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Da baixa à alta renda, diversas empresas do segmento reportaram recordes no período e arrancaram elogios dos analistas
A virada no quadro macroeconômico brasileiro — que culminou no início de um novo ciclo de aperto na taxa Selic no mês passado — freou o desempenho das construtoras e incorporadoras da B3.
Essas ações vinham operando com fortes altas em 2024. Mas, assim como outros papéis de setores com alta necessidade de financiamento e ligados ao consumo, esses ativos sentiram os efeitos dos juros altos e reduziram ou até mesmo zeraram os ganhos do ano ao longo do último trimestre.
O novo cenário, porém, ainda não afetou o ritmo dos canteiros de obras e stands de vendas. Ao menos é o que indicam as prévias operacionais das companhias. Da baixa à alta renda, diversas empresas do segmento reportaram recordes no período e arrancaram elogios dos analistas.
O trimestre foi tão favorável para a construção civil que até mesmo dois nomes que enfrentavam dificuldades operacionais e ainda geravam desconfiança nos investidores, MRV (MRVE3) e Tenda (TEND3), entregaram performances consideradas fortes pelos especialistas dos principais bancos de investimento do país.
E quem já vinha bem, como é o caso de Cyrela (CYRE3), Cury (CURY3), Direcional (DIRR3) e Moura Dubeux (MDNE3), aproveitou o momento para acelerar ainda mais os lançamentos e vendas e fortalecer o caixa.
A Moura Dubeux, por exemplo, vendeu mais de R$ 1 bilhão pela primeira vez na história. Com o desempenho recorde, a empresa vai cumprir com a previsão feita aos acionistas e distribuir dividendos inéditos em novembro, segundo afirmou o CEO Diego Villar em entrevista ao Seu Dinheiro.
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Já entre as exceções do bom período estão Even (EVEN3) — que reportou números abaixo do esperado pelo mercado e queda nas vendas — e Melnick (MELK3), cujos lançamentos e velocidade de vendas (VSO) ainda foram menores do que no 3T23.
Confira abaixo os principais destaques entre as prévias das construtoras e incorporadoras da bolsa brasileira no terceiro trimestre.
O programa Minha Casa Minha Vida já vinha impulsionando as construtoras de baixa renda desde o início do ano. E, nesse trimestre, teve a companhia de outro programa habitacional, o Pode Entrar, na lista de fatores por trás do bom desempenho do segmento.
No caso da MRV, por exemplo, a prévia operacional considerada sólida pelo BTG Pactual contou uma comercialização inesperada de R$ 294 milhões para o programa habitacional paulista para alcançar bons volumes de lançamentos e vendas.
Com isso, a companhia teve uma geração de caixa considerada "forte" tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.
O indicador — que foi uma das principais pedras no sapato da MRV em trimestres anteriores — totalizou R$ 262 milhões no 3T24, com R$ 156,5 milhões vindos apenas da operação local e se aproximando do guidance para o ano.
"Embora acreditemos que a recuperação da MRV deva demorar para dar frutos, a ação está sendo negociada a um preço barato, então mantemos nossa recomendação de compra", afirmou o BTG, cujo preço-alvo é de R$ 17 por ação.
As contratações de novos empreendimentos para o Pode Entrar também foram gratas surpresas para as construtoras Tenda e Plano & Plano (PLPL3).
Na Tenda, a assinatura de dois projetos para o programa habitacional levou a um crescimento nas vendas e lançamentos, que chegaram a R$ 1,55 bilhão e R$ 2 bilhões, respectivamente, e marcaram recordes históricos para a companhia.
A empresa ainda enfrenta um processo de turnaround — ou virada financeira, em tradução livre —, mas, segundo a XP, o trimestre “sugere uma melhoria na aprovação de projetos” e indica “um potencial de crescimento futuro superior ao esperado”. A corretora recomenda compra para as ações, com preço-alvo de R$ 17.
O BTG destaca que a prévia operacional reforça a visão de que o atual guidance da Tenda é conservador e deve ser revisto para cima em breve. O banco espera que a companhia recupere a rentabilidade nos próximos trimestres e coloca os papéis TEND3 como top pick no segmento de baixa renda, com preço-alvo de R$ 22.
Além da Tenda, o impulso do Pode Entrar também foi sentido pela Plano & Plano. “Os números operacionais da empresa foram marcados por vendas recordes, ritmo sólido de lançamentos e geração constante de fluxo de caixa”, diz o Itaú BBA.
Os analistas destacam que, além do bom desempenho ao longo do trimestre, a construtora expandiu o banco de terrenos em 23%, para R$ 21,9 bilhões, o que prepara o campo para mais crescimento nos próximos meses.
Mas, apesar da boa avaliação para a Plano & Plano, a favorita do BBA dentro da cobertura do setor é outra: a Direcional. Na visão dos analistas, a companhia divulgou resultados que refletem uma tendência operacional sólida.
