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A confusão das línguas

‘Torre de Babel’ saudita? Construção do ‘The Line’ é paralisada justamente pelo que buscava eliminar

Projetada para ser livre de combustíveis fósseis, a construção da cidade futurística, na Arábia Saudita, foi interrompida por não “compreender a língua” do preço do petróleo

Imagem: Time Out

Não precisa ser um grande religioso para conhecer a Torre de Babel, a história conta a tentativa ambiciosa de construir um edifício que chegava ao céu, mas que ficou “no meio do caminho” porque ninguém mais conseguia entender o idioma em que o outro falava.

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Milhares de anos depois, parece que estamos diante de uma história com características muito parecidas. A Arábia Saudita anunciou na última terça-feira (4) mudanças relevantes no projeto Vision 2030, inclusive a pausa da construção do “The Line”.

O arrojado plano estratégico, prometia transformar a costa noroeste do país, localizada no Mar Vermelho, em uma cidade futurística totalmente movida por energia 100% renovável.

Contudo, o principal problema para o avanço do projeto é justamente o que ele busca eliminar: a dependência do petróleo. Ironicamente, a construção da cidade renovável foi pausada e outras iniciativas canceladas devido ao petróleo barato

‘The line’: a cidade linear na costa do Mar Vermelho

Em 2016, o príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, lançou o Vision 2030, uma iniciativa com o objetivo de transformar a Arábia Saudita em uma potência econômica, tecnológica e turística.

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Entre os diversos projetos, estava o “The Line”, uma cidade linear com 170 quilômetros de extensão, em que 95% do território seria de reserva natural.

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A estrutura comportaria 9 milhões de habitantes com um sistema de energia 100% renovável. Ainda de acordo com o projeto, a cidade seria livre de carros e emissões de gás carbônico. Mas os habitantes teriam tudo à disposição em uma caminhada de, no máximo, 5 minutos. 

E a viagem para atravessar toda cidade não levaria mais que 20 minutos — muito mais rápido que ir a praticamente qualquer lugar em grandes cidades como São Paulo. 

Assim, o “The Line” era parte de um complexo maior, o Neom que contava com outros três grandes empreendimentos: 

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  • Oxagon: um porto flutuante e polo industrial que também abrigaria o centro de dados em IA; 
  • Trojena: o destino para turismo de montanha, previsto para sediar os Jogos Asiáticos de Inverno em 2029; e 
  • Sindalah: ilha de luxo com hotéis 5 estrelas, lojas de grife, restaurantes e outras comodidades turísticas. 

O orçamento para realizar todos os empreendimentos foi de 2 trilhões de dólares, o equivalente a mais 10 trilhões de reais, financiados pelo Fundo de Investimento Público (PIF - sigla em inglês) do reino. 

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‘The line’, contas sauditas e o preço do petróleo não falam a mesma ‘língua’

Assim como na história bíblica que a confusão de idiomas impediu a finalização da Torre de Babel, o projeto “The Line”, as contas sauditas e o preço do petróleo pareciam não falar a mesma “língua” há algum tempo. 

Além do custo trilionário de todo o empreendimento, quando o príncipe herdeiro saudita lançou o projeto, a projeção era de que o preço do barril de petróleo ficaria na casa dos US$ 100 ou até mais alto, garantindo ao país — que é grande exportador da commodity — o financiamento. 

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Entretanto, desde que começaram as construções do The Line, em abril de 2022, o preço do petróleo tipo Brent caiu 40%. Desde então, a commodity não voltou a negociar na casa dos três dígitos. 

Da mesma forma, as contas do reino dão sinais de fraqueza há algum tempo. De acordo com o CEIC Data, a relação dívida/PIB da Arábia Saudita saltou de 22,9% em abril de 2023 para 29,8% em dezembro do ano passado.

Na época, o ministro das Finanças, Mohammed Al-Jadaan disse em entrevista à CNBC que a trajetória de gastos do país era sustentável e que havia outras fontes de receita como, por exemplo, recursos fiscais para bancar as despesas.

Entretanto, diante da projeção de um déficit fiscal de US$ 26,9 bilhões no orçamento de 2025, a Arábia Saudita chegou à conclusão de que as despesas com o The Line, os gastos públicos e o preço do petróleo precisavam de um “idioma em comum”. 

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‘A Arábia Saudita é muito rica, mas tudo tem um limite’ 

Diante do déficit das contas do reino e do preço do petróleo em baixa, a alternativa encontrada pela Arábia Saudita foi “fazer uma correção de rota”, diz Jerry Inzerillo, executivo e conselheiro de Mohammed bin Salman. 

Em entrevista ao Times, ele reforçou que o país é muito rico, porém há um limite para o quanto pode ser gasto nestes projetos, e o reino precisa “ser mais conservador”, neste momento. 

Diante disso, houve mudanças importantes não só no “The Line”, mas em todo o projeto do Vision 2030. 

Além da pausa na construção, houve uma drástica redução na extensão do The Line. O mesmo aconteceu com o número de potenciais habitantes que passou de 9 milhões para 300 mil. Segundo Inzerillo, o projeto foi “posicionado como um laboratório de como será a qualidade de vida em 2040”.

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A ilha de luxo, Sindalah foi completamente cancelada. De acordo com informações do Daily Mail UK, o príncipe teria ficado furioso com o desperdício de recursos no projeto. Um exemplo foi o uso de peles de crocodilo na cobertura do interior de um prédio. 

Já a estação de esqui nas montanhas, Trojena, que sediaria os Jogos Asiáticos de Inverno 2029 terá sua inauguração adiada de três a quatro anos. A Coréia do Sul vai receber os jogos no lugar do país. 

Apesar dos ajustes nos rumos do Vision 2030, a Arábia Saudita manteve investimentos estratégicos em entretenimento e tecnologia, principalmente relacionados à inteligência artificial. 

Ainda de acordo com o comunicado, outros projetos terão atrasos no cronograma. Mas as autoridades estão confiantes no preço do petróleo mais alto nos próximos dois anos, viabilizando a retomada das construções. 

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