Lucro da Taurus (TASA4) desaba com “efeito Lula” — mas CEO revela como empresa quer se “blindar” dos ventos contrários em 2024
Salesio Nuhs contou para o Seu Dinheiro as principais apostas da fabricante de armas para este ano — e deu um “spoiler” sobre o que esperar dos dividendos em 2024

O ano passado não foi fácil para a Taurus (TASA4). Em meio à uma política desarmamentista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o lucro líquido da fabricante brasileira de armas despencou 64,9% no quarto trimestre em base anual, para R$ 42,5 milhões.
No acumulado de 2023 — primeiro ano do governo Lula 3 —, os ganhos encolheram 70,6%, saindo de algo próximo de meio bilhão de reais em 2022 para os atuais R$ 152,8 milhões.
O desempenho negativo da empresa é, em boa parte, resultado da indefinição jurídica com relação ao setor no Brasil, afirmou o CEO global da Taurus, Salesio Nuhs, em entrevista exclusiva ao Seu Dinheiro.
“O mercado interno da companhia, que é relevante para os resultados, simplesmente não existiu. Tivemos um ano sem vendas para o mercado civil”, disse Nuhs.
Questionado sobre o “efeito Lula” sobre o resultado financeiro de 2023, o presidente da Taurus destacou que o governo é “ideologicamente contra o segmento”, mas que o Estado não deveria administrar o país apenas de forma ideológica.
“Nosso segmento é importante para o país: gera um faturamento de aproximadamente R$ 20 bilhões e emprega diretamente 70 mil famílias. Ou seja, o nosso setor não pode ser tratado de forma ideológica; deve ser tratado de forma econômica”, disse o executivo.
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“A Taurus é uma empresa estratégica de defesa, então é assim que o governo tem que olhar para tal. Nós não podemos politizar esse segmento”, acrescentou.
O decreto de Lula e a demora na regulamentação
Vale lembrar que, logo no início de 2023, foi publicado o Decreto 11.366, que reduziu o acesso a armas no Brasil e deveria ser regulamentado no prazo de três meses — o que não ocorreu até dezembro do ano passado.
No fim de 2023, a regulamentação definiu os aspectos até então pendentes, como as autorizações de novas aquisições de armas pelos CACs (colecionadores, atiradores desportivos e caçadores) e a possibilidade de novos registros.
Entretanto, o processo de compras de armas de fogo — incluindo calibres restritos por parte de Polícias Militares, Corpos de Bombeiros Militares e do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República — ainda está sob revisão.
“Ainda que a regulamentação hoje em vigor não seja a mais positiva para o setor, quase todos os aspectos estão definidos, o que permite que o mercado doméstico possa finalmente ser retomado”, escreveu a administração da Taurus, no relatório financeiro.
Na visão do CEO, houve momentos em 2023 que mais pareciam “plena campanha eleitoral”. “Passando o efeito da política e dos palanques eleitorais, eu acho que nós temos que entregar resultado em 2024. O país precisa entregar resultado”, disse.
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Outros números da Taurus (TASA4) no 4T23
A situação não foi diferente do lado da receita operacional líquida, que recuou 29,9% nos três últimos meses de 2023 em comparação com igual intervalo do ano anterior, para R$ 419,1 milhões. No ano, o indicador caiu 29,8%, a R$ 1,78 bilhão.
Como citado pelo CEO, o principal detrator do resultado da Taurus foi o mercado interno, onde a receita desabou 70,5% no último trimestre frente a 2022, a R$ 67,4 milhões. No mesmo período, no mercado externo, a empresa registrou uma leve queda de 4,7% na receita, a R$ 351,7 milhões.
O resultado doméstico foi pressionado pelo mercado civil, que quase não registrou vendas em 2023. No ano passado, inclusive, a Polícia Federal contabilizou o menor número de novos registros de armas de fogo para defesa pessoal desde 2004, com 20.822 novos cadastros.
O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado caiu 76,5% no trimestre contra o mesmo período de 2022, a R$ 39 milhões. No ano, o indicador recuou 67,7%, a R$ 256,9 milhões.
Por sua vez, a margem Ebitda ajustada recuou 18,5 pontos percentuais no trimestre na comparação anual, a 9,3%. No ano, a margem diminuiu 16,9 p.p, a 14,4%.
