2022-02-02T19:41:42-03:00
Julia Wiltgen
Julia Wiltgen
Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com pós-graduação em Finanças Corporativas e Investment Banking pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Trabalhou com produção de reportagem na TV Globo e foi editora de finanças pessoais de Exame.com, na Editora Abril.
De volta aos dois dígitos

Como ficam os seus investimentos em renda fixa com a Selic em 10,75%

Taxa básica de juros deve subir mais ao longo do ano. Veja como fica o retorno das aplicações conservadoras de renda fixa com a nova alta da Selic

2 de fevereiro de 2022
19:37 - atualizado às 19:41
Com aumento da taxa básica, TR voltou a subir, e até a poupança passa a render um pouco mais. Imagem: Shutterstock

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) já começou seus trabalhos em 2022 aumentando a taxa básica de juros, a Selic, em mais 1,5 ponto percentual, na sua primeira reunião do ano, finalizada nesta quarta-feira (02).

O ajuste veio dentro das expectativas do mercado e do que já havia sido sinalizado pela autoridade monetária na reunião passada, elevando a meta da Selic de 9,25% para 10,75% ao ano.

É a primeira vez desde 2017 que a meta da taxa básica supera os dois dígitos. O atual ciclo de alta de juros visa a controlar a inflação, que fechou 2021 em 10,06%, bem acima do teto da meta do Banco Central, que era de 5,25%.

Embora alguns dados recentes de inflação já tenham indicado que o aperto monetário promovido pelo Banco Central já começa a surtir efeito, devem vir mais altas por aí, ainda que não na mesma intensidade.

Segundo o comunicado do Copom que acompanha a decisão de juros, o Comitê "antevê como mais adequada, neste momento, a redução do ritmo de ajuste da taxa básica de juros", mas não explicitou de quando poderá ser o aumento da Selic na próxima reunião, a ser realizada em meados de março, indicando apenas que deve ser inferior a 1,5 ponto percentual.

De acordo com o último Boletim Focus do Banco Central, a Selic deve terminar 2022 em 11,75% ao ano, enquanto a inflação oficial, medida pelo IPCA, deve fechar o ano em 5,38%, ainda acima do teto da meta, que neste ano é de 5%.

O custo disso será o sacrifício no crescimento econômico: a expectativa do mercado para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022 é de apenas 0,30%.

Seja como for, do ponto de vista do investidor, um retorno aos juros de dois dígitos e o ciclo de alta da Selic deixa a renda fixa conservadora cada vez mais atrativa.

Desde a última reunião do Copom, que elevou os juros para 9,25% ao ano, a poupança já remunera sua taxa máxima, a mesma da poupança antiga. Recentemente, a Taxa Referencial (TR), que corrige a rentabilidade da caderneta, saiu do zero pela primeira vez desde 2017 e voltou a engordar um pouquinho o retorno da poupança.

Mesmo assim, a aplicação mais popular do país permanece menos interessante que os melhores investimentos pós-fixados, como é o caso do Tesouro Selic (LFT), dos fundos DI e dos títulos bancários mais rentáveis, como os CDB, LCI e LCA pós-fixados.

Assim, é um bom momento para investir nesses papéis pós-fixados (atrelados à Selic e ao CDI) para além da reserva de emergência, pois o retorno dessas aplicações tende a aumentar com a elevação da taxa básica. Além disso, aumenta a diferença entre a remuneração desses papéis e a da caderneta de poupança.

No vídeo a seguir, eu explico o que é a reunião do Copom e como a definição da Selic afeta a sua vida. Assista:

Vencendo o dragão

No patamar de 10,75% ao ano, a Selic já não perde para a inflação oficial projetada para os próximos 12 meses (de 5,29%, segundo o último Focus), como vinha acontecendo há algum tempo.

As aplicações financeiras cuja remuneração é atrelada à Selic ou à taxa DI - taxa de juros que costuma acompanhar a taxa básica - também já começam a vencer o dragão.

