A sucessão no Fed: o risco silencioso por trás da queda dos juros
A simples possibilidade de mudança no comando do BC dos EUA já começou a mexer na curva de juros, refletindo a percepção de que o “jogo” da política monetária em 2026 será bem diferente do atual

O mês de novembro apresentou uma dinâmica particularmente interessante. Quando observamos o comportamento dos ativos brasileiros, a fotografia é nitidamente mais favorável do que aquela vista nos mercados internacionais.
Ao longo de 2025, a narrativa predominante em diversas praças globais foi a de um dólar estruturalmente mais fraco, movimento que costuma beneficiar ativos internacionais — incluindo os brasileiros, tradicionalmente mais sensíveis a esse tipo de oscilação cambial.
Em novembro, porém, o pano de fundo global ganhou um contorno distinto, marcado pelo temor crescente de uma possível bolha nas teses ligadas à inteligência artificial (IA).
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O ponto central dos mercados
Enquanto os Estados Unidos enfrentavam volatilidade adicional — tanto por essa preocupação com valuations em IA quanto pela incerteza sobre a continuidade do ciclo de cortes do Federal Reserve (Fed) —, os ativos domésticos encontravam espaço para avançar.
A combinação de expectativas mais firmes de redução da Selic, maior probabilidade de alternância de poder nas eleições de 2026 e um dólar ainda enfraquecido criou um ambiente mais construtivo para o Brasil.
Na etapa final do mês, contudo, o cenário internacional começou a se recompor: as tensões sobre o setor de inteligência artificial arrefeceram e deram lugar a um processo mais saudável de diferenciação entre empresas — uma rotação entre nomes que subiram excessivamente e outros que ficaram para trás — ao mesmo tempo em que ressurgiu a chance de um corte adicional de juros nos EUA.
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Esse ponto foi central. Durante boa parte de novembro, o mercado global operou sob incerteza quanto à possibilidade de cortes adicionais já em dezembro, refletindo tanto o tom mais duro adotado por Jerome Powell na última coletiva — quando evitou sinalizar conforto com novos cortes — quanto o “apagão” de dados oficiais resultante do shutdown prolongado do governo norte-americano.
A ausência de indicadores-chave aumentou a hesitação dos investidores e reforçou a volatilidade.
Gradualmente, porém, o ambiente começou a mudar. O fim da paralisação permitiu a retomada da divulgação de indicadores — ainda que atrasados e com defasagens estatísticas relevantes — e trouxe maior visibilidade ao ciclo econômico.
Paralelamente, dados privados e regionais, que não foram afetados pelo shutdown, continuaram a ser publicados e acabaram reforçando a leitura de desaceleração moderada e de espaço para flexibilização monetária.
Esses sinais, combinados, ajudaram a sustentar a percepção de que um novo corte de juros em dezembro voltou a ser uma possibilidade concreta, contribuindo para a melhora dos mercados globais na virada do mês.
No pano de fundo, a sucessão no Fed tornou-se um dos principais focos de atenção dos mercados. Donald Trump afirmou já ter escolhido o nome que substituirá Jerome Powell e deve formalizar o anúncio em breve.
Entre os candidatos, Kevin Hassett — diretor do Conselho Econômico Nacional — aparece como favorito por ser mais alinhado ao desejo da Casa Branca de promover cortes de juros mais agressivos. Kevin Warsh também permanece no radar.
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O jogo da política monetária no Fed
A simples possibilidade de mudança no comando do Fed já começou a mexer na curva de juros, refletindo a percepção de que o “jogo” da política monetária em 2026 será bem diferente do atual.
Pairam incertezas sobre os efeitos das novas tarifas sobre a inflação, sobre a demanda que pode vir da “One Big and Beautiful Bill” de Trump e, sobretudo, sobre o grau de autonomia que o banco central manterá.
Trump há muito demonstra desconforto com a postura de Powell, pressionando reiteradamente por juros mais baixos — atitude que, não raramente, se aproxima do populismo observado em países emergentes, inclusive na América do Sul. Por isso, a sucessão do atual presidente do Fed — cujo mandato termina em maio de 2026 — está longe de ser um processo trivial.
Os nomes cogitados são, em maior ou menor grau, politicamente mais alinhados ao presidente, e todos carregam o potencial de promover inflexões significativas na condução institucional da política monetária. A discussão central, portanto, não é apenas “quem será escolhido”, mas “quão independente será o próximo presidente do Fed”.
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Além do corte de juros
O projeto em discussão vai além de simples cortes de juros. A proposta envolve uma reengenharia mais profunda da instituição: redução de pessoal, reorganização dos bancos regionais e, principalmente, uma redefinição da missão da autoridade monetária, aproximando-a mais das prioridades do Executivo do que do manual ortodoxo que guiou o Fed ao longo de décadas. Uma verdadeira “mudança de regime”.
O efeito sobre a governança seria imediato: maior politização, perda de coesão técnica e risco de que o FOMC passe a operar de forma mais semelhante à Suprema Corte — polarizada, sujeita a disputas de nomeações e menos previsível.
Com apenas duas cadeiras do comitê abertas para nomeação no próximo mandato, a sucessão de Powell pode se transformar em peça-chave não só da política monetária, mas da própria dinâmica eleitoral e da estabilidade dos mercados.
A perspectiva de Hassett assumir o comando reforçou a leitura de que o Fed poderia se tornar mais inclinado a cortes de juros — ainda que isso, no médio prazo, envolva riscos conhecidos.
Os Estados Unidos já experimentaram, nos anos 1970, o custo econômico de intervenções políticas na autoridade monetária, processo que contribuiu para reacender a inflação. A própria experiência brasileira mostra que a politização do BC costuma cobrar um preço elevado.
Ainda assim, o mercado interpreta que a presença de quadros técnicos dentro do Fed tende a funcionar como contrapeso, evitando movimentos abruptos ou excessivamente politizados.
Nesse contexto, voltou a ganhar força a expectativa de um corte de juros já em dezembro, seguido de possíveis reduções adicionais em 2026 — desde que a economia evite uma recessão.
Esse cenário mais flexível reforça ativos de risco, especialmente os mais sensíveis ao ciclo de juros, e favorece um enfraquecimento adicional do dólar em nível global, alimentando a tese de rotação internacional de portfólios.
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