Utilizou seu FGTS para investir na Eletrobras? Esta coluna é para você
Fundos que investem em Eletrobras se encontram abaixo do Ibovespa e do próprio retorno do FGTS. Será que os trabalhadores tomaram uma péssima decisão?

Em junho de 2022 foi concluída a privatização da Eletrobras, companhia brasileira de geração e transmissão de energia elétrica até então controlada pela União, em oferta que pulverizou seu controle acionário no mercado.
Nessa oferta, foi permitido aos trabalhadores que possuíam saldo no FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) a migrar até 50% desse saldo para os FMPs (Fundos Mútuos de Privatização).
O FMP é um fundo enquadrado para receber as aplicações do FGTS dos trabalhadores, nesses cenários específicos em que são permitidas as migrações durante ofertas de ações de algumas empresas.
Essa possibilidade só ocorreu com três empresas desde 2000, data de criação do FMP: Petrobras, Vale e Eletrobras.
As regras dos fundos de privatização
Vale lembrar que o investidor não pode resgatar o saldo transferido desses fundos. Eles seguem a mesma regra do FGTS: só é possível o acesso em caso de demissão sem justa causa, para a aquisição de um imóvel, aposentadoria, falecimento do trabalhador, diagnóstico de doenças graves, idade igual ou superior a 70 anos, entre outras situações peculiares.
Já para o saldo que permanece no FGTS, o rendimento é de 3% ao ano acrescido de uma Taxa Referencial (TR) calculada e divulgada pelo Banco Central – muito próxima de 0% na maior parte do seu histórico recente.
Leia Também
Uma ação que pode valorizar com a megaoperação de ontem, e o que deve mover os mercados hoje
Comparado a uma inflação que estava acima de dois dígitos no acumulado de 12 meses no final do ano passado, na prática, o retorno real desse “investimento” é negativo. Mesmo hoje, com o IPCA dos últimos 12 meses até o mês de abril de 4,18%, o rendimento do FGTS ainda fica abaixo da inflação.
Por isso, mais de 360 mil trabalhadores destinaram R$ 6 bilhões de seus recursos do FGTS ao programa de privatização da Eletrobras – que ocorreu entre 3 e 8 de junho de 2022 –, por meio da compra de ações ELET3, buscando um potencial de retorno maior para essa parcela.
Como está o desempenho dos fundos que aplicaram o FGTS na Eletrobras
Hoje, próximo do aniversário de um ano dessa migração, como será que está a performance desse saldo alocado nos FMPs distribuídos na época?
Veja a seguir:

Abaixo você confere ainda o retorno histórico da ação de Eletrobras (em vermelho) desde a privatização em relação aos seus respectivos FMPs (em cinza), assim como o retorno do Ibovespa (em azul) e o quanto teria rendido o saldo caso tivesse permanecido no FGTS (em preto):

Repare que, com quase 12 meses completos, os FMPs que investem em Eletrobras se encontram abaixo do principal índice acionário brasileiro (o Ibovespa) e do próprio retorno do FGTS no período. Os fundos ainda ficam abaixo do rendimento da própria ação (ELET3), graças à taxa de administração.
Não somente isso, o retorno no período foi negativo, de -17% na média. Ou seja, pela primeira vez, esse saldo não só teve um retorno real (em relação à inflação) negativo, mas um retorno nominal também!
Será que esses trabalhadores tomaram uma péssima decisão?
O histórico favorece a Eletrobras
Eu não me precipitaria nessa conclusão. Você que acompanha nosso trabalho na coluna Linha D’Água a mais tempo já deve saber o porquê.
Aqui estamos falando de um investimento em uma ação. Nesse caso, não há como tirar qualquer conclusão em um período inferior a 12 meses.
Para o investimento em renda variável, faz mais sentido avaliar horizontes de pelo menos cinco anos, tempo que o investidor precisa estar disposto a enfrentar solavancos para buscar o potencial de retorno tão falado pelos analistas de mercado.
Aliás, como comentei no início, essa prática que permite migrar o saldo do FGTS para FMPs não é nova.
Isso já aconteceu no passado, mais precisamente em agosto de 2000 e março de 2002, datas em que foi permitido aos trabalhadores o uso de parte do saldo do FGTS para a aquisição de ações da Petrobras e da Vale (do Rio Doce, na época), respectivamente.
Vejamos então como performaram as ações da Petrobras e da Vale após cada uma das ofertas:


