Nubank pode ter o último prejuízo da história no 4T22 — e graças ao fim do bônus bilionário do fundador; saiba o que esperar do balanço
Resultados do 4T22 do Nubank terão um reconhecimento único e não monetário de despesas relativas ao fim do acordo do fundador da fintech

O primeiro ano de vida do Nubank (NUBR33) como companhia aberta, com ações negociadas em bolsa, foi mais do que agitado.
Em 2022, o banco digital expandiu a operação em outros países, fez uma mudança drástica no rendimento da conta e se colocou numa polêmica que deveria ter ficado restrita ao mercado de capitais, mas fez parte dos clientes questionarem se ele havia falido.
Este, claro, é um resumo simplificado do que foi um ano complexo para o Nubank e outras fintechs brasileiras. O resultado da operação do ano todo será conhecido amanhã (14), quando o Nubank publica as demonstrações financeiras após o fechamento das bolsas.
Apesar de complicado, o ano teve um marco que merece destaque na história do banco do cartão roxo. A companhia finalmente atingiu o breakeven no terceiro trimestre de 2022, ou seja, registrou lucro contábil pela primeira vez.
Para os últimos três meses do ano, a projeção é de um novo prejuízo, mas que tem tudo para ser o último da história do Nubank. E isso graças ao fim de um acordo que previa o pagamento de um bônus bilionário a David Vélez, o fundador do banco.
Esse ponto pode ser um pouco confuso, por isso explico com mais detalhes abaixo.
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Lucro líquido ajustado x lucro líquido
Desde que começou a publicar suas demonstrações financeiras como empresa aberta, o Nubank sempre deu mais ênfase ao lucro líquido ajustado do que ao lucro líquido “normal”.
O cálculo ajustado não é feito segundo normas contábeis geralmente aceitas e desconsidera as despesas e efeitos tributários relacionados à remuneração baseada em ações do Nubank.
A fintech alega que os valores de ações concedidas a executivos, funcionários ou consultores não refletem o desempenho dos negócios, uma vez que os papéis sofrem variação de preço. No Seu Dinheiro, porém, sempre optamos por enfatizar o lucro líquido contábil do Nubank, pois tais despesas são recorrentes e não algo pontual.
Isso gera discrepâncias, pois tanto analistas quanto jornalistas se dividem sobre qual cálculo merece destaque. No cálculo ajustado, o Nubank tem registrado lucro desde o IPO, mas vinha ficando no vermelho no cálculo contábil até o terceiro trimestre do ano passado.
O bônus da discórdia
Nos resultados do quarto trimestre, porém, será contabilizado o efeito do fim do acordo de remuneração do fundador David Vélez. Em novembro de 2022 ele decidiu abrir mão do polêmico contrato, que envolvia prêmios de incentivo de longo prazo associados a metas agressivas sobre o desempenho das ações da companhia na bolsa.
O Nubank estima que o fim do acordo vai representar uma economia de US$ 356 milhões aos cofres da fintech durante os próximos sete anos.
Porém, nos resultados do quarto trimestre haverá um reconhecimento único e não monetário de despesas nesse mesmo valor. Isto porque as normas contábeis exigem que a rescisão seja registrada como uma aquisição acelerada, ainda que não haja aquisição ou desembolso real.
Assim, as projeções para o lucro líquido às quais tivemos acesso variam desde prejuízo de US$ 335 milhões até lucro de US$ 17 milhões.
Já as estimativas para o lucro líquido ajustado estão entre US$ 46 milhões e US$ 70 milhões - o consenso da Bloomberg é de US$ 54 milhões.
Portanto, no quarto trimestre de 2022, o Seu Dinheiro irá considerar o lucro líquido ajustado do Nubank como o “correto”, ainda que, para fins contábeis, o mais provável é que o banco apresente mais um prejuízo no período.
Livre dessa remuneração com o fundador, porém, a tendência é que o Nubank apresente lucro a partir deste ano sob qualquer métrica, como um banco “normal”.
Aumento dos calotes
Mais do que o lucro do Nubank, a métrica que deve roubar a atenção dos investidores no último trimestre de 2022 é, novamente, a inadimplência.
A preocupação é justificada, tendo em vista que os dados do Banco Central mostram que o perfil predominante do endividamento no Brasil é composto por pessoas das faixas de renda mais baixa e produtos como cartão de crédito e empréstimo pessoal — justamente as características que definem o mix do Nubank.
Só que é importante ter em mente que no segundo trimestre de 2022 o Nubank decidiu mudar a maneira como divulga o cálculo da inadimplência.
Na nova metodologia, o banco digital passou a antecipar a baixa de empréstimos pessoais inadimplentes há mais de 360 dias para 120 dias, enquanto a baixa dos cartões de crédito permaneceu em +360 dias.
Nos dois produtos, o Nubank aplica uma baixa parcial e somente o que se refere a “recuperação esperada” do empréstimo baixado é mantido no balanço. O efeito disso é redução nos índices de inadimplência acima de 90 dias e aumento da inadimplência de 15-90 dias para empréstimos pessoais.
Isto significa que os analistas vão ficar de olhos bem abertos para entender como está, de fato, a situação no Nubank. No terceiro trimestre, o Nubank informou que a inadimplência cresceu 0,6 ponto percentual em relação ao período anterior, mas, se não fosse pela mudança da metodologia, o indicador teria subido 1,3 ponto percentual, para 5,4%.
O Santander é um dos bancos que está desconsiderando o cálculo novo do Nubank e projeta que o índice de calotes entre os clientes do banco digital chegue a 7% na metodologia antiga ao final do quarto trimestre de 2022.
Carteira de crédito em desaceleração
Além da inadimplência, o ritmo de crescimento da carteira de crédito do Nubank também deve ser um ponto de atenção, uma vez que ele vem desacelerando nos últimos trimestres. O banco digital afirma que está diminuindo os empréstimos intencionalmente devido ao aumento da inadimplência.
Em meio ao cenário incerto, o Nubank tem procurado passar uma mensagem mais conservadora ao mercado, de acordo com o Goldman Sachs. Os analistas reduziram suas estimativas para o crescimento de empréstimos pessoais em 2023, por exemplo.
Na visão do Goldman Sachs, os cartões de crédito devem continuar como principal fator de crescimento do banco digital.
Mas vale pontuar que mesmo com a carteira de crédito em desaceleração, o Nubank consegue manter o ritmo de prospecção de novos clientes. De acordo com dados do Banco Central, o roxinho encerrou 2022 com 75 milhões de clientes, sendo que 70 milhões são apenas no Brasil. Um ano antes, a fintech contava com 53,9 milhões de clientes.
Reflexo nos papéis do Nubank
As dificuldades do Nubank, assim como todas as empresas ditas “de crescimento”, não passaram despercebidas no ano passado e o reflexo disso se deu nos papéis da companhia negociados em Nova York.
Desde o IPO, em dezembro de 2021, as ações do Nubank derreteram mais de 50% na Nyse. Ainda assim, bancos de investimento que coordenaram o IPO do Nubank, como o Goldman Sachs, continuam recomendando comprar os papéis. Confira os que o Seu Dinheiro teve acesso:
| NUBANK | RATING | PREÇO-ALVO |
| BTG PACTUAL | NEUTRO | $4,50 |
| SANTANDER | VENDA | $3,00 |
| JP MORGAN | NEUTRO | 4-4,5 |
| GOLDMAN SACHS | COMPRA | $9,50 |
| XP | NEUTRO | - |
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