Ele foi internado em clínicas psiquiátricas e recebeu até eletrochoques, mas nada disso o impediu de chegar ao Nobel de Economia
Diagnosticado com esquizofrenia paranoide, o criador do “equilíbrio de Nash” superou o isolamento e voltou à razão para, enfim, receber o Nobel.

John Nash não era um gênio comum — e talvez nem quisesse ser. Nos anos 1950, o matemático norte-americano revolucionou a teoria dos jogos, base para a economia moderna e o estudo do comportamento estratégico. Mas enquanto o mundo tentava entender suas equações, Nash lutava contra algo bem mais complexo: ele mesmo.
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Diagnosticado com esquizofrenia paranoide, o cientista passou por internações forçadas, tratamentos com eletrochoques e um colapso mental que o afastou das universidades por quase duas décadas.
A mente brilhante de Nash
Nos anos 1950, Nash despontava como um prodígio da matemática moderna. Doutor pela Universidade de Princeton, era conhecido por transformar abstrações complexas em fórmulas precisas.
Aos 21 anos, apresentou uma tese de apenas 26 páginas, onde definiu o que viria a ser conhecido como o “equilíbrio de Nash”, conceito que revolucionaria a teoria dos jogos e se tornaria uma das bases intelectuais para entender mercados, negociações políticas e até comportamentos biológicos.
Mas, por trás da genialidade, havia o início do colapso: em 1959, a carreira de John Nash foi abruptamente interrompida por um diagnóstico de esquizofrenia paranoide, acompanhado de delírios persecutórios. Isso desatou longos períodos de internação.
A comunidade acadêmica, que antes o reverenciava como um gênio precoce, afastou-se em silêncio. Colegas deixaram de responder às suas cartas, e por quase duas décadas Nash desapareceu do circuito científico.
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Entre 1959 e o fim dos anos 1970, ele deixou de lecionar e publicar. Embora continuasse vinculado informalmente à Universidade de Princeton, não ocupava cargo docente e nem participava de pesquisas ou orientações.
Durante esse período, foi internado diversas vezes em hospitais de Nova Jersey e Massachusetts, em meio a sucessivos episódios psicóticos.
No fim da década de 1970, Nash começou a retornar gradualmente ao campus de Princeton. Caminhava pelos corredores, observava as aulas, trocava breves palavras com antigos colegas.
Essa presença discreta inspirou a imagem recorrente de um “fantasma genial” vagando pela universidade — descrição confirmada tanto no livro de Sylvia Nasar quanto nos depoimentos de professores que o viam “quase todos os dias, mas sempre distante”.
A volta por cima com um Nobel
Aos poucos, no final dos anos 1980, Nash começou a se recuperar. Voltava a frequentar a universidade, lia jornais, discutia ideias.
Em 1994, aos 66 anos, Nash foi chamado de volta ao centro do mundo. Recebeu o Prêmio Nobel de Economia, ao lado de Reinhard Selten e John Harsanyi, pela formulação da teoria dos jogos não cooperativos — a mesma que transformaria a compreensão moderna dos mercados, da política e até das relações humanas.
Sua teoria demonstrou que, mesmo em contextos de egoísmo e conflito, a lógica ainda pode encontrar equilíbrio.
Foi uma consagração tardia, mas simbólica: o reconhecimento de um homem que reconstruiu a própria razão. “Eu emergi do pensamento irracional gradualmente. Comecei a pensar racionalmente de novo”, disse Nash, anos depois.
Do Nobel ao Oscar
Em 2001, sua história virou cinema com Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind), estrelado por Russell Crowe e Jennifer Connelly, e dirigido por Ron Howard.
O filme foi um sucesso: ganhou quatro dos oito Oscars aos quais foi indicado em 2002, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz Coadjuvante (Connelly) e Melhor Roteiro Adaptado.
Hollywood suavizou algumas partes. No filme, Nash é mais herói do que paciente, mas manteve o essencial: a luta de um homem que enxergava lógica até no delírio.
A cena em que Nash vê números flutuando no ar virou símbolo de uma geração que descobriu que “ser gênio” não é sinônimo de “ser são”.
John Nash morreu em 2015, aos 86 anos, em um acidente de carro junto da esposa, Alicia.
O Nobel da Economia de 2025
Dez anos depois da morte de Nash, a Academia Real de Ciências da Suécia concedeu hoje (13) o prêmio Nobel de Economia 2025 à Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt, por terem explicado o crescimento econômico impulsionado pela inovação.
“Joel Mokyr usou observações históricas para identificar os fatores necessários para o crescimento sustentado com base em inovações tecnológicas”, disse John Hassler, membro do Comitê do Nobel. Já Philippe Aghion e Peter Howitt produziram um modelo matemático de destruição criativa, um processo interminável em que produtos novos e melhores substituem os antigos.
O prêmio Nobel de Economia, também conhecido como Prêmio Sveriges Riksbank em Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, é o último Nobel a ser concedido este ano e vale 11 milhões de coroas suecas (US$ 1,2 milhão).
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