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Camille Lima

Camille Lima

Jornalista formada pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), em 2025 foi eleita como uma das 50 jornalistas mais admiradas da imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil. Já passou pela redação do TradeMap. Hoje, é repórter de bancos e empresas no Seu Dinheiro. A cobertura atual é majoritariamente centrada no setor financeiro (bancos, instituições financeiras e gestoras), em companhias maiores listadas na B3 e no mercado de ações.

PLANO DE PAZ

Elon Musk propõe maneiras para acabar com a guerra na Ucrânia e cai nas graças de Putin; confira o plano do bilionário

O empresário sugere quatro medidas para encerrar os conflitos no Leste Europeu, incluindo refazer as eleições de regiões anexas e o reconhecimento da Crimeia como parte da Rússia

Camille Lima
Camille Lima
4 de outubro de 2022
16:36 - atualizado às 17:23
Elon Musk comentário
O bilionário Elon Musk. - Imagem: Shutterstock

Avisem os diplomatas para parar de procurar, o bilionário já encontrou um plano de paz. Apesar de diversos estudiosos buscarem há meses um modo para acabar com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, Elon Musk aparentemente já tem a solução. Isto é, pelo menos o CEO da Tesla parece pronto para resolver a tensão geopolítica — e ela passa pelo Twitter, é claro.

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De volta à sua rede social favorita para opinar em questões problemáticas — desta vez, envolvendo o destino de uma nação inteira —, Musk decidiu perguntar a seus seguidores se eles concordavam com suas quatro propostas para acabar com os conflitos no Leste Europeu.

Porém, se a intenção do bilionário era emergir como um grande representante da paz mundial, a reação foi exatamente contrária.

Os líderes ucranianos não ficaram nada contentes com o executivo, para dizer o mínimo. Já em Moscou, Elon Musk parece ter caído nas graças de Putin. Mas por que os países receberam a mensagem de formas tão opostas? Eu explico abaixo.

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As propostas de paz de Elon Musk

Para Elon Musk, existem quatro medidas que poderiam colocar um fim à Guerra na Ucrânia, que se estende há mais de sete meses. Seriam elas:

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  1. Refazer eleições de regiões anexas sob supervisão da ONU;
  2. Considerar a Crimeia formalmente parte da Rússia;
  3. Garantir abastecimento de água à Crimeia;
  4. A Ucrânia permaneceria neutra.

Ou seja, o CEO da Tesla propôs que a Ucrânia cedesse permanentemente a Crimeia à Rússia, região invadida por Moscou e anexada da Ucrânia em 2014. 

Vale destacar que esta é uma das exigências do presidente russo Vladimir Putin desde o início dos conflitos, em fevereiro deste ano, para acabar com a operação militar.

Desse modo, novos referendos deveriam ser realizados sob a supervisão da ONU, para que, assim, fossem determinados os destinos dos territórios controlados pela Rússia, e, por fim, que a Ucrânia concordasse com a neutralidade.

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Elon Musk destacou ainda que, “se fosse da vontade da população, a Rússia deixaria os territórios anexados”.

O bilionário ainda respondeu a própria enquete no Twitter dizendo que “este provavelmente será o resultado no final”, e destacou que seria “apenas uma questão de quantos morrerão antes disso”.

A questão da Crimeia

Entre as quatro sugestões de seu “plano de paz”, Elon Musk sugeriu que a Ucrânia reconhecesse formalmente que a Crimeia faz parte da Rússia, “como tem sido desde 1783 (até o erro de Khrushchev)”.

Para explicar melhor, o CEO da Tesla refere-se — em uma versão seletiva e alinhada à visão russa — à história da Península da Crimeia.

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A Crimeia foi considerada parte da Rússia — na época, a antiga União Soviética — até 1954, quando o primeiro-ministro soviético, Nikita Khrushchov, transferiu a região para a Ucrânia. 

Em 1991, com a dissolução da União Soviética e a independência dos membros, a Crimeia passou a integrar oficialmente a Ucrânia. 

Três anos depois, a Rússia, a Ucrânia e o Reino Unido assinaram o chamado “memorando de Budapeste de 1994”, em que Moscou concordou em respeitar a integridade territorial ucraniana — com a Crimeia inclusa.

No início de 2014, porém, a península tornou-se foco de uma intensa crise entre a Rússia, Estados Unidos e Reino Unido. 

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Isso porque a população ucraniana estava dividida em dois grupos: o que buscava uma integração maior com a Rússia e as pessoas que apoiavam uma aliança com a União Europeia. 

A população pró-Ucrânia realizou uma série de protestos contra a influência russa no país, o que gerou a queda do governo do líder pró-russo Viktor Yanukovich. 

Acontece que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, já estava tomando as próprias medidas: em fevereiro daquele ano, o chefe de Moscou começou a enviar milhares de tropas militares adicionais para as bases que o país possuía na Crimeia.

Então, em março de 2014, a Rússia anexou a Crimeia. A Ucrânia, os EUA e o Reino Unido consideraram o referendo ilegal, mas Moscou apoiou o pleito.