Em um período de mais de 20 anos, ambas as ações superaram consideravelmente tanto o Ibovespa quanto o rendimento histórico do FGTS para cada um dos períodos.
Na prática, a ação da Petrobras (PETR3) rendeu quase 10 vezes mais do que o FGTS, enquanto, para a Vale (VALE3), esse número fica em 23 vezes!
O último almoço grátis
É claro que não há como garantir retornos futuros para ações. Além disso, com esse movimento você aumenta o risco a que essa parcela de seu patrimônio está exposta.
Veja que, no caso das ofertas das companhias Petrobras, Vale e Eletrobras, o risco é ainda mais significativo. Afinal, você está exposto somente a uma ação em cada um dos casos e, portanto, exposto aos riscos específicos da empresa e do setor.
O que garante que o atual governo não irá ter sucesso em sua empreitada para reverter a privatização da Eletrobras? Já vimos diversos avanços testando essa possibilidade pelo atual presidente.
Essa é minha deixa para te lembrar do “último almoço grátis” dos investimentos: a diversificação.
Eletrobras e os FMPs Carteira Livre
Após seis meses dessa transição do saldo do FGTS para os FMPs da Eletrobras – limite atingido em dezembro do ano passado –, foi permitido ao investidor migrar para veículos como os FMPs Carteira Livre, fundos enquadrados nas mesmas regras dos fundos de privatização, mas que possuem um mandato mais amplo para investir em outras empresas.
Desde novembro do mesmo ano, tivemos alguns fundos surgindo nessa categoria, de gestoras como a XP, BTG, Itaú, Santander, Banco do Brasil e Genial. Separei os principais veículos que surgiram após a privatização da Eletrobras e suas características a seguir:

Todos os veículos possuem menos de 6 meses de vida e, por regulamentação da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), não são permitidos comentários sobre suas performances.
Entretanto, quero trazer uma visão de concentração versus diversificação para você.
Enquanto os cotistas da Eletrobras estão expostos a somente uma empresa, essas são as últimas carteiras abertas divulgadas por cada um dos fundos acima (com exceção dos fundos da Genial, mais recentes, que ainda não fizeram essa divulgação):





