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A semana é recheada de reuniões de política monetária, com decisões de juros na Austrália, Turquia, México, Rússia, Inglaterra e no Brasil
Não há trégua para o investidor. Se a vida plena depende da noção de ataraxia (ausência de preocupações, ansiedades ou inquietações), estamos perdidos. Se houvesse uma próxima vida, gostaria de voltar como dentista.
Dada a sensibilidade demonstrada pelos mercados brasileiros às taxas de juros de mercado nos EUA, nada mais preocupante do que a possibilidade de o Fed atualizar seu prognóstico para a política monetária norte-americana.
Depois de muito tempo, o mercado voltou a ter uma visão parecida ao Banco Central dos EUA para o comportamento de sua taxa básica de juros, projetando início da flexibilização em junho e três cortes até o final do ano.
Como chama atenção Mohammed El-Erian em sua coluna na Bloomberg hoje, isso é boa notícia, mas não é tudo. Mais inquietante, inclusive, é a possibilidade de mudança iminente nas estimativas.
Diante da força da economia e da persistência da inflação, acompanhadas de um vigor inesperado nos preços do petróleo (hoje em sua máxima em quase cinco meses), teme-se uma mudança no gráfico de pontos do Fed, com a visão majoritária do BC dos EUA sugerindo, na sua reunião de quarta-feira, apenas dois cortes até o final do ano.
Ainda não é o cenário-base, mas poderia ser particularmente ruim para mercados emergentes, passageiros da agonia pendurados na Fed Funds Rate.
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Em relatório recente, o Bank of America Merrill Lynch alertou para o risco de o núcleo da inflação dos EUA voltar a rodar a 4% em junho. Não só abandonaríamos a convergência para a meta de 2% como passaríamos a divergir. Como resultado, teríamos muito mais dificuldade de afrouxar o torniquete monetário.
Em paralelo, Michael Wilson, do Morgan Stanley, chamou atenção para o nível de 4,35% do yield dos Treasuries de 10 anos. Segundo ele, essa é uma referência técnica importante, cuja superação poderia disparar uma correção das ações nos EUA. Hoje, estamos ali nos 4,30%, dançando à beira do vulcão, portanto.
A semana é recheada de reuniões de política monetária. Hoje à noite, o Japão atualiza seu juro básico, com possibilidade de abandono das taxas negativas.
Ainda teremos eventos semelhantes em Austrália, Turquia, México, Rússia e Inglaterra, além, claro, do nosso próprio Copom.
Não há muita dúvida sobre a definição em si envolvendo a Selic nesta quarta-feira. A expectativa consensual sugere novo corte de 50 pontos-base, para 10,75% ao ano.
A principal dúvida repousa sobre a comunicação do colegiado do BC, mais precisamente sobre a preservação ou não do plural para a sinalização de novos cortes de 50 pontos-base nas próximas reuniões.
Parte dos analistas antevê a supressão do forward guidance, ou seja, mudando o texto de maneira a contemplar uma indicação apenas para o próximo encontro; outra parcela espera a preservação da sinalização de continuidade do ritmo por mais duas reuniões.
Embora reconheçamos existir probabilidade não desprezível para os dois cenários, atribuímos mais chance para a preservação do plural, contratando o mesmo ritmo para os próximos dois encontros, seguida da afirmação de que o forward guidance será abandonado na reunião seguinte.
Famosa decisão salomônica. Em resumo, achamos que o Copom deve cortar 50 pontos, indicar mais duas doses dessa magnitude e abandonar sinalizações muito mais à frente.
Nesse sentido, a decisão da Selic e os comentários associados teriam pouca capacidade de mover os mercados.
Na esfera doméstica, o intervencionismo na economia, o risco de guinada populista para recuperar índices de aprovação ao governo, a cacofonia presidencial e o que fazer a partir das surpresas positivas vindas da arrecadação geram muito mais ansiedade.
Se não há meios de escaparmos à inquietação sistêmica, talvez possa recorrer à outra abordagem para a vida plena: a eudaimonia, estado em que se é habitado por um “bom gênio" (ou espírito, não necessariamente no sentido metafísico), também definido como harmonia da alma, por sua vez atingida a partir da perseguição do caminho da virtude.
A verdade é que, na esfera macro, estamos em mares nunca dantes navegados. Apesar de vários chutes por aí, alguns até razoavelmente bem direcionados, ninguém sabe ao certo qual o esforço necessário para percorrermos esta última milha da inflação global em direção à meta.
Se o macro é difícil, recorremos ao micro e às empresas virtuosas. Algumas coisas parecem não ter recebido a devida atenção nessa temporada de resultados:
Conversas de taxa de desemprego natural ou juro neutro no Brasil são, por definição, absolutamente platônicas, construídas a partir da abstração dos economistas.
Poucas coisas são tão concretas quanto bons ativos, comprados com desconto. O prêmio da virtude é a própria virtude.
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