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Em outro tweet na segunda-feira, Elon Musk abriu uma nova enquete sobre o assunto: “Vamos tentar isso então: a vontade das pessoas que vivem no Donbass e na Crimeia deve decidir se elas fazem parte da Rússia ou da Ucrânia”, que permitia respostas de sim ou não.

Como a Rússia respondeu à enquete?

Como era esperado, o tweet de Elon Musk teve reações bem distintas nos dois países envolvidos no conflito. 

Na visão da Rússia, que seria o lado beneficiado caso as propostas do bilionário fossem oficializadas, as falas do CEO foram extremamente positivas e renderam elogios por parte do Kremlin.

"É muito positivo que alguém como Elon Musk esteja procurando uma saída pacífica para esta situação", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, durante teleconferência.

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"Comparado a muitos diplomatas profissionais, Musk ainda está procurando maneiras de alcançar a paz. E alcançar a paz sem cumprir as condições da Rússia é absolutamente impossível.”

Ucrânia insatisfeita com Elon Musk

Do outro lado, os ucranianos — tanto as autoridades quanto a população — demonstraram forte insatisfação com a publicação do CEO da Tesla.

A Ucrânia afirma que nunca irá concordar em ceder terras tomadas à força por Moscou, e destacou que referendos legais não podem ser realizados em território ocupado, onde um grande número de pessoas foi morto ou expulso. 

Na última quinta-feira (29), o presidente da Rússia, Vladimir Putin, alcançou um dos objetivos militares do Kremlin em relação à invasão da Ucrânia: Moscou formalizou a anexação de quatro províncias ucranianas.

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Em referendos realizados nos últimos dias, os eleitores das áreas das províncias de Lugansk, Donetsk, Zaporijia e Kherson, controladas pelo exército russo, decidiram deixar de fazer parte da Ucrânia.

Com isso, Moscou finalmente poderá estabelecer uma conexão terrestre entre o Rostov e a Península da Crimeia.

Logo em seguida, a Ucrânia afirmou estar se candidatando para ingressar na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e disse que não negociaria com a Rússia enquanto Putin fosse presidente.

Uma pesquisa de opinião realizada em Kiev na segunda-feira (03) pelo Rating Group mostrou que um número recorde de ucranianos, de cerca de 83%, deseja que o país se junte à Otan.

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Em resposta à enquete de Musk no Twitter, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky abriu sua própria enquete: "Qual @elonmusk você gosta mais: Um que apoia a Ucrânia ou um que apoia a Rússia?". Após mais de 2,4 milhões de votos, 78,8% disseram preferir a primeira alternativa.

Por sua vez, o embaixador da Ucrânia na Alemanha, Andrij Melnyk, fez um tweet em resposta a Musk: “Fod…-se é minha resposta muito diplomática para você”, em tradução livre.

Melnyk ainda afirmou que “agora nenhum ucraniano NUNCA comprará seu maldito Tesla”.

Em seguida, o mestre de xadrez russo, Garry Kasparov, disse: "Isso é uma idiotice moral, repetição da propaganda do Kremlin, uma traição à coragem e sacrifício ucranianos".

Vale ainda destacar que nem mesmo o resultado da própria enquete de Elon Musk no Twitter foi positivo. 

Considerando mais de 2 milhões de votos, aproximadamente 59,1% dos seguidores do bilionário na rede social discordaram de suas propostas.

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Um ‘timing’ peculiar

É importante ressaltar que a enquete feita por Elon Musk sobre a política externa da Ucrânia e da Rússia acontece em uma semana agitada para o bilionário.

Isto é, os comentários foram feitos logo após a Tesla entregar dados trimestrais de produção enfraquecidos e, ainda, na mesma semana em que o processo contra o Twitter esquentará nos tribunais norte-americanos.

A fabricante de veículos elétricos produziu um recorde de 365.923 carros no trimestre e vendeu 343.830 automóveis entre julho e setembro de 2022.

Os números vieram bem abaixo da média das projeções dos analistas consultados pela Street Account, da FactSet, que esperavam a entrega de 364.660 veículos no período.

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De volta à questão judicial, o CEO da montadora irá depor aos advogados que atuam no Twitter antes de um julgamento marcado para começar em 17 de outubro.

A empresa de mídia social está processando Musk após o bilionário ter desistido de um acordo de US$ 44 bilhões para comprar a plataforma.

Nesta terça-feira, as ações do Twitter (TWTR34) inclusive disparam aproximadamente 20% após rumores de que Musk teria voltado atrás e decidido seguir em frente com a compra da rede social.

Elon Musk não foi o único

O CEO da Tesla não foi o único bilionário a ‘participar’ das negociações de paz e propostas de resolução do conflito na Ucrânia.

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No fim de março, negociadores russos e ucranianos iniciaram as primeiras discussões em Istambul — e as negociações contaram com a presença surpresa do bilionário russo Roman Abramovich.

Abramovich foi alvo das sanções do Ocidente após a invasão da Ucrânia pela Rússia e teve seus bens congelados, junto a outros oligarcas russos.

*Com informações de Reuters, CNBC e The Washington Post

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