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Fundador da Petz, Sergio Zimerman falou sobre a fusão em teleconferência com analistas, que não contou com a presença de ninguém da Cobasi
Petz (PETZ3) e Cobasi, as duas redes que lideram o varejo dedicado aos animais de estimação, assinaram um acordo prévio para unir as operações — um dos eventos mais esperados nos últimos anos pelo mercado.
“Finalmente essa transação tão aguardada que já havíamos comentado em diferentes contextos caminha para a conclusão,” disse Sergio Zimerman, fundador, principal acionista e CEO da Petz em teleconferência com analistas esta manhã. Ninguém da Cobasi, que não tem ações na Bolsa, participou da reunião.
O executivo apresentou as bases de um memorando de entendimentos entre as companhias, mas não deu detalhes sobre sinergias ou planos futuros. Isso vai acontecer somente depois que o negócio for assinado, dentro de até 90 dias. Nesse período, as companhias farão diligências e manterão conversas exclusivas.
Zimerman entrou nesse negócio, há 22 anos, inspirado na Cobasi, criada pela família Nassar, em meados dos anos 80. “Agora temos a oportunidade de estarmos juntos, consolidando as duas líderes de mercado”, disse.
E a inspiração de agora é outra: a Raia Drogasil — fusão entre Drogasil e Droga Raia, que se transformou em um dos maiores sucessos da bolsa brasileira.
“Esperamos que Petz e Cobasi repitam esse sucesso. O segmento pet tem similaridade com setor de farmácias, também é muito fragmentado”, disse Zimerman.
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Aliás, ele destacou que o presidente do conselho de administração da Petz é Claudio Ely, que foi CEO da Drogasil, liderou a abertura de capital da empresa em 2007 e também participou do processo de fusão com a Raia. Assim como no processo das farmácias, as duas marcas deverão ser mantidas.
Juntas, Petz e Cobasi deverão ter cerca 500 lojas pelo Brasil e 15% do mercado, que é muito pulverizado em lojas de bairro e players regionais, mas — até agora — sem um player consolidador.
O fundador da Petz anunciou a operação como uma fusão de iguais. Pelos termos anunciados, de fato, os acionistas de Cobasi e de Petz dividirão meio a meio a companhia combinada. No entanto, para que essa relação de troca fosse definida, também ficou acertado que os acionistas da Petz receberão R$ 450 milhões da Cobasi.
A maior parte desse dinheiro vai para o próprio Zimerman, que tem 29,7% da companhia por meio de participação direta em ações. Mas, nos últimos meses, ele se alavancou por meio de operações de derivativos e aumentou indiretamente essa exposição para 49%.
Segundo Zimerman, a relação de 50% para cada lado cria o ambiente correto para a construção de valor: “Na medida em que identificarmos as melhores práticas de cada companhia, elas passarão a ser da companhia combinada.”
O principal mérito da operação não é a soma, mas o delta que a combinação de negócios provoca, ainda de acordo com o CEO da Petz. “A combinação, com decisões corretas, significa potencial muito maior. Nesse caso, 1 +1 vai dar 3,4…”
Zimerman e o mercado estavam em uma espécie de batalha entre comprados (apostando na alta) e vendidos (apostando na queda).
A Petz, que despencou 75% desde o IPO, em 2020, estava com 23% do capital em circulação (free float) alugado. Ou seja, uma sinalização de que os investidores apostavam que ainda havia espaço para o papel cair mais.
Nesse curto período de tempo na bolsa, a empresa foi de “queridinha” a decepção no mercado, basicamente porque não entregou o crescimento esperado. A Petz chegou a valer mais de R$ 10 bilhões na bolsa — e ontem valia R$ 1,7 bilhão.
O mercado já avaliava que a fusão seria a única forma de as cotações da empresa voltarem a ganhar algum fôlego. Mas ninguém estava apostando na operação agora, justamente por conta do preço de tela da Petz, que dificultaria o acordo.
“Como anunciado, todo mundo sabia que os controladores achavam que as companhias valem muito mais do que o valor atual de mercado”, resumiu um gestor.
Na fusão, a ação da Petz foi avaliada em R$ 7,10 – o dobro do fechamento de ontem. O papel não alcança esse patamar desde agosto de 2023. E nem hoje está alcançando: às 15h23, a ação disparava 41,43%, cotada a R$ 4,95. Acompanhe nossa cobertura ao vivo dos mercados.
Pesa o fato de uma das companhias ser fechada. Mas, principalmente, disse outro profissional do mercado, o fato de “eles estarem dizendo que a companhia valer isso não implicar que um terceiro tenha que concordar”. De qualquer forma, disse um analista, o anúncio foi positivo, assim como os termos do negócio.
Para encurtar uma longa história, o mercado está de muito mau humor com esse setor e com a empresa, por conta de fatores macro e também falhas de execução, que transformaram a Petz em mais uma das histórias de IPOs que chegaram à bolsa a múltiplos muito elevados, que se mostraram sem sustentação.
“Hoje, o mercado tem dúvidas em relação ao modelo de negócio da Petz. E não é sobre a viabilidade desse modelo. É mais sutil do que isso. A pergunta é qual a rentabilidade desse modelo e qual o valuation apropriado”, resume um gestor.
Para ele, depois de anos acompanhando o segmento na bolsa, a conclusão é que, nesse setor, não existe diferenciação.
“O que as pessoas compram mesmo, sempre, é ração. É isso que responde pela maior parte da receita. E compram a marca da ração, não a loja que vende”, disse.
Assim, o único jeito de a Petz se diferenciar da Cobasi, da Petlove, dos marketplaces, como Amazon e Mercado Livre, ou do supermercado, é “oferecer o combo preço e disponibilidade”, entregando a ração mais barato, mais rapidamente ou dando frete grátis.
