deste período, o aeroporto foi deixado em ruínas e só em 1969 recebeu um terminal internacional — através do qual David e Benji chegam, após saírem de Nova York.

Após saírem do hotel, o primeiro monumento visitado pelo heterogêneo grupo de turistas é o Monumento aos Heróis do Gueto, inaugurado em 1948. A peça de arte foi feita com materiais que originalmente estavam destinados a monumentos nazistas e celebra a resistência judaica durante a Revolta do Gueto de Varsóvia.
Considerando um ponto importante para a memória da Segunda Guerra, o monumento já recebeu visitas ilustres de líderes mundiais como o Papa João Paulo II, o Dalai Lama e o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton.
Localizado na mesma praça onde está o Museu POLIN de História dos Judeus Poloneses, o marco não tem qualquer tipo de custo para visitação. Já o museu cobra 45 zlotis polacos para a entrada (aproximadamente R$ 65).
Quinze minutos de metrô levam ao segundo ponto retratado: a triangular praça Grzybów, que também fazia parte do gueto judaico.
Em seguida, outro monumento notável relacionado ao levante de 1944 está nas proximidades do palácio Real: o Monumento da Revolta de Varsóvia, na praça Krasiński.
A enorme escultura, desenhada por Wincenty Kućma e projetada por Jacek Budyn, é cenário para um dos momentos cruciais do filme para entender a relação conflituosa entre os personagens, assim como o caráter agregador e carismático de Benji.
Revelado ao público em 1989, 45 anos depois do levante, o monumento teve a devida parcela de polêmica durante o período de dominação soviética na Polônia. A visitação também é gratuita.

Uma viagem de trem conturbada leva o grupo à Lublin, a 173 km da capital. Na vida real, o trajeto dura cerca de duas horas e as passagens saem por volta de R$ 60 por pessoa.
Longe de ser uma das cidades mais conhecidas e visitadas da Polônia, Lublin protagoniza as cenas mais sensíveis e emocionalmente densas do filme.
O tour começa pelo portão de Grodzka, que marcava a entrada para o antigo bairro judeu da cidade. Hoje em dia, o local abriga um centro cultural com diversas programações.
Em seguida, os personagens seguem para o Antigo Cemitério Judaico, que data do século XVI. É lá que está localizada a lápide judaica mais antiga do país, pertencente ao talmudista Jakub Kopelman.
É em uma das últimas locações do longa que o trabalho de Jesse Eisenberg como diretor e roteirista se prova digno das aclamações recebidas pela crítica especializada. No campo de concentração de Majdanek, o diretor isola o grupo para uma visita silenciosa, emotiva e, naturalmente, perturbadora.

Sem medo de tocar na ferida, Eisenberg mostra os personagens dentro das antigas câmaras de gás. Em uma das cenas, o roteiro faz questão de evidenciar a proximidade entre o local e a cidade, onde as pessoas viviam vidas “normais”.
Embora o campo de Auschwitz seja mais conhecido mundialmente, é em Madjanek que A Verdadeira Dor consegue explorar de forma sensível a mais triste e lacerante herança judaica, conectando-se diretamente à história do diretor.
“[A cena] ocorre em Majdanek, um local que nenhum filme do Holocausto aborda, porque ninguém conhece o local. Mas o meu filme é ambientado lá, pois é a origem da minha família”, diz o diretor.
O local não cobra ingressos. A visita não é recomendada para menores de 14 anos.
Após se separarem do grupo, David e Benji exploram Lublin por conta própria e tem uma das últimas conversas profundas da viagem no rooftop do Hotel Victoria, que também tem uma unidade em Varsóvia.
O 3-estrelas está em pleno funcionamento e tem diárias por volta de R$ 400.
Apesar de não ser retratado em A Verdadeira Dor, um outro ponto turístico foi essencial para a concepção do filme, segundo o diretor Jesse Eisenberg: a casa do compositor e pianista polonês Frédéric Chopin, na comuna de Żelazowa Wola, a uma hora da capital.
Transformada em um museu cuja entrada custa cerca de R$ 29, o sítio histórico foi viciado pelo diretor-roteirista-ator em viagem à Polônia e teve uma influência fundamental na obra. Influência esta que se mostra na trilha sonora e no “tom” que Eisenberg quis dar ao longa.
* Com informações da Time Out, do Polish Cultural Institute, da Condé Nast Traveller
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