Gen Z stare e o silêncio que diz (muito) mais do que parece
Fomos treinados a reconhecer atenção por gestos claros: acenos, olho no olho, perguntas bem colocadas. Essa era a gramática da interação no trabalho. Mas e se os GenZs estiverem escrevendo com outra sintaxe?

Confesso: por muito tempo achei que fosse só implicância minha com os GenZs — uma mistura de curiosidade e leve irritação que aparecia especialmente nas interações com os meus sobrinhos (não me matem, eu amo vocês!). Aquela sensação de estar falando e, do outro lado, encontrar um olhar fixo, meio congelado, entre o tédio e a introspecção.
Mas aí veio o “aha”: vi um post no TikTok e, pouco depois, uma matéria na Forbes que deu nome àquilo — Gen Z stare. Aquele olhar vazio da Geração Z em situações sociais e profissionais. E foi nesse momento que percebi: não era só coisa da minha cabeça. Muita gente já vem observando, discutindo e tentando entender esse comportamento.
De cara, o impulso é julgar. Inclusive o meu. Parece desinteresse. Falta de vontade. Falta de presença. Mas quanto mais observo, mais percebo que talvez o erro esteja na lente com a qual a gente lê esses sinais. O que parece desengajamento pode ser, na verdade, um novo jeito de estar.
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Quando o silêncio vira linguagem
Fomos treinados a reconhecer atenção por gestos claros: acenos, olho no olho, perguntas bem colocadas. Essa era a gramática da interação no trabalho — especialmente para quem vem de outras gerações. Mas e se quem é Gen Z estiver escrevendo com outra sintaxe?
Essa turma cresceu se comunicando por mensagens curtas, emojis, GIFs. O jeito de demonstrar presença mudou. Em vez de se expressarem com palavras ou reações visíveis, eles podem estar dizendo "estou aqui" de um jeito mais contido.
E quando a gente espera a velha reação mais expressiva, corre o risco de não captar o que está sendo dito de verdade.
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Trauma social e déficit de treino
Tem também uma camada mais profunda. Muitos deles atravessaram momentos decisivos da adolescência — e da vida — em meio à pandemia. Isolamento, telas, ausência de treino social presencial. Uma parte importante do desenvolvimento interpessoal aconteceu atrás de câmeras e aplicativos. E isso pode ter deixado marcas.
Alguns estudos já mostram queda nas habilidades socioemocionais e na expressão verbal de jovens que viveram esse período em formação. Mais ansiedade, mais insegurança nas trocas presenciais. E, muitas vezes, a ausência de resposta não é um descaso. É só que eles ainda não sabem exatamente como responder.
O tal olhar congelado pode ser um sinal disso tudo. De uma geração que está aprendendo a reagir num ambiente para o qual não teve muito tempo de treino. Um silêncio que, se lido com calma, pode dizer muita coisa.
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E a gente, vai se adaptar?
A pergunta que fica é: a gente vai seguir exigindo que todos se comportem de um jeito que já conhecemos — ou vamos nos abrir pra aprender uma nova linguagem de conexão?
Não é sobre passar pano, nem sobre relativizar tudo. É sobre empatia prática. Entender que quem cresceu num mundo de comunicação instantânea pode, ironicamente, ter mais dificuldade no improviso da conversa real.
O Gen Z stare talvez seja só um olhar. Mas ele tem um monte de coisa ali dentro. A gente só precisa aprender a olhar de volta — com menos filtro e mais abertura.
Até a próxima,
Thiago Veras
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