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Julia Wiltgen
Julia Wiltgen
Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com pós-graduação em Finanças Corporativas e Investment Banking pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Trabalhou com produção de reportagem na TV Globo e foi editora de finanças pessoais de Exame.com, na Editora Abril.
Renda fixa que varia?

Marcação a mercado da renda fixa: entenda a regra que entra em vigor em janeiro para não se assustar

A partir de 2 de janeiro, todas as instituições financeiras deverão mostrar a posição dos clientes em títulos de renda fixa de acordo com os preços de mercado, o que pode deixar muita gente desconfortável com a volatilidade exibida

Julia Wiltgen
Julia Wiltgen
29 de dezembro de 2022
6:30 - atualizado às 16:55
Gif com DJ comandando picapes que representam a precificação de títulos públicos e privados
Imagem: POMB/Seu Dinheiro

Quem investe em ativos de renda fixa diretamente, como títulos públicos, debêntures, CRIs e CRAs, deve notar uma mudança significativa na sua carteira no começo de 2023. No dia 2 de janeiro, entra em vigor a obrigatoriedade da marcação a mercado desses papéis, o que irá evidenciar, para os investidores, as oscilações dos preços dos seus investimentos.

A marcação a mercado nada mais é que a atualização dos ativos pelos seus preços de mercado, o que já ocorre com cotas de fundos e com títulos públicos quando estes são adquiridos via Tesouro Direto.

Agora, com a nova regra, a prática será obrigatoriamente estendida a debêntures (títulos de dívida emitidos por empresas), Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e títulos públicos que tenham sido adquiridos fora do Tesouro Direto, no mercado secundário.

Hoje, a marcação a mercado desses investimentos é opcional. Mas, com a mudança na regra, as instituições financeiras deverão atualizar os preços dos ativos de renda fixa ao menos uma vez por mês conforme as negociações de mercado.

O mais provável, porém, é que bancos e corretoras optem pela atualização diária. Eles poderão utilizar como referência as cotações fornecidas pela entidade reguladora do setor, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

“A Anbima entendeu que o mercado já estava maduro o suficiente para trazer essa pauta. O objetivo dessa autorregulação é estabelecer normas, critérios e procedimentos para a apuração dos valores de referência dos títulos e, com isso, entregar transparência, padrão e previsibilidade aos investidores em relação aos valores dos seus ativos”, diz Luciane Effting, vice-presidente do Fórum de Distribuição Anbima.

Títulos de renda fixa emitidos por instituições financeiras, como os Certificados de Depósito Bancário (CDBs), as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), ficam de fora da nova regra e continuam sendo marcados “na curva”, como se diz no jargão de mercado.

Em outras palavras, só será impactado pela mudança quem tem o costume de investir em títulos públicos via mesa de operações da corretora e comprar debêntures, CRIs e CRAs diretamente, em vez de investir nesses ativos via fundos - prática mais comum entre as pessoas físicas. Afinal, quem aplica em fundos de renda fixa já está acostumado à marcação a mercado diária das suas cotas.

O que muda com a marcação a mercado da renda fixa

A mudança mais perceptível para o investidor será a oscilação nos valores das suas posições nos investimentos de renda fixa que passarão a ser marcados a mercado. Principalmente no caso dos títulos prefixados e atrelados à inflação, sejam eles públicos ou privados.

Ou seja, se hoje você só vê o valor do seu investimento crescendo dia a dia, é possível que você o veja subindo mais que o “normal” ou até caindo, em diferentes momentos.

Essas oscilações de preços para cima e para baixo conforme as negociações feitas no mercado secundário são comuns na renda fixa, muito embora os investidores pessoas físicas normalmente pensem que a renda fixa “não varia”.

Aliás, quem investe em títulos prefixados ou indexados à inflação (Tesouro IPCA+) no Tesouro Direto já está bem acostumado a ver esse sobe e desce na carteira, devido à marcação a mercado.

A questão é que, no caso de debêntures, CRIs, CRAs e títulos públicos comprados no secundário, a marcação normalmente é feita “na curva”, o que leva os investidores a não sentirem essa volatilidade do mercado no seu dia a dia - e até a ter uma percepção incorreta do que de fato está acontecendo com a sua carteira.

Marcação a mercado vs. marcação ‘na curva’

Mas o que é, de fato, a marcação a mercado e como ela difere da tal marcação “na curva” que é feita hoje? Eu expliquei detalhadamente o que é marcação a mercado nesta outra matéria, mas vou tentar resumir abaixo.

