Nem todo mundo curtiu: líderes europeus se queixam de acordo fechado com os EUA, e setores pedem tarifa zero; entenda o que incomodou
Setores-chave da economia europeia seguem sendo alvos das tarifas de Trump, e líderes enxergam que a UE saiu enfraquecida

Inicialmente, o acordo entre os EUA e a União Europeia (UE) anunciado no último domingo (27) foi recebido com alívio, uma vez que reduziu as tarifas de 30% para 15% sobre os produtos europeus importados pelo parceiro comercial.
Porém, os líderes da UE pegaram os óculos, limparam as lentes e estão lendo as letras miúdas. O conteúdo, agora, não está agradando mais. Uma enxurrada de críticas dos países-membros do bloco começaram a circular no mercado.
Karl Falkenberg, ex-diretor-geral adjunto da Direção do Comércio da Comissão Europeia, afirmou que “seria difícil imaginar um acordo pior”.
“Isso nos lembra que a UE ainda é um gigante econômico e um anão político. Trump conseguiu uma mudança substancial nas tarifas, sem qualquer reequilíbrio por parte da União Europeia”, disse Falkenberg.
A negociação entre o bloco e os EUA é criticada principalmente por conta de setores-chave da economia europeia que seguem sendo alvo de tarifas, como carros, vinhos e itens de luxo.
Segundo o Conselho Europeu, os países comercializaram US$ 2 trilhões em produtos desses segmentos no ano passado.
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Além disso, pontos do acordo como a não retaliação por parte da UE, também repercutiram negativamente.
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Críticas atrás de críticas
Entre os membros da União Europeia que se posicionaram contra o acordo, o governo da França foi o mais estridente. Para os líderes franceses, o bloco deveria retaliar as taxas de Trump e alertou que a Europa saiu politicamente enfraquecida da mesa de negociações.
As ameaças do republicano eram ainda mais rejeitadas pelo presidente, Emmanuel Macron, que defendia que a única saída para a UE era impor tarifas como demonstração de força.
“É um dia sombrio quando uma aliança de povos livres, reunidos para afirmar seus valores e defender seus interesses, resolve se submeter (aos EUA)”, escreveu o primeiro-ministro François Bayrou por meio de suas redes sociais.
Já Benjamin Haddad, ministro da França responsável por assuntos europeus, indicou que o acordo comercial de Trump constituía uma “tática predatória”.
“O livre-comércio que trouxe prosperidade compartilhada a ambos os lados do Atlântico desde o fim da 2ª Guerra Mundial está agora sendo rejeitado pelos Estados Unidos, que optaram pela coerção econômica e pelo completo desrespeito às regras da OMC [Organização Mundial do Comércio]”, escreveu em redes sociais.
Mas não foi apenas o humor dos franceses que azedou com as negociações. O pacto firmado com Trump também foi criticado por um membro do alto escalão do conselho da Federação das Indústrias Alemãs (BDI), Wolfgang Niedermark.
Ele indicou a baixa competitividade da UE como o principal motivo para o fracasso em estabelecer um acordo melhor. “A Comissão Europeia simplesmente não tinha uma boa posição de negociação”, afirmou ao Financial Times.
Além disso, políticos da extrema-direita da França e da Alemanha criticaram duramente as negociações sobre o tarifaço de Trump.
Alice Weidel, líder do partido de extrema-direita alemão, escreveu na rede social X (antigo Twitter): “Tarifas de 15%, a obrigação de obter armas e energia dos EUA não são um acordo, mas um tapa na cara dos consumidores e produtores europeus!”, opinou.
Já a líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, reclamou que a União Europeia, com 27 Estados-membros, recebeu “condições piores do que o Reino Unido”.
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Copo meio cheio: novos acordos além dos EUA
Apesar da enxurrada de críticas, há quem esteja vendo o copo meio cheio. A associação da indústria alemã VDMA, que representa mais de 3,6 mil empresas, indicou que o pacto firmado não deve ser visto “como um ‘novo normal’”.
“A UE deve agora fortalecer consistentemente sua competitividade, expandir o mercado interno, aumentar a independência em defesa e matérias-primas, se afirmar como um espaço econômico aberto e concluir acordos comerciais com novos parceiros”, escreveu o presidente da associação, Bertram Kawlath, em comunicado.
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, compartilha da mesma avaliação que a VDMA. Em coletiva, ele defendeu que os europeus “precisam agir em conjunto” e devem diversificar suas relações comerciais.
“Na semana passada, estive em dois países que fazem parte do Mercosul. Eu acredito que esse é o caminho, temos de diversificar nossas relações comerciais, fazer isso com regiões e blocos”, disse.
Além disso, Sánchez afirmou que valoriza os esforços feitos pela Comissão Europeia e apoia o acordo tarifário, mas “sem nenhum entusiasmo”.
Já para a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, o acordo foi “positivo”. A líder italiana avalia que “uma escalada comercial teria consequências imprevisíveis e potencialmente devastadoras”.
Apesar de apoiar o novo pacto, Meloni afirmou que “ainda há uma luta a ser travada”, pois ainda é preciso garantir que setores mais sensíveis sejam preservados.
Líderes exigem tarifa zero para setores-chaves europeus
A Câmara de Comércio Americana em Bruxelas também comemorou o acordo, afirmando que as negociações trazem alívio às empresas europeias. Porém, pressionou pela tarifa zero em alguns setores.
“[A taxa de 15%] ainda representa um aumento significativo no custo de negociação”, afirmou.
E não foi só a entidade que defendeu a presença de setores na lista da tarifa zero. Os produtores de whiskey pedem pelo retorno permanente à isenção de impostos.
*Com informações do Estadão Conteúdo e Financial Times.
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