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A postura mais conservadora adotada pela companhia não significa que a construtora irá colocar o pé no freio e estagnar os números em 2024
O que é pior: prometer muito e não cumprir ou baixar as expectativas logo de cara? Confrontada com esse dilema, a Tenda (TEND3) elegeu a segunda alternativa ao anunciar seus planos para 2024, com um guidance de margem e lucro abaixo do esperado pelo consenso de mercado.
Consideradas como “um balde de água fria” por quem esperava mais rentabilidade da companhia já em 2024, as projeções modestas custaram caro: as ações da construtora — que registraram a segunda maior alta da bolsa brasileira em 2023 — acumulam uma queda de 36% neste ano.
Mesmo penalizada pelo mercado, a estratégia mais conservadora deve continuar sendo adotada pela companhia, de acordo com o diretor financeiro e de relações com investidores Luiz Garcia.
O CFO reconhece, em entrevista ao Seu Dinheiro, que, como a Tenda está em um processo de retomada do crescimento, “qualquer postergação ou piora de expectativa é muito mais volátil para o preço da ação”.
O executivo destaca, porém, que o ajuste é fruto de uma das lições aprendidas durante o processo de turnaround — ou virada financeira — e é algo necessário para evitar que a companhia seja atingida em cheio por novas crises.
“É muito importante ter tanto o balanço quanto a alavancagem conservadores, porque quando vem um período de incerteza é isso que permite uma travessia.”
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A cautela do diretor da Tenda tem fundamento. Afinal, a Tenda foi pega no contrapé em 2021 em meio à disparada dos custos da construção que derrubou os resultados da incorporadora — e as ações na B3.
Mas a postura mais conservadora não significa que a construtora irá colocar o pé no freio e estagnar os números em 2024. Pelo contrário: Garcia afirma que veremos uma continuidade da recuperação dos indicadores operacionais e financeiros nos próximos meses.
“A companhia vem melhorando trimestre a trimestre e caminhando para um patamar de margens saudáveis. Quando se trata do número de unidades, ainda não voltamos ao patamar de 2021, que foi nosso recorde, mas retomamos o crescimento.”
E esse processo de retomada pode ser ainda mais acelerado caso duas medidas anunciadas pelo governo no ano passado entrem em vigor: o FGTS Futuro e o Regime Especial de Tributação para Incorporações Imobiliárias (RET1%).
As duas medidas devem ajudar a Tenda a vencer o grande desafio do segmento de entrada do Minha Casa Minha Vida (MCMV): equilibrar a capacidade de pagamento e viabilizar um produto para famílias que ganham até dois salários mínimos.
“Atualmente temos que financiar boa parte do valor do imóvel, até cerca de 20%, com o chamado pró-soluto, mas esse não é o cenário ideal. O ideal é que o consumidor consiga comprar utilizando apenas o financiamento imobiliário dentro do programa habitacional.”
E é aí que entram as duas medidas mencionadas anteriormente: a primeira prevê a incorporação de parcelas futuras do FGTS nos financiamentos do MCMV. Ou seja, os trabalhadores poderão utilizar depósitos que ainda serão feitos pelo empregador para amortizar os empréstimos imobiliários. Segundo o CFO da Tenda, a medida deve entrar em vigor ainda neste trimestre.
Já o RET1% prevê que a receita proveniente das unidades vendidas na faixa um do programa habitacional federal tenha uma alíquota efetiva de imposto de apenas 1%. O tributo reúne e reduz as alíquotas de quatro outros impostos federais – IRPJ, PIS/Pasep, CSLL e Cofins.
Outra potencial fonte de crescimento da rentabilidade Tenda que não foi considerada no guidance e pode provocar um upside nos números divulgados ao mercado é o Pode Entrar, programa habitacional lançado pela prefeitura de São Paulo no ano passado.
A companhia foi contemplada, inicialmente, com três projetos. Mas, por enquanto, apenas o menor dos três empreendimentos foi contratado. Os outros dois ainda dependem da finalização de trâmites burocráticos para a liberação.
A expectativa de Garcia é que os ritos necessários sejam concluídos “muito em breve, ainda dentro deste trimestre”. Com isso, o Valor Geral de Vendas (VGV) potencial a ser capturado com o programa chegará a cerca de R$ 577,1 milhões.
Por outro lado, há um fator que vai pesar no balanço da Tenda neste ano: a Alea. A marca de casas pré-fabricadas lançada em 2021 ainda é considerada uma “startup” dentro da companhia e deve continuar queimando caixa.
A projeção é que a divisão registre um Ebitda (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de R$ 30 milhões a R$ 50 milhões negativos em 2024, com margem bruta ajustada de 9% a 11%.
“É uma operação que está crescendo, então ela consome capital de giro e ainda tem um impacto negativo no resultado consolidado. Mas entendemos que é um período transitório. Em 2023 nós começamos a acelerar os lançamentos e o próximo desafio é acertar a execução, a última etapa que falta para a Alea passar a ser rentável”, diz Garcia.
Considerando as preocupações com a Alea e decepção com o guidance, a visão para as ações da Tenda não é unânime entre os analistas
Santander, Itaú BBA e XP mantêm recomendação neutra para os papéis. “Embora vejamos com bons olhos o forte desempenho operacional da Tenda e o consistente ganho de relevância da Alea nas operações da empresa, acreditamos que a rentabilidade da Alea sob pressão pode impactar negativamente o momento de resultados no curto prazo”, alega a XP.
O BTG Pactual e Citi, por outro lado, indicam compra. Esse último, vale destacar, elevou recentemente a recomendação ao classificar a Tenda como “barata demais para não comprar”.
Já o BTG cita que há um grande risco, mas também um grande potencial de valorização, na história de recuperação da construtora. De acordo com o banco, o segmento do Minha Casa Minha Vida “está indo muito bem e não deveria ser diferente para a Tenda”.
Além disso, os analistas dizem que o turnaround da companhia é uma realidade, embora mais lenta que o inicialmente esperado.
O Seu Dinheiro consultou especialistas no setor financeiro para entender se há, de fato, um risco real para os bancos digitais no Brasil. Por que a resposta unânime é “não”?
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