‘Ainda Estou Aqui’: a trajetória completa do livro de Marcelo Rubens Paiva às três indicações no Oscar 2025
História percorre a publicação do romance de Marcelo Rubens Paiva até a aclamação da adaptação cinematográfica de Walter Salles, com Fernanda Torres como protagonista

O Brasil está em clima de Copa do Mundo. E não tem nada a ver com o evento esportivo, que, inclusive, só acontece no ano que vem. O motivo para a empolgação e a expectativa é a cerimônia do Oscar 2025 neste domingo (2). Além do timing de Carnaval, que já é um feriado festivo por si só, a animação dos brasileiros reside no fato de que o filme Ainda Estou Aqui e a atriz Fernanda Torres estão concorrendo a três das principais estatuetas da premiação.
Na campanha para trazer para casa os prêmios de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz, o filme dirigido por Walter Salles se consagrou tanto em termos de bilheteria quanto em aclamação da crítica.
Por isso, mesmo que não ganhe nenhuma das estatuetas, Ainda Estou Aqui sempre será famoso por todos os marcos que já alcançou até o momento.
A corrida do Oscar, no entanto, não começou em janeiro, quando o filme foi nomeado pela Academia para as três categorias. Na verdade, a trajetória começou ainda em 2015, com a publicação do livro de Marcelo Rubens Paiva.
O Seu Dinheiro traçou a linha do tempo completa desde o livro até o momento atual, a dias antes do Oscar.
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Agosto de 2015: o livro
Publicado pela Companhia das Letras em 4 de agosto de 2015, a obra de Marcelo Rubens Paiva sobre a história da mãe, Eunice Paiva, se juntou ao já extenso catálogo do escritor.
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Paiva se tornou um personagem célebre na literatura brasileira após Feliz Ano Velho, uma autobiografia que relata o acidente que o deixou tetraplégico e teve mais de 1,5 milhão de edições vendidas.
Um dos leitores cativados pela obra que retrata a luta da matriarca da família Paiva foi Walter Salles, que afirmou ter lido o livro em dois dias, tamanho o envolvimento com a história.
Salles tinha uma ligação peculiar com o histórico dos Paiva, por ter frequentado a casa da família no Rio de Janeiro nos anos 1970, antes do desaparecimento de Rubens Paiva.

2017: surge uma ideia
As discussões sobre a adaptação cinematográfica de Ainda Estou Aqui começaram dois anos depois, em 2017.
“Levamos sete anos porque aquele filme, que era sobre a história do nosso passado, de repente se tornou um filme sobre o nosso presente também, porque a realidade política no Brasil mudou muito rapidamente e virou para a extrema direita. De repente, o mundo que pensávamos estar há muito tempo desaparecido se tornou palpável novamente”, explicou o diretor em entrevista ao portal Hammer to Nail.
À Vanity Fair, Salles complementou que “nunca poderia ter filmado um filme como esse entre 2018 e 2022”, período da presidência de Jair Bolsonaro.
2023: começo das filmagens
As filmagens do longa só começaram, de fato, em 2023. No entanto, registros da equipe de produção mostram que as locações já estavam sendo cotadas antes disso.
Ao g1, a coordenadora de produção executiva do longa, Camila Leal Ferreira, contou que, em 2021, Salles pediu para que ela encontrasse uma casa no Rio de Janeiro que tivesse relação com o mar, a fim de poder retratar o vibrante lar dos Paiva, que moravam nas proximidades da praia.
O diretor conta que a equipe ficou quase um ano no processo de formação do elenco.
A atriz Fernanda Montenegro foi chamada para o longa antes da filha. Ao The Guardian, Salles relatou que tinha receio que Fernanda Torres não aceitasse o convite, por já estar envolvida com outros projetos.
- Uma curiosidade: o ator que faz a versão criança de Marcelo Rubens Paiva, Guilherme Silveira, foi escalado para o filme enquanto estava jogando bola na praia do Leblon, a mesma frequentada pelos Paiva.
Algumas semanas antes das filmagens começarem de fato, o elenco foi reunido na casa para “viver como uma família”, improvisando cenas e se habituando uns aos outros, a fim de criar proximidade e deixar as dinâmicas familiares mais naturais.