A marcação a mercado, como antecipei na abertura da matéria, é a atualização, normalmente diária, dos preços dos ativos de uma carteira de investimentos pelo seu preço de mercado atual. Quando falamos de renda fixa, o preço a que nos referimos é aquele praticado no mercado secundário, isto é, na negociação entre investidores.

O mercado secundário e a marcação a mercado

Aqui vale fazer uma definição: no mundo dos títulos e valores mobiliários - como ações e títulos de renda fixa - as negociações entre o emissor do papel e o investidor são chamadas de primárias, enquanto as negociações entre investidores são caracterizadas como secundárias.

No mercado de ações essa distinção é mais conhecida. Quando uma empresa abre seu capital na bolsa e emite novas ações para fazer uma oferta pública inicial (IPO), trata-se de uma negociação ou oferta primária; quando um acionista vende suas ações na bolsa a outro investidor, trata-se de uma negociação em mercado secundário.

Esses dois mercados também existem na renda fixa. Ao comprar um título público no Tesouro Direto, por exemplo, o investidor está adquirindo o papel diretamente do seu emissor, o Tesouro Nacional. Trata-se, portanto, de uma negociação em mercado primário.

Mas existe um mercado secundário de títulos públicos, em geral acessado por fundos de investimento, mas do qual a pessoa física também pode participar, em geral via mesa de operações da sua corretora.

Com as debêntures, CRIs e CRAs não é diferente. Os emissores - empresas, no caso de debêntures, e securitizadoras, no caso dos CRIs e CRAs - vendem os títulos inicialmente aos investidores por meio de ofertas públicas; estes, por sua vez, podem ficar com o papel até o vencimento ou, se quiserem, podem vendê-lo antecipadamente a outro investidor - no mercado secundário.

Assim como os preços das ações oscilam na bolsa de valores de acordo com a oferta e a demanda dos investidores, que compram ou vendem de acordo com a sua expectativa para os resultados futuros das empresas emissoras, os preços dos títulos de renda fixa também variam no mercado secundário conforme a oferta e a demanda dos investidores, que compram ou vendem de acordo com a sua expectativa para as taxas de juros.

As remunerações (juros) dos papéis, por sua vez, variam conforme as perspectivas do mercado para a taxa DI, indicador que costuma andar próximo da taxa básica de juros, a Selic.

Esses “DIs futuros” oscilam de acordo com as perspectivas do mercado para a inflação, no curto prazo, e para a saúde fiscal do país, no longo prazo. Basicamente, mais inflação/mais risco resultam em projeções de juros mais altos, enquanto menos inflação (ou menos crescimento econômico)/menos risco resultam em projeções de juros mais baixos.

Quando a projeção é de alta de juros, os preços dos títulos prefixados e indexados à inflação tendem a cair; e quando projeta-se queda de juros, esses papéis costumam se valorizar. A marcação a mercado evidencia esse sobe e desce.

Já no caso dos títulos indexados ao CDI ou à Selic, a volatilidade nos preços costuma ser bem menor, e em geral, mesmo com a marcação a mercado, o investidor só vê seus investimentos se valorizarem. Isso porque esses papéis são simplesmente atualizados conforme a taxa de juros à qual são indexados.

Como é feito hoje: a marcação ‘na curva’

Hoje, os títulos públicos comprados no Tesouro Direto já são marcados a mercado conforme os preços e taxas praticados no secundário, mesmo se tratando de uma negociação em mercado primário. O mesmo vale para as cotas dos fundos de renda fixa, tanto os que investem só em títulos públicos como os que também investem em papéis privados.

Mas os títulos privados e os títulos públicos comprados no secundário são normalmente marcados “na curva”, isto é, as corretoras em geral atualizam os preços desses papéis na carteira dos clientes de acordo com a taxa contratada pelo investidor no momento da compra (“na curva de juros” do papel), e não conforme os juros de mercado.

Assim, se você comprou um título prefixado a uma taxa de 10% ao ano, você simplesmente verá o seu valor investido crescendo diariamente de acordo com essa remuneração.

Essa abordagem até faz sentido no caso dos títulos bancários, como CDBs, LCIs e LCAs, uma vez que é de praxe que os bancos emissores desses papéis garantam a sua recompra pela marcação “na curva” quando o investidor decide fazer o resgate antes do vencimento. E, de fato, esses títulos não serão contemplados pela mudança na regra em janeiro.

