Recurso Exclusivo para
membros SD Select.

Gratuito

O SD Select é uma área de conteúdos extras selecionados pelo Seu Dinheiro para seus leitores.

Esse espaço é um complemento às notícias do site.

Você terá acesso DE GRAÇA a:

  • Reportagens especiais
  • Relatórios e conteúdos cortesia
  • Recurso de favoritar notícias
  • eBooks
  • Cursos
REVIEW

Como violência e superação levaram ‘Língua interior’ e o argelino Kamel Daoud ao topo da literatura francófona

De polemista em suas colunas de jornal ao duplo reconhecimento pelo Goncourt, o escritor argelino Kamel Daoud se impõe como uma das principais vozes da literatura francófona, agora com o visceral ‘Língua interior’

Kamel Daoud e Língua interior
Kamel Daoud e Língua interior - Imagem: Francesca Mantovani

Antes mesmo de estrear como romancista, o escritor Kamel Daoud já era conhecido como um jornalista polêmico por suas colunas no Quotidien d’Oran, jornal argelino em língua francesa.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Colocando-se sempre como provocador, logo após os atentados terroristas de 11 de setembro Daoud chegou a argumentar que os árabes vinham se destruindo há séculos e continuariam a se autodestruir enquanto continuassem a agir como sequestradores de aviões em vez de fabricantes de aviões.

A polêmica mais preocupante, no entanto, ocorreu em 2014, quando foi alvo de uma “fatwa” virtual depois de afirmar ao canal France 2 que o mundo árabe só poderá avançar e “reabilitar o homem” depois de enfrentar decisivamente a questão de Deus e repensar criticamente a relação com a religião, considerada por ele um ponto vital para o futuro da região.

O primeiro romance

A ameaça de morte em seu país de origem não conteve Daoud, que estreou na ficção com grande estilo com o romance O caso Meursault (Biblioteca Azul, R$ 49,90). Em 2014 o livro ficou entre os finalistas de melhor romance do Prêmio Goncourt – o prêmio literário mais prestigioso do mundo francófono. Em 2015, levaria o prêmio na categoria Romance de Estreia.

Kamel Daoud
Kamel Daoud

O livro é uma resposta a O estrangeiro, do franco-argelino Albert Camus. Meursault, o protagonista do livro de Camus, assassina um árabe anônimo sem razão alguma, a não ser o calor insuportável; O caso Meursault toma esse incidente como ponto de partida. Daoud conta a história da perspectiva de Harun, irmão de Musa, o árabe sem nome assassinado pelo protagonista de Camus.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O narrador de Daoud consegue infundir em sua linguagem toda a discussão sobre o legado colonial francês na Argélia depois da independência. Em suas palavras: “pego as pedras das casas que os colonos deixaram e faço minha própria casa, minha própria língua”.

Leia Também

BILHETERIA EM ÓRBITA

Tudo o que Ryan Gosling toca vira ouro? Devoradores de Estrelas já é a maior estreia do cinema em 2026

HISTÓRIA

Restos de uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo ressurgem do mar após 1.600 anos

O caso Meursault oferece um contraponto a O estrangeiro e reclama a identidade local, colocando tanto a obra quanto a figura de Camus em xeque. Isso porque o autor, apesar de ter nascido na Argélia, era contra a independência do país. Esse é o fato pelo qual muitos autores argelinos se ressentem de Camus.

Língua Interior e o segundo Goncourt

Com Língua interior (DBA, R$ 114,90), Kamel Daoud ganha o seu segundo Goncourt. Agora, porém, na categoria principal, concedido “à obra de prosa mais imaginativa do ano”.

