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Ricardo Gozzi

É jornalista e escritor. Passou quase 20 anos na editoria internacional da Agência Estado antes de se aventurar por outras paragens. Escreveu junto com Sócrates o livro 'Democracia Corintiana: a utopia em jogo'. Também é coautor da biografia de Kid Vinil.

QUASE PLENO EMPREGO

Campos Neto não curtiu? Desemprego atinge o menor nível para agosto — mas parte dos economistas acha isso ‘ruim’

Além da queda da taxa de desemprego próxima de uma situação de pleno emprego, o rendimento real dos trabalhadores cresceu

Ricardo Gozzi
27 de setembro de 2024
11:42
Roberto Campos Neto, presidente do BC
Desemprego em queda reforça argumentos de quem defende alta mais acentuada dos juros pelo BC, dirigido por Roberto Campos Neto (foto). Imagem: Flickr: Banco Central do Brasil

O desemprego no Brasil encontra-se no menor nível da série histórica para o trimestre encerrado em agosto.

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Essa é uma ótima notícia, certo? Bem, não para todo mundo, em especial para quem vê esse como um sinal de que a economia está aquecida demais.

Mas antes vamos aos dados: a taxa de desocupação entre junho e agosto ficou em 6,6%, informa o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).

Trata-se de um recuo de 0,5 ponto porcentual em relação ao trimestre imediatamente anterior, de março e maio. Em relação ao mesmo trimestre móvel de 2023, a queda foi de 1,2 ponto porcentual.

A atual série histórica do IBGE teve início em 2012.

A Pnad Contínua mostra ainda que a taxa de subutilização da mão de obra caiu de 17,6% para 16,0% na comparação anual.

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Além disso, o rendimento real habitual dos trabalhadores aumentou 5,1% no mesmo intervalo.

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Somado à queda no desemprego, o Caged mostrou que a economia brasileira abriu 232,5 mil postos de trabalho em agosto.

A expectativa era de que o saldo de contratações e demissões ficasse positivo em 241 mil vagas.

No acumulado do ano até agosto, o saldo líquido do Caged é de 1.726.489 postos de trabalho abertos no Brasil.

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Os resultados indicam uma situação próxima do chamado pleno emprego. Significa que — de modo geral — quem sai em busca de emprego encontra um posto de trabalho para ocupar.

É bom. Mas é ruim?

O fato é que a queda dos índices de desemprego costuma ser recebida como uma boa notícia.

O governo federal certamente vai comemorar o desemprego em queda.

Em janeiro de 2023, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reassumiu o Palácio do Planalto, a taxa de desemprego estava em 8,4%.

Ou seja, em pouco mais de um ano e meio, o índice caiu quase dois pontos porcentuais.

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No momento atual, entretanto, os economistas de mercado e os diretores do Banco Central (BC) consideram que o mercado de trabalho “apertado” não é uma notícia tão boa assim.

Por que o desemprego em baixa é considerado ruim pelo mercado

Em uma primeira lida, essa abordagem soa maliciosa, especialmente em um país historicamente atormentado pelas mazelas do desemprego elevado.

Para o BC e para o mercado financeiro, porém, o resultado da Pnad Contínua é mais uma confirmação de que a economia brasileira está mais aquecida do que o desejado em termos de política monetária.

Mesmo com a taxa de juros em níveis restritivos e um novo ciclo de alta da Selic iniciado na semana passada, a atividade econômica continua superando as expectativas.

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Em meio a sucessivas revisões para cima das estimativas do PIB, o mercado de trabalho aquecido alimenta temores de pressões inflacionárias mais adiante.

A busca por um nível “ótimo” de emprego figura entre os mandatos do BC brasileiro na lei de 2021 que aprovou a autonomia formal. Mas Roberto Campos Neto e os diretores que formam o Comitê de Política Monetária (Copom) vêm mostrando maior preocupação com a inflação rodando perto do topo da faixa de tolerância da meta.

Embora o IPCA-15 de setembro tenha mostrado uma inesperada e bem-vinda desaceleração, ele é apenas um dado promissor em um momento no qual as expectativas de inflação ainda se mostram, segundo o jargão econômico, “desancoradas”.

Além do desemprego

Mercado de trabalho restrito e hiato de produto positivo, crescimento real dos salários acima do crescimento da produtividade, políticas fiscais e parafiscais pró-cíclicas estão entre os fatores a serem monitorados pelo BC, segundo Alberto Ramos, diretor de pesquisa econômica do Goldman Sachs para América Latina.

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Essa conjunção “exige monitoramento rigoroso do impacto sobre a inflação de serviços e a convergência da inflação para a meta”, escreveu ele em nota a clientes.

No fim das contas, a percepção de que a economia brasileira está superaquecida pode fazer com que o BC precise elevar ainda mais os juros.

Para Rodrigo Cohen, analista de investimentos e co-fundador da Escola de Investimentos, o resultado da Pnad Contínua reforça a percepção de que o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC vai acelerar a alta dos juros em novembro (de 0,25 para 0,50 ponto porcentual).

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