No total, foram quase 550 pessoas envolvidas na produção. O filme é o primeiro original Globoplay.
Setembro de 2024: a aclamação em Veneza
No dia de 7 de setembro de 2024, o filme entrou de vez no radar das premiações mais consagradas do mundo, após ganhar o Leão de Ouro de Melhor Roteiro, na 81ª edição do Festival de Veneza.
O roteiro do longa foi escrito por Murilo Hauser e Heitor Lorega.
Foi a primeira premiação para o Brasil desde 1981, com Eles não usam Black-tie, de Leon Hirszman.
O que causou ainda mais comoção foi a informação do site americano Deadline de que a plateia do festival havia aplaudido o filme durante 10 minutos, após ser exibido.
A partir desse momento, Ainda Estou Aqui começou a ganhar tração mundial e a ser reverenciado pelas principais revistas especializadas.
Outubro de 2024: o trailer oficial e a Mostra Internacional
Logo no começo de outubro, o trailer oficial do filme começou a ser divulgado no Brasil. A distribuição foi feita pela Sony Pictures.
Foi também, nesta ocasião, que a data oficial de estreia foi divulgada para o público brasileiro.
Logo em seguida, no dia 30 de outubro, o filme foi eleito pelo público como o melhor filme nacional de ficção da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Novembro de 2024: estreia no Brasil e nomeação da Academia Brasileira
No dia 7 de novembro, Ainda Estou Aqui estreou nos cinemas brasileiros, com o devido frenesi.
Em 12 de novembro, a Sony Pictures Classics lançou o trailer internacional para o filme.
Os dados mais recentes, do site Box Office Mojo, mostram que o filme passou de R$ 100 milhões em bilheteria nacional; Até o momento, este marco coloca o longa como o 5º filme mais assistido nos cinemas brasileiros na história, com mais de 5 milhões de espectadores.
Nos Estados Unidos, onde o filme estreou em meados de janeiro, o valor acumulado já superou os US$ 4,2 milhões (R$ 24,1 milhões).
Falando de bilheterias na França, na Itália e em Portugal, as cifras já somam quase US$ 5 milhões (R$ 28 milhões).
O mês foi finalizado com “chave de ouro”: em 22 de novembro, a Academia Brasileira de Cinema oficializou a nomeação de Ainda Estou Aqui para ser o representante do Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2025.
Janeiro de 2025: reconhecimento internacional — em dobro
2025 começou agitado e esperançoso, com a premiação de Fernanda Torres como Melhor Atriz em Filme de Drama no Globo de Ouro, uma das cerimônias que é considerada “termômetro” para o Oscar.
Vinte e seis anos depois da nomeação da mãe Fernanda Montenegro, por Central do Brasil (também dirigido por Walter Salles), a vitória da filha ressoou no Brasil como uma “reparação histórica”.
À época, o filme levou o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro, mas Montenegro perdeu o Globo de Ouro de Melhor Atriz para Cate Blanchett, de Elizabeth.
O cenário se inverteu: Torres levou pra casa a estatueta, enquanto Ainda Estou Aqui perdeu para Emilia Perez, produção da Netflix.
Ao ganhar o Globo de Ouro contra atrizes extremamente reconhecidas no cinema mundial, como Angelina Jolie, Kate Winslet e Nicole Kidman, a atriz brasileira consolidou seu nome na temporada de premiações de 2025.
No final de janeiro, veio a notícia mais esperada: Ainda Estou Aqui estava indicado ao Oscar.
Não só em Melhor Filme Estrangeiro, mas também na categoria mais importante do prêmio, a de Melhor Filme, e na de Melhor Atriz, um feito histórico para a carreira de Fernanda Torres e para o cinema brasileiro como um todo.
A expectativa agora recai toda sobre este domingo de Carnaval, no qual o Brasil inteiro vai descobrir se o desfecho dessa história tem um final (ainda mais) feliz ou não.
Ainda estamos aqui, esperançosos.
* Com informações do G1, da CNN e da BBC Brasil.
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