Com a perspectiva de que a Selic continue em alta, o que tende também a controlar a inflação, essas aplicações devem encontrar cada vez menos dificuldades de preservar o poder de compra do investidor.

Como ficam os investimentos conservadores com a Selic em 10,75% ao ano

Para você ter uma ideia de como o retorno da renda fixa conservadora está neste momento, eu fiz uma simulação de rentabilidade com quatro aplicações pós-fixadas no novo cenário de juros: caderneta de poupança, Tesouro Selic (LFT), fundo de renda fixa/CDB e Letra de Crédito Imobiliário (LCI). Considerei Selic constante de 10,75% ao ano e o CDI constante de 10,65%, um pouco abaixo, como costuma acontecer.

Escolhi quatro prazos de forma a contemplar as quatro alíquotas de IR possíveis, no caso das aplicações tributadas (Tesouro Selic e fundos/CDB).

Usei datas reais para poder usar o simulador do Tesouro Direto para calcular o retorno do Tesouro Selic, de modo a incluir a taxa de custódia e o spread nos cálculos no caso de uma venda antes do vencimento.

Para calcular o retorno da poupança utilizei os prazos em meses e anos. Já para simular os retornos do fundo/CDB e da LCI, levei em conta o número de dias úteis entre as duas datas reais consideradas em cada prazo.

Todas as rentabilidades estão líquidas de taxas, spread e imposto de renda, quando for o caso.

PrazoPoupançaTesouro SelicFundo de renda fixa / CDB 100% do CDILCI 100% do CDI
3 meses1,69%1,82%1,86%2,40%
8 meses4,57%5,45%5,51%6,89%
1 ano6,94%8,71%8,79%10,65%
2 anos14,36%18,83%18,94%22,29%

Parâmetros

Com o aumento da Selic para um valor superior a 8,50% ao ano, foi acionado o gatilho de altera o cálculo de rentabilidade da poupança.

Anteriormente, a caderneta pagava 70% da taxa Selic mais Taxa Referencial (TR), mas com a taxa básica neste novo patamar, a remuneração passou para 0,5% ao mês + TR, a mesma rentabilidade da poupança antiga e retorno máximo para esse tipo de aplicação.

Lembrando que a caderneta de poupança não tem taxas nem imposto de renda, e sua rentabilidade é mensal, apenas no dia do aniversário.

A TR, que desde 2017 vinha se mantendo zerada, voltou a subir recentemente, então eu considerei a taxa média de janeiro (0,0605%) na simulação. Assim, a rentabilidade da poupança mostrada na tabela é de cerca de 0,56% ao mês, supondo uma TR constante de 0,0605% ao mês, mas essa taxa tende a subir ainda mais com novas altas na Selic.

Já o Tesouro Selic é um título público que paga, no vencimento, a Selic mais um ágio ou deságio. Se vendido antes do vencimento, o retorno é levemente sacrificado em função de uma diferença entre as taxas de compra e venda do papel (spread), o que pode deixar a rentabilidade inferior à Selic do período.

O rendimento do Tesouro Selic é diário, e há cobrança de IR e de uma taxa de custódia obrigatória de 0,20% ao ano, paga à B3, apenas sobre o que exceder o saldo investido de R$ 10 mil.

É possível, porém, que a rentabilidade do título seja um pouco maior do que a que aparece na tabela. Isso porque, nos casos de venda antes do vencimento, a calculadora do Tesouro Direto não confere a isenção de taxa de custódia para o valor investido inferior a R$ 10 mil.

Levei em conta, ainda, que a corretora utilizada para operar no Tesouro Direto não cobra taxa de agente de custódia, que é aquela taxa de administração que as corretoras podem cobrar para oferecer acesso à plataforma do Tesouro - mas que a maioria já não cobra.

Considerei também os fundos de renda fixa que só investem em Tesouro Selic e não cobram taxa de administração, supondo que seu retorno represente a variação do CDI no período menos o imposto de renda. Assim, esses fundos se equiparam, por exemplo, aos CDBs, RDBs ou contas de pagamentos que remuneram 100% do CDI.