A empresa destaca ainda a margem bruta, que chegou a 35,4% no fim de 2023 — acima do percentual anualizado de empresas internacionais do setor, como a Ruger (24,6%) e a Smith & Wesson (27,5%).
Enquanto isso, a dívida líquida da Taurus cresceu 48,6% em 2023 ante 2022, chegando a R$ 324,6 milhões no fim de dezembro.
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Como a Taurus quer se “blindar” para 2024?
O ano de 2023 foi “um período de desafios” para o setor de armas, segundo o CEO da Taurus (TASA4), especialmente no mercado brasileiro.
No cenário local, as vendas no Brasil foram interrompidas durante o ano em função da falta de regulamentação. Já do lado internacional, a valorização do real frente ao dólar também impactou a receita, já que a Taurus é uma empresa fortemente exportadora.
Com relação às exportações para o resto do mundo, onde a Taurus atende majoritariamente forças militares e de defesa, várias licitações internacionais tiveram processos interrompidos em 2023, principalmente após o início do conflito da Ucrânia e Israel.
Já para este ano, a expectativa da Taurus é positiva tanto no mercado local quanto estrangeiro. Mas de qualquer forma, o CEO Salesio Nuhs revelou para o Seu Dinheiro os planos da fabricante de armas para se “blindar” dos riscos.
Para o mercado brasileiro, a empresa vê uma retomada do varejo após a regulamentação do setor por aqui, com recuperação de condições e segurança jurídica para os consumidores voltarem a comprar.
Mas caso a venda para civis continue pressionada em 2024, a Taurus já está reforçando os lançamentos para o segmento de “Law Enforcement” — isto é, equipamentos para o segmento militar — para diminuir a dependência do mercado civil brasileiro.
Enquanto isso, no exterior, o executivo da Taurus prevê outro impulsionador para 2024: as eleições presidenciais nos Estados Unidos, marcadas para novembro.
Na visão do CEO, a corrida à Casa Branca pode aumentar a demanda por armas, já que normalmente a incerteza sobre uma potencial mudança mais restritiva nas legislações para o setor resulta em um aquecimento das vendas.
Por isso, a estratégia da Taurus para os mercados globais será focada no lançamento de produtos para civis para reforçar o portfólio com maior participação de revólveres.
Investimentos no exterior e dividendos
Outra estratégia tática da Taurus (TASA4) para mitigar os riscos da operação é o aumento de investimentos no exterior, com duas potenciais joint ventures a serem lançadas na Índia e na Arábia Saudita.
No caso da Índia, a companhia brasileira realizou um investimento em tecnologia para criar uma unidade industrial em parceria com uma empresa local indiana.
A joint venture iniciou a produção no país neste mês e a expectativa é que passe por um “ramp-up” (aceleração, em tradução livre) ao longo de 2024.
Por sua vez, na Arábia Saudita, a Taurus deu mais um passo nas negociações para a criação da joint venture em dezembro, ao assinar um term sheet (acordo preliminar) não vinculante com a empresa árabe de defesa Scopa Military Industries.
Se for confirmada, a nova companhia terá como objetivo a fabricação de armas Taurus na Arábia Saudita e a comercialização em toda a região do Conselho de Cooperação do Golfo.
De acordo com o CEO, a previsão é que o plano de negócios seja apresentado para avaliação da Taurus entre o segundo e o terceiro trimestre de 2024.
“A operação está caminhando muito mais rápido do que na Índia. A Arábia Saudita tem uma característica: as decisões são muito rápidas e, por isso, devemos ter um pouco mais de precaução, até porque estamos construindo uma parceria para o futuro”, disse o CEO.
Dividendos
Para além dos investimentos na gringa, o CEO Salesio Nuhs também tocou em um dos pontos de maior atenção dos investidores: os dividendos.
Segundo Nuhs, a Taurus pretende manter a política atual de dividendos, de distribuição de 35% do lucro líquido do ano aos acionistas.
Porém, de acordo com o CEO, há possibilidade de um pagamento extraordinário de proventos, uma vez que a companhia possui cerca de R$ 300 milhões em reserva de lucros. “É uma reserva estatutária que pode ser destinada 100% a dividendos, de acordo com o caixa.”
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