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Rodolfo Amstalden: Decifrando o devorar das cifras

A ata do Copom é um exemplo de como uma comunicação ambígua e a má interpretação de texto podem dividir o mercado

9 de agosto de 2023
20:22 - atualizado às 19:38
escritor-maquina-de-escrever
Imagem: Envato Elements

Comunicar-se bem vale dinheiro.

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Não é o tipo de coisa que dá para mensurar na vírgula, mas havemos de concordar que o bom discurso merece um prêmio.

Uma empresa que se comunica mal com o mercado pode ver sua ação derreter 25% logo após uma única divulgação de resultado trimestral.

Talvez tenha caído 10% pelo resultado em si e 15% pela desconfortável surpresa que ele causou nos investidores que acompanham a história de perto; muitos sentiram-se confusos, injustiçados ou até mesmo traídos.

Episódios como esse derivam de um problema estrutural do mundo corporativo, que acaba afetando mais as empresas listadas em Bolsa (pois estão mais expostas e têm mais obrigações de interação pública).

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O problema é: executivos de altíssimo nível, atuando em áreas estratégicas de liderança, manifestam dificuldades básicas de comunicação.

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Essas dificuldades se revelam na frequência, na forma, no canal e – sobretudo – no conteúdo das mensagens.

Vão desde o whatsapp até o contato presencial.

E muitas vezes se alimentam da arrogância de quem chegou ao topo da hierarquia, onde as críticas construtivas se tornam escassas, e os outros que se deem ao trabalho de me entender, para o bem deles.

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A má comunicação geralmente tem culpados precisamente delineados, mas também pode ter culpados difusos.

Por exemplo: ata do Copom de ontem.

Como pode metade do mercado ter achado dovish e a outra metade ter achado hawkish?

Isso pode ser culpa de uma comunicação ambígua vinda do Copom; como o bode expiatório é sempre o Banco Central, é mais fácil jogar a pedra aí.

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No entanto, a culpa também pode residir em uma má interpretação de texto do mercado.

Nós estamos entre os que entendem que o Copom foi marginalmente mais dovish na ata, dando abertura para cortes de 75 bps; para nós, a comunicação pareceu claríssima.

Ao outro time, porém, deve haver parágrafos que destacam uma linguagem mais sisuda e parcimoniosa, como no caso do "concluiu-se unanimemente pela necessidade de uma política monetária contracionista e cautelosa, de modo a reforçar a dinâmica desinflacionária".

Cada um escolhe seus parágrafos preferidos.

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O que nos leva a uma outra questão complexa diante de uma diretoria do Copom mais heterogênea: como escrever um texto final, institucional, que seja capaz de respeitar todas as posições individuais?

Se você já tentou escrever textos em grupo, sabe que o "risco-frankenstein" é gigantesco.

Eu mesmo brigo mentalmente entre as várias versões de mim, e sofro muito para chegar até aqui, fingindo que estou só.

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