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Ao Seu Dinheiro, o fundador Israel Salmen conta que quer reduzir a dependência das plataformas de e-commerce e apostar em um novo mercado; confira a entrevista na íntegra
A decisão do Méliuz de investir parte do caixa em bitcoin (BTC), feito inédito no Brasil, resultou em um movimento incomum para as ações CASH3: a volta do fluxo de investimentos para o papel.
Desde a abertura de capital, em 2020, a plataforma de cashback vivenciou uma verdadeira drenagem de liquidez na bolsa brasileira e acumulou uma desvalorização de quase 50% na B3.
Para se ter ideia, o volume de negociações, que outrora chegou a rondar a marca dos R$ 300 milhões por dia, passou a se limitar a alguns poucos milhões de reais negociados por dia. Já o valor de mercado saiu do pico de R$ 9 bilhões para os atuais R$ 305 milhões.
Acontece que, diante do frenesi com os investimentos em bitcoin, no dia do anúncio da estratégia de tesouraria as ações CASH3 saltaram mais de 16% na B3, com um volume negociado superior a R$ 36 milhões, segundo o BTG Pactual.
Para o fundador e presidente do conselho de administração (chairman) do Méliuz, Israel Salmen, a nova estratégia de tesouraria é somente uma das iniciativas da empresa para reconquistar os holofotes do mercado.
“O anúncio do investimento em bitcoin reativou contatos antigos que a gente não falava há bastante tempo. Mas estamos sempre buscando fatos novos, sejam eles relacionados à operação ou como agora por meio da alocação do caixa, que possam abrir um diálogo com investidores”, afirmou Salmen, em entrevista ao Seu Dinheiro.
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O executivo não só pretende diversificar a rede de varejistas parceiras, como também apostar em um outro mercado além do e-commerce para manter o crescimento nos próximos anos. Você confere os detalhes no papo abaixo.
Em nota, o Méliuz (CASH3) afirma que, em meio à a alta dos juros no Brasil, a empresa passou a “atrair menos atenção dos investidores, nossos calls de resultados se tornaram menos participativos e alguns grandes bancos encerraram a cobertura da ação”, mesmo com os avanços no negócio principal.
Marcio Loures Penna, diretor de relações com investidores, reforça que a saída do Méliuz (CASH3) do radar do mercado não se deve à operação da companhia, mas sim de fatores macroeconômicos.
“É até engraçado falar, hoje o nosso valor de mercado é muito menor do que foi em 2021, sendo que eu não fazia metade da receita que faço hoje. Quando falamos de precificação de ações, é realmente muito subjetivo, porque tem muitos fatores alheios à companhia que impactam. É por isso que o nosso objetivo enquanto administradores é fazer o que consideramos correto para gerar valor para o acionista, e temos absoluta certeza que nos últimos anos fizemos isso. Com o tempo, a precificação correta virá.”
Para os executivos, parte da perda de relevância do Méliuz (CASH3) nas discussões de investimento dos brasileiros também foi resultado da queda da liquidez do mercado de renda variável como um todo.
Afinal, depois de um ciclo de juros baixos que possibilitou a estreia de inúmeras ações na bolsa brasileira, em um otimismo generalizado com o mercado de renda variável, a volta de um duro aperto monetário no Brasil interrompeu o apetite dos investidores por ativos de maior risco.
Dessa forma, as ações de menor capitalização (small caps) e de crescimento, como o Méliuz, foram diretamente afetadas pela mudança de sentimento dos investidores.
“O mercado brasileiro secou e com isso, assim como outras empresas, o Méliuz foi bastante prejudicado e tem sofrido bastante com isso. Mas o negócio está indo bem e segue em crescimento. Acreditamos que o mercado trabalha em ciclos e, assim que a situação virar em algum momento, começaremos a capturar um pouco mais de valor ali para os nossos acionistas e para as ações”, avaliou.
Vale lembrar que, diante de um cenário macroeconômico mais apertado, a plataforma de cashback decidiu duas vezes por devolver dinheiro do caixa aos investidores, com duas reduções de capital só nos últimos dois anos.
Para o diretor de RI, se o Méliuz mantiver os investimentos no core business e o ritmo de crescimento, assim que o mercado voltar a melhorar, o Méliuz “vai ser lembrado”.
“O investidor que compra uma ação do Méliuz hoje está comprando uma cesta de ativos. É um aplicativo de cashback com 35 milhões de usuários, com milhões de parceiros e bilhões de vendas. É uma empresa sem dívidas e com um caixa robusto de R$ 240 milhões, cuja maior parte está aplicado em renda fixa, mas com 10% também alocado em bitcoin”, disse.
Na avaliação de Inácio Alves, analista da Melver, com a redução nos custos da empresa, aumento das receitas e uma possível redução na taxa de juros a partir do terceiro trimestre de 2025, “pode ser que se torne um primeiro bom momento para começar a avaliar o Méliuz com um pouco mais de atenção”.