A marcação “na curva” também pode fazer sentido para o investidor que pretenda ficar com o título até o vencimento. Isso porque, ao esperar o fim do prazo, você necessariamente recebe a rentabilidade contratada, a despeito do que acontecer com os juros (e preços) no meio do caminho.

Acontece que, no caso de debêntures, títulos públicos comprados no secundário, CRIs e CRAs, a marcação “na curva” pode ser enganosa para quem porventura desejar se desfazer do seu título antes do vencimento.

Isso porque, para sair do investimento antecipadamente, o investidor precisa vender seu papel no secundário, pelo preço de mercado, a outro investidor interessado - a menos que a sua corretora, por algum motivo, garanta a recompra pela marcação “na curva”, o que nem sempre ocorre.

Se for obrigado a recorrer ao secundário, mas só visualizar a marcação dos seus títulos “na curva”, o investidor pode acabar tendo uma surpresa negativa. Afinal, o preço de mercado pode ser menor, igual ou maior que o preço “na curva”, a depender das projeções dos investidores para as taxas de juros naquele momento.

Voltemos ao exemplo do papel prefixado comprado a uma taxa de 10% ao ano. Suponha que se trate de uma debênture e que, em determinado momento, o mercado passe a projetar juros maiores que este patamar até a data de vencimento do papel - digamos, 11%, 12%, 13% ao ano.

Neste caso, o preço de mercado desta debênture certamente ficará inferior ao seu preço “na curva” (taxa sobe, preço cai).

Mas a surpresa também pode ser positiva. Analogamente, caso os investidores passem a projetar juros menores do que 10% ao ano até a data de vencimento da referida debênture, seu preço de mercado ficará superior ao preço “na curva”. Isso significa que, se você a vender nessa hora, pode lucrar com a valorização, sem a necessidade de ficar com o papel até o vencimento.

Com a marcação a mercado, o investidor não terá mais surpresas e ainda poderá antecipar uma venda de olho no lucro com uma eventual valorização dos seus títulos de renda fixa, pois sempre saberá quanto eles valem a todo momento - e quanto obteria caso vendesse todos os seus papéis no mercado secundário hoje.

Marcação a mercado pode dar susto, mas traz mais transparência

A marcação a mercado de debêntures, CRIs, CRAs e títulos públicos negociados no secundário - hoje marcados “na curva” - pode até dar um susto nos investidores que não estão acostumados a essa metodologia.

Em vez de ver seu investimento apenas se valorizar, você passará a ver um sobe e desce talvez desconfortável na carteira, principalmente em momentos de maior incerteza quanto ao risco fiscal do país, como o atual.

No entanto, a marcação a mercado traz mais transparência para o investidor. Afinal, mesmo que você esteja visualizando os seus títulos sendo marcados “na curva”, uma venda antecipada provavelmente ainda será feita a preço de mercado.

Assim, se o seu título tiver se desvalorizado, você apenas não viu o efeito dessa queda na sua carteira, mas o impacto vai aparecer na hora em que você vender.

Além disso, vai ficar mais fácil medir a temperatura do mercado e saber qual o melhor momento para vender um título. Você poderá facilmente evitar a saída de um investimento caso o mercado esteja ruim, ou realizar um bom lucro caso seu papel tenha se valorizado.

Essa é uma estratégia que o pequeno investidor consegue fazer com facilidade no Tesouro Direto atualmente: uma gestão ativa da carteira, em oposição à forma de investir mais passiva, sempre levando todos os títulos a vencimento.

Além de levar mais transparência e padronização para o mercado brasileiro, a Anbima também espera, com a obrigatoriedade da marcação a mercado, deixar o investidor mais consciente na hora de investir.

“Queremos que ele tenha, no momento de tomar uma decisão de investimento, a consciência da importância de considerar quem é o emissor do papel, a qual setor ele pertence, qual o rating e o prazo do título, especificamente no caso do crédito privado”, diz Luciane Effting.

Seja como for, rentabilidade no vencimento não muda

Finalmente, é necessário frisar que, com ou sem marcação a mercado, com juros subindo ou caindo, no mercado primário ou secundário, um princípio da renda fixa permanece o mesmo: se ficar com o título até o vencimento, você vai receber a rentabilidade contratada, independentemente das oscilações ao longo do tempo. Você apenas terá tido mais facilidade de acompanhar quanto a sua carteira de fato valia a cada momento.

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