Segundo o banco de investimentos, a robusta melhoria na geração de caixa, que totalizou R$ 194 milhões no acumulado do ano, sugere a possibilidade de upside no pagamento de dividendos. Vale relembrar que R$ 357 milhões em proventos foram já anunciados em 2024.
Já o Bank of America destacou a performance da Cury no terceiro trimestre. O banco de investimentos norte-americano reconheceu que os lançamentos vieram mais fracos que o previsto, mas foram compensados por vendas, produção e geração de caixa fortes.
Esses três indicadores sugerem, de acordo com o BofA, que o faturamento poderá acelerar nos próximos trimestres e que há potencial para dividendos futuros.
“A Cury é nossa principal escolha, pois apresenta crescimento lucrativo e sólidos retornos de caixa em meio a fortes fundamentos do Minha Casa Minha Vida”, diz o Bank of America, que tem recomendação de compra e preço-alvo de R$ 27 para as ações CURY3.
Já nos segmentos voltados para um público com renda acima dos limites dos programas habitacionais e de classe alta, o principal destaque é a Cyrela. Para o BBA, a prévia da companhia foi "impressionante", com forte ritmo de vendas e consistência nos lançamentos.
A começar pelos novos empreendimentos, o Valor Geral de Vendas (VGV) lançado foi de R$ 3,13 bilhões, uma alta de 44% na comparação com o mesmo período do ano passado. As vendas da Cyrela também avançaram 41% na mesma base de comparação e somaram R$ 3,2 bilhões.
O BTG também foi surpreendido pelo desempenho, que superou as estimativas já otimistas do banco. "A execução da Cyrela tem sido impecável, desafiando duras condições macro e justificando assim o nosso otimismo em relação ao nome."
Ambos os bancos de investimentos mantiveram a recomendação de compra para os papéis CYRE3. O Itaú BBA, que coloca a companhia como top pick do setor, estabeleceu um preço-alvo de R$ 30 para este ano, enquanto a projeção do BTG é ainda mais otimista, de R$ 32 por ação.
Quem também teve um trimestre classificado como “fora do comum” pelos analistas foi a Moura Dubeux. As vendas líquidas da companhia cravaram os inéditos dez dígitos. Além de recorde, o resultado representa um salto de 104,4% na comparação com o desempenho no mesmo período do ano passado.
A empresa também ficou na casa dos bilhões no quesito lançamentos, que mais que triplicaram na mesma base de comparação. Os quatro novos projetos do trimestre registraram um VGV líquido de cerca de R$ 1,1 bilhão.
Para o Santander, uma consequência dessa performance é que a companhia deve ter um balanço sólido, com a relação entre a dívida e o patrimônio líquido abaixo dos 5%. O patamar garante uma distância firme entre o endividamento atual e o limite estabelecido pela própria companhia para 2024, de 14%.
O banco elogia a posição competitiva da empresa nos principais mercados das capitais do Nordeste, região onde é líder de mercado. Considerando o valuation atrativo dos papéis, o Santander recomenda compra para as ações, com preço-alvo de R$ 18.
De volta ao Sudeste, a EZTec (EZTC3) também reportou números sólidos, na visão do Santander, com alta de 80% nas vendas, para R$ 501 milhões.
Os lançamentos da companhia foram retomados e saltaram 715% na comparação anual, para R$ 694,1 milhões, acima da previsão do banco. Mas os analistas ainda mantiveram a recomendação neutra para os papéis, com preço-alvo de R$ 14.
Já entre os poucos destaques negativos do trimestre está a Even. Para o Itaú BBA, o lançamento do primeiro projeto em parceria com a incorporadora RFM foi uma surpresa positiva.
Porém, a queda de 17% nas comercializações afetou a velocidade de vendas, resultando em uma desaceleração desse indicador para 12%, contra 19% no trimestre imediatamente anterior e 13% no mesmo período do ano passado.
Os números também ficaram abaixo das previsões do BTG. Considerando a venda da participação da Even na Melnick, concluída no início deste mês, o banco de investimentos planeja revisar a tese para a companhia em breve.
Mas, por enquanto, mesmo com o valuation descontado dos papéis, a recomendação para EVEN3 é neutra, com preço-alvo de R$ 9.
Por falar em Melnick, a ex-investida da Even causou divergência entre os analistas.
Enquanto o BBA considerou a prévia “neutra”, o BTG achou que os números foram “decentes” e demonstraram a retomada dos lançamentos e vendas mesmo após as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, principal mercado da companhia.
“A ação está negociando a um valuation atrativo e, com o balanço sólido, prevemos grandes dividendos, então mantemos a recomendação de compra”, diz o BTG, cujo preço-alvo é de R$ 7,50 por papel MELK3.
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