Questionado sobre a decisão de investir 10% do caixa em bitcoin, ativo conhecido tanto pelos retornos expressivos como pela volatilidade intensa, o fundador do Méliuz (CASH3) destaca o potencial de ganhos de longo prazo da criptomoeda.
“A gente não acredita que o jeito como investimos o nosso dinheiro do caixa hoje traz o melhor retorno para o acionista, porque vivemos em uma economia de lucro real, com impostos elevados sobre os rendimentos da renda fixa”, ponderou Salmen.
Na avaliação do executivo, especialmente após o endosso do presidente Donald Trump às criptomoedas, o bitcoin é visto cada vez mais como o “ouro digital” da economia, garantindo uma proteção contra a inflação.
“Estamos longe de querer ser trader e ganhar com a volatilidade. A nossa tese é acreditar na moeda, por isso seremos acumuladores de bitcoin.”
Vale lembrar que o Méliuz comprou 45,72 bitcoins por aproximadamente US$ 4,1 milhões.
“Sabemos que é um ativo volátil e com uma regulação que ainda está se criando nos Estados Unidos, mas quando olhamos a performance nos últimos anos, vemos que ele preserva mais valor do que qualquer outro”, avaliou.
Segundo o CIO e estrategista-chefe da Empiricus, Felipe Miranda, apesar de a empresa ter caixa e saúde financeira suficientes para fazer a aquisição do bitcoin, a decisão de alocação sinaliza uma “empresa desfocada”.
“Quem compra ação do Méliuz deveria estar investindo no modelo de negócio proposto pela empresa, e não em uma alocação especulativa em criptoativos. Se o investidor individual acredita na valorização do bitcoin, ele pode comprá-lo diretamente”, avaliou Miranda.
“Eu vejo essa decisão como um sintoma de uma empresa desfocada. O Méliuz poderia estar concentrado em fortalecer seu core business e gerar valor para seus acionistas. Pode ser um sinal preocupante.”
A XP Investimentos também avalia a estratégia com cautela, especialmente porque a empresa não opera com criptomoedas em seu negócio principal de cashback.
“Essa política de caixa parece desconectada dos objetivos operacionais da companhia, gerando incertezas sobre sua eficácia e levantando questionamentos sobre a capacidade da empresa de reinvestir sua geração de caixa em suas atividades principais”, disseram os analistas.
No entanto, a XP avalia que o bitcoin poderia evoluir como uma reserva de valor no futuro, o que justificaria essa alocação se a estratégia for melhor alinhada com as operações do Méliuz.
Já o analista da Melver faz um paralelo da nova estratégia de tesouraria do Méliuz com as apostas frustradas da Sadia em câmbio, nos anos 2000.
Vale ressaltar que o frigorífico adotou operações em derivativos de câmbio como uma forma de dupla proteção contra a variação do dólar. No entanto, essas apostas não tiveram o resultado esperado e, diante das enormes perdas financeiras, a Sadia viu-se na necessidade de se fundir com a Perdigão para garantir sua sobrevivência.
“Se o Méliuz não colocar em risco sua saúde financeira, pode ser uma excelente estratégia de geração de recurso extra no longo prazo. Porém, se começar a dar muita atenção para a alocação do bitcoin e deixar de lado o negócio principal, eu entendo que a empresa poderia ter o mesmo destino da Sadia, sem conseguir controlar bem os riscos e acabar trocando os pés pelas mãos”, avaliou.
Para além do bitcoin, outra estratégia do Méliuz (CASH3) para manter o crescimento — apesar da concorrência crescente e do cenário macroeconômico adverso — é diversificar.
Em meio à chegada em peso de varejistas asiáticas no Brasil, a plataforma de cashback já firmou novas parcerias com companhias estrangeiras para reduzir a dependência do e-commerce local, especialmente após a crise em um gigante do varejo brasileiro nos últimos anos.
Além disso, enquanto o cenário macroeconômico segue apertado para o setor de varejo e de consumo, o Méliuz também pretende diminuir a dependência das plataformas de e-commerce e apostar em um novo mercado: o de grandes marcas da indústria.
A nova iniciativa consiste em permitir o cashback por meio do envio da nota fiscal sem necessidade de integração com o varejista.

Basta que o cliente compre algum dos produtos promocionais patrocinados pelos novos parceiros do Méliuz, como a Unilever, e tire uma foto do QR Code do cupom fiscal após a aquisição para receber alguma forma de cashback.
“Estamos ajudando essas marcas a venderem no mundo físico. É um mercado que pode ser até maior do que o de e-commerce, que tem margens mais baixas. Para os próximos anos, acredito que esse negócio tende a crescer muito mais do que o nosso negócio tradicional. No entanto, como o nosso core business é muito grande, qualquer melhoria pequena que seja consegue gerar um valor muito grande”, disse o fundador.
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O que explica esse desempenho é a emissão de ações da companhia, para trocar parte de suas dívidas por participação.
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