Vale aqui uma observação: os fundos Tesouro Selic não costumam pagar exatamente 100% do CDI. Sua remuneração tem ficado um pouco abaixo disso, e eles também estão sujeitos a eventuais quedas nos preços dos títulos, que são raras, mas podem acontecer. A simulação é apenas ilustrativa.

Por fim, simulei o retorno da LCI porque se trata de um título isento de taxas e de IR. Considerei um papel que pague 100% do CDI (às vezes surge uma dessas por aí), apenas para você ver como seria receber uma rentabilidade líquida de 100% do CDI.

Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Clique aqui e receba a nossa newsletter diariamente

A renda fixa voltou

Com a Selic em 10,75% ao ano, já dá para dizer que os investimentos de renda fixa atrelados à taxa básica de juros, mesmo os mais conservadores, "voltaram para o jogo".

Repare que, no prazo de um ano e considerando uma Selic constante, as rentabilidades líquidas projetadas para o Tesouro Selic (8,71%), os fundos Tesouro Selic ou CDBs que rendem 100% do CDI (8,79%) e as LCIs que rendem 100% do CDI (10,65%) já vencem a inflação projetada para 12 meses, de 5,29%.

Essa diferença tende a aumentar à medida que a Selic subir mais, conforme o previsto, e a inflação for, consequentemente, sendo controlada.

Repare ainda que a poupança se mantém desvantajosa frente aos demais investimentos conservadores, e deve ficar cada vez mais. Mas agora, mesmo a poupança já se mostra capaz de repor a inflação projetada em 12 meses.

Além disso, nos atuais patamares de juros, o Tesouro Selic ganha da poupança nova em todos os cenários, mesmo quando há cobrança de taxa de custódia, no resgate antecipado e nos prazos mais curtos, quando a alíquota de IR é maior. Porém, nos patamares mais baixos de Selic, nem sempre isso é verdade.

Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Clique aqui e receba a nossa newsletter diariamente
Comentários
Leia também
ENCRUZILHADA FINANCEIRA

Confissões de um investidor angustiado

Não vou mais me contentar com os ganhos ridículos que estou conseguindo hoje nas minhas aplicações. Bem que eu queria ter alguém extremamente qualificado – e sem conflito de interesses – para me ajudar a investir. Só que eu não tenho o patrimônio do Jorge Paulo Lemann. E agora?

NOVO MODELO DE NEGÓCIOS

Varejo adota ‘loja-contêiner’ para fugir dos custos de shoppings e aluguéis; conheça o que são os estabelecimentos modulares

A estreante no formato é a Chilli Beans, de óculos de sol. “Acho que não teria uma Eco Chilli se não houvesse pandemia”, afirma o CEO, Caito Maia

NÃO MEXE NO MEU QUEIJO

Membros do mercado financeiro defendem Lei das Estatais em documento enviado ao ao Congresso; revogação seria ‘retrocesso’

O texto também cita o relatório de 2020 em que a OCDE afirma que a Lei das Estatais deixou os conselhos de empresas públicas mais independentes de interferências

NESTA SEGUNDA-FEIRA

Governador de São Paulo fará coletiva nesta segunda-feira após Bolsonaro aprovar isenção do ICMS sem garantia de compensação aos estados

O presidente da República vetou o fundo de ajuda aos estados após sancionar o teto do imposto estadual

SEU DOMINGO EM CRIPTO

‘Compre na baixa’ anima e bitcoin (BTC) busca os US$ 22 mil; criptomoedas aguardam semana de olho no Fed

Entre os destaques da próxima semana estão o avanço dos juros nos Estados Unidos e um possível default da Rússia

DE OLHO NO FUTURO

Goldman Sachs quer entrar no mundo da ‘renda fixa’ em criptomoedas e lidera grupo para comprar a Celsius por US$ 2 bilhões

O staking vem crescendo nos últimos meses e é motivo de certa preocupação após o caso da Celsius — e o banco de Wall Street quer um pedaço dele