Mas isso custa bastante para as empresas do setor, que não têm a logística desses outros concorrentes. “Quem arreda o pé do frete grátis fica para trás e ninguém estava dando sinal de que faria isso. E essa é uma fórmula para torrar o dinheiro do acionista”, disse o gestor.
Na conversa com analistas hoje, Zimerman disse que a fusão é de duas empresas absolutamente saudáveis, que estão se digladiando, especialmente no mundo físico, onde são hoje os dois grandes competidores.
“A fusão preserva a energia desperdiçada nesta competição mais acirrada do mundo físico para que a gente seja cada vez mais aderente ao mundo atual, mais digital, omnicanal e também de experiências nas lojas e na prestação de serviços”, disse.
Ano passado, o JP Morgan calculou que 22% das lojas da Petz estavam a um raio de 1 km de pelo menos uma loja da Cobasi; enquanto cerca de 60% das lojas estavam a um raio de 3 km.
O plano do IPO da Petz era ter mais acesso a recursos no mercado para se tornar um player consolidador – desde lá já se falava numa “nova Raia Drogasil”.
A tese não deu certo por fatores macro e micro. O momento do IPO, em plena pandemia, contribuiu para turbinar a visão do negócio. Mas isso só foi ficando claro depois que o período de isolamento e restrição acabou, quando ficou evidente que o segmento pet foi um dos “beneficiados pela pandemia”.
Trancadas dentro de casa, as pessoas não gastavam com viagens, roupas, eventos ou restaurantes; e uma parte do dinheiro que estava “sobrando” foi para os animais de estimação.
Houve quem decidiu ter seu primeiro gato ou cachorro; e quem decidiu adotar ou comprar mais um bichinho. E os gastos com produtos supérfluos como acessórios, roupas, brinquedos, etc. disparou.
“Existe sim uma tendência estrutural no mundo e no Brasil de as pessoas terem mais animais de estimação. Ano após ano esses números sempre aumentam”, disse um analista. “Mas isso foi muito acelerado no período da pandemia. Muita gente adotou e gastou mais com biscoito e brinquedo num curto espaço de tempo”, resume um analista.
Esse comportamento impulsionou os resultados das empresas do setor, até mesmo porque esses itens têm margem mais alta do que o item básico para os bichinhos: ração. E no cenário incerto da pandemia, muitos apostaram que o ritmo acelerado iria continuar, o que não se confirmou.
“Além de as pessoas voltarem aos gastos básicos com o animal, veio a inflação, que atacou fortemente o preço dos alimentos e deixou o bolso de todo mundo menor”, diz um analista. “O boom da pandemia e o povo sozinho em casa embolaram um pouco a percepção do economics do setor”, diz um gestor.
Além disso, o sucesso inicial do IPO da Petz chamou muita atenção para o setor. De olho em um mercado promissor e que empolgava investidores, players regionais surgiram e grandes fundos de private equity investiram nas principais concorrentes da Petz.
Em abril de 2021, a Kinea Investimentos aportou R$ 300 milhões na Cobasi para ficar com uma participação minoritária e dar a largada em um plano agressivo de expansão mirando também um IPO.
A Petlove, que surgiu com um modelo concentrado no on-line, captou R$ 750 milhões em agosto de 2021, em uma rodada liderada pela Riverwood Capital e se juntou a outros fundos que já estavam na companhia: Tarpon, SoftBank, L Catterton, Monashees, além da Porto.
Assim, enquanto a demanda começava a acelerar, à medida que a pandemia arrefecia, a oferta de produtos para os bichos acelerou.
Então, primeiro o consumidor comprou muito produto, em um ritmo insustentável, depois veio uma sobreoferta de lojas. E, para fechar, veio a disparada da inflação, em particular dos alimentos, que apertou o bolso de todo mundo e levou a uma forte redução nos gastos com os animais domésticos.
Esses foram os fatores externos ao negócio que contribuíram para a derrocada das ações. Mas para um gestor que hoje não investe em Petz, a execução também falhou.
“Acredito que houve falha na hora de desenhar o arranjo dos locais das lojas. Houve muita canibalização e o dimensionamento das lojas também se mostrou equivocado. Me parece que não faz sentido ter várias megalojas em bairros próximos. Acho que esse desenho estratégico pecou.” Além disso, ele afirma, a concorrência performou bem.
“A grande verdade é que uma empresa com múltiplo alto tem pouco espaço para errar. Como a Petz errou, o de-rating ocorreu.”
Um analista diz que a empresa não tem sinalizado erros na abertura de lojas, embora avalie que elas poderiam ter sido mais espalhadas. Agora que o ritmo de crescimento desacelerou, ficando abaixo de 20%, a empresa voltou a olhar para os detalhes, e pretende melhorar desde o layout até a experiência do consumidor.
Outro erro que acabou caindo na conta da empresa, diante do insucesso da operação, foi a aquisição da plataforma Zee Dog, em agosto de 2021, no auge do valuation do setor, por R$ 715 milhões. Já na época da transação, o mercado achou que a Petz tinha pagado “caríssimo”; agora, então….
“Com a aquisição da ZeeDog, forte na venda de acessórios, a Petz queria comprar e desenvolver uma marca que aparentemente tinha muito potencial de branding de produtos diferenciados. Só que, além de a demanda por acessórios ter começado a cair logo em seguida, o que se descobriu depois foi que grande parte da receita da empresa não era por conta da marca, mas de private label, que foi, inclusive, descontinuado”, disse o analista.
No último trimestre divulgado pela Petz, pela primeira vez o negócio ZeeDog veio com margem positiva. A expectativa é que daqui para a frente ela deixe de dragar o resultado e faça uma contribuição positiva.
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