Língua interior
Língua interior

Com o segundo prêmio, Daoud se consolida como uma voz importante e silencia críticos como Daho Djerbal. O historiador afirmou a Adam Shatz da London Review of Books que Daoud não era “bom o bastante para o Goncourt” e que “a França jamais dará o prêmio a um argelino”.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O romance é narrado por Aube, sobrevivente de um massacre na guerra civil argelina, que teve a garganta cortada por um grupo de extremistas. Aube, então, conta sua história à filha que carrega no ventre, apesar do silêncio imposto pela violência. Vemos nessa voz interior toda a dimensão da angústia dos sobreviventes. Além disso, está presente a indecisão de Aube em manter a gravidez e perpetuar o ciclo do trauma.

Evidentemente, a história de Aube também diz muito sobre a memória coletiva de um país depois de uma “década negra” e a impossibilidade de dar voz às vítimas. A conversa da protagonista com a filha por nascer faz refletir sobre a possibilidade de superar o trauma coletivo. E também de permitir que um novo país nasça dos escombros.

O Goncourt hoje

Considerando apenas os últimos cinco anos, o Goncourt foi concedido a dois autores originários de antigas colônias e possessões francesas. Houve Kamel Daoud, em 2024, com Língua interior, mas também Mohamed Mbougar Sarr, em 2021, com A mais recôndita memória dos homens (Fósforo, R$ 114,90).

Os dois autores são mestres de seu ofício. E é preciso destacar, aliás, a maestria com que Mbougar Sarr constrói seu romance. Há ali o domínio da tradição literária francesa e as narrativas tradicionais senegalesas. Porém a premiação também sinaliza uma reconfiguração do cânone literário francês.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Se há pouco mais de uma década era difícil imaginar um autor argelino ganhando o prêmio, nos últimos anos vozes do norte da África e da África subsaariana, antes marginalizadas, passam a ocupar espaços centrais. Consigo trazem perspectivas pós-coloniais sobre o trauma, as identidades híbridas e uma prosa de contestação no mais alto nível, mostrando que para ganhar o Goncourt é preciso dominar a linguagem dos dominadores.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Bad Bunny em discurso no Grammy Awards 2026 - Imagem: Reprodução Instagram Grammys 2 de fevereiro de 2026 - 12:07
Wagner Moura em 'O Agente Secreto' 27 de janeiro de 2026 - 13:06
Wagner Moura e Tânia Maria em 'O Agente Secreto' 26 de janeiro de 2026 - 16:05
26 de janeiro de 2026 - 8:16

AGENDA CULTURAL

De ópera a musical: as estreias de fevereiro no mundo da arte

26 de janeiro de 2026 - 8:16
Montagem com Vinicius de Moraes e Tom Jobim, com partituras do maestro em segundo plano - Imagem: Seu Dinheiro 25 de janeiro de 2026 - 8:16
Museu do Louvre 17 de janeiro de 2026 - 8:00
Wagner Moura: vitória brasileira no Globo de Ouro 2026. Oscar 12 de janeiro de 2026 - 7:26
Croqui da lateral do Jardim Nacional 7 de janeiro de 2026 - 11:16
Bad Bunny, Sabrina Carpenter e Slash (Guns'N'Roses) 7 de janeiro de 2026 - 8:16
Bruno Vieira da Rocinante, Luiz Guilherme Niemeyer da Bonus Track e Pedro Kurtz da Deezer refletem sobre cenário da música em 2026 5 de janeiro de 2026 - 8:16
Lançamentos ainda fora do mercado editorial brasileiro já dominam o debate cultural e intelectual internacional 2 de janeiro de 2026 - 8:16
Beyoncé agora e bilionária, segundo a Forbes 29 de dezembro de 2025 - 11:31
arte museus malba buenos aires turismo viagem argentina 18 de dezembro de 2025 - 18:29
Menu

Usamos cookies para guardar estatísticas de visitas, personalizar anúncios e melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com nossas políticas de cookies

Fechar
Jul.ia
Jul.ia
Jul.ia

Olá, Eu sou a Jul.ia, Posso te ajudar com seu IR 2026?

FAÇA SUA PERGUNTA
Dúvidas sobre IR 2026?
FAÇA SUA PERGUNTA
Jul.ia
Jul.ia