Repare que, mesmo nesse caso, existem fundos com pouca inteligência de gestão ativa por trás, como o do Banco do Brasil, que investe basicamente em BOVA11 (ETF que replica as ações do Ibovespa). Parece caro pagar 1% ao ano por um fundo passivo, não acha?
Particularmente, também não sou muito fã dos produtos “aguados”, ou seja, os fundos “balanceados” ou “moderados” apresentados pelo BTG, Itaú, XP e Santander, que mantêm cerca de metade da alocação no caixa (Tesouro Selic).
Para esse tipo de fundo de longuíssimo prazo, prefiro me expor ao máximo à renda variável, enquanto faço por conta própria meu controle de liquidez e reserva de emergência no restante do meu patrimônio.
Os dois "vencedores"
Dito isso, os fundos que parecem estar mais alinhados com a estratégia de diversificação com gestão ativa são o BTG Pactual Absoluto e o XP Investor, que seguem a estratégia de mesmo nome de cada uma das gestoras.
Reforço que aqui não há um estudo robusto sobre a equipe, a estrutura e o processo de investimento de cada uma das estratégias e, portanto, essa não é uma recomendação ativa de investimento.
O ponto aqui é justamente a reflexão sob a ótica de diversificar as fontes de risco e aumentar o potencial de retorno de uma parcela que muito provavelmente ficará travada por muito tempo.
Entretanto, para aqueles que se aventuraram no projeto de privatização da Eletrobras e desejam retornar o saldo para o FGTS, com o “retorno real negativo garantido” de 3% ao ano + Taxa Referencial (próxima de zero), precisam esperar os 12 meses da privatização para o movimento, prazo que deve se encerrar agora na primeira semana de junho.
Agora eu pergunto a você que utilizou seu saldo do FGTS para investir na Eletrobras: com o término desse prazo, você irá retornar à “perda real garantida” ou prefere optar por uma carteira diversificada de ações?
A resposta é individual para cada um, mas eu já sei qual foi a minha.
Um abraço,
Alê Alvarenga
Promessas a serem cumpridas: o andamento do plano 60-30-30 do Inter, e o que move os mercados hoje
Com demissão no Fed e ameaça de novas tarifas, Trump volta ao centro das atenções do mercado; por aqui, investidores acompanham também a prévia da inflação
Lady Tempestade e a era do absurdo
Os chineses passam a ser referência de respeito à propriedade privada e aos contratos, enquanto os EUA expropriam 10% da Intel — e não há razões para ficarmos enciumados: temos os absurdos para chamar de nossos
Quem quer ser um milionário? Como viver de renda em 2025, e o que move os mercados hoje
Investidores acompanham discursos de dirigentes do Fed e voltam a colocar a guerra na Ucrânia sob os holofotes
Da fila do telefone fixo à expansão do 5G: uma ação para ficar de olho, e o que esperar do mercado hoje
Investidores aguardam o discurso do presidente do Fed, Jerome Powell, no Simpósio de Jackson Hole
A ação “sem graça” que disparou 50% em 2025 tem potencial para mais e ainda paga dividendos gordos
Para os anos de 2025 e 2026, essa empresa já reiterou a intenção de distribuir pelo menos 100% do lucro aos acionistas de novo
Quem paga seu frete grátis: a disputa pelo e-commerce brasileiro, e o que esperar dos mercados hoje
Disputa entre EUA e Brasil continua no radar e destaque fica por conta do Simpósio de Jackson Hole, que começa nesta quinta-feira
Os ventos de Jackson Hole: brisa de alívio ou tempestade nos mercados?
As expectativas em torno do discurso de Jerome Powell no evento mais tradicional da agenda econômica global divide opiniões no mercado
Rodolfo Amstalden: Qual é seu espaço de tempo preferido para investir?
No mercado financeiro, os momentos estatísticos de 3ª ou 4ª ordem exercem influência muito grande, mas ficam ocultos durante a maior parte do jogo, esperando o técnico chamar do banco de reservas para decidir o placar
Aquele fatídico 9 de julho que mudou os rumos da bolsa brasileira, e o que esperar dos mercados hoje
Tarifa de 50% dos EUA sobre o Brasil vem impactando a bolsa por aqui desde seu anúncio; no cenário global, investidores aguardam negociações sobre guerra na Ucrânia
O salvador da pátria para a Raízen, e o que esperar dos mercados hoje
Em dia de agenda esvaziada, mercados aguardam negociações para a paz na Ucrânia
Felipe Miranda: Um conto de duas cidades
Na pujança da indústria de inteligência artificial e de seu entorno, raramente encontraremos na História uma excepcionalidade tão grande
Investidores na encruzilhada: Ibovespa repercute balanço do Banco do Brasil antes de cúpula Trump-Putin
Além da temporada de balanços, o mercado monitora dados de emprego e reunião de diretores do BC com economistas
A Petrobras (PETR4) despencou — oportunidade ou armadilha?
A forte queda das ações tem menos relação com resultados e dividendos do segundo trimestre, e mais a ver com perspectivas de entrada em segmentos menos rentáveis no futuro, além de possíveis interferências políticas
Tamanho não é documento na bolsa: Ibovespa digere pacote enquanto aguarda balanço do Banco do Brasil
Além do balanço do Banco do Brasil, investidores também estão de olho no resultado do Nubank
Rodolfo Amstalden: Só um momento, por favor
Qualquer aposta que fizermos na direção de um trade eleitoral deverá ser permeada e contida pela indefinição em relação ao futuro
Cada um tem seu momento: Ibovespa tenta manter o bom momento em dia de pacote de Lula contra o tarifaço
Expectativa de corte de juros nos Estados Unidos mantém aberto o apetite por risco nos mercados financeiros internacionais
De olho nos preços: Ibovespa aguarda dados de inflação nos Brasil e nos EUA com impasse comercial como pano de fundo
Projeções indicam que IPCA de julho deve acelerar em relação a junho e perder força no acumulado em 12 meses
As projeções para a inflação caem há 11 semanas; o que ainda segura o Banco Central de cortar juros?
Dados de inflação no Brasil e nos EUA podem redefinir apostas em cortes de juros, caso o impacto tarifário seja limitado e os preços continuem cedendo
Felipe Miranda: Parada súbita ou razões para uma Selic bem mais baixa à frente
Uma Selic abaixo de 12% ainda seria bastante alta, mas já muito diferente dos níveis atuais. Estamos amortecidos, anestesiados pelas doses homeopáticas de sofrimento e pelo barulho da polarização política, intensificada com o tarifaço
Ninguém segura: Ibovespa tenta manter bom momento em semana de balanços e dados de inflação, mas tarifaço segue no radar
Enquanto Brasil trabalha em plano de contingência para o tarifaço, trégua entre EUA e China se aproxima do fim