Elon Musk propõe maneiras para acabar com a guerra na Ucrânia e cai nas graças de Putin; confira o plano do bilionário
O empresário sugere quatro medidas para encerrar os conflitos no Leste Europeu, incluindo refazer as eleições de regiões anexas e o reconhecimento da Crimeia como parte da Rússia

Avisem os diplomatas para parar de procurar, o bilionário já encontrou um plano de paz. Apesar de diversos estudiosos buscarem há meses um modo para acabar com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, Elon Musk aparentemente já tem a solução. Isto é, pelo menos o CEO da Tesla parece pronto para resolver a tensão geopolítica — e ela passa pelo Twitter, é claro.
De volta à sua rede social favorita para opinar em questões problemáticas — desta vez, envolvendo o destino de uma nação inteira —, Musk decidiu perguntar a seus seguidores se eles concordavam com suas quatro propostas para acabar com os conflitos no Leste Europeu.
Porém, se a intenção do bilionário era emergir como um grande representante da paz mundial, a reação foi exatamente contrária.
Os líderes ucranianos não ficaram nada contentes com o executivo, para dizer o mínimo. Já em Moscou, Elon Musk parece ter caído nas graças de Putin. Mas por que os países receberam a mensagem de formas tão opostas? Eu explico abaixo.
As propostas de paz de Elon Musk
Para Elon Musk, existem quatro medidas que poderiam colocar um fim à Guerra na Ucrânia, que se estende há mais de sete meses. Seriam elas:
- Refazer eleições de regiões anexas sob supervisão da ONU;
- Considerar a Crimeia formalmente parte da Rússia;
- Garantir abastecimento de água à Crimeia;
- A Ucrânia permaneceria neutra.
Ou seja, o CEO da Tesla propôs que a Ucrânia cedesse permanentemente a Crimeia à Rússia, região invadida por Moscou e anexada da Ucrânia em 2014.
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Vale destacar que esta é uma das exigências do presidente russo Vladimir Putin desde o início dos conflitos, em fevereiro deste ano, para acabar com a operação militar.
Desse modo, novos referendos deveriam ser realizados sob a supervisão da ONU, para que, assim, fossem determinados os destinos dos territórios controlados pela Rússia, e, por fim, que a Ucrânia concordasse com a neutralidade.
Elon Musk destacou ainda que, “se fosse da vontade da população, a Rússia deixaria os territórios anexados”.
O bilionário ainda respondeu a própria enquete no Twitter dizendo que “este provavelmente será o resultado no final”, e destacou que seria “apenas uma questão de quantos morrerão antes disso”.
A questão da Crimeia
Entre as quatro sugestões de seu “plano de paz”, Elon Musk sugeriu que a Ucrânia reconhecesse formalmente que a Crimeia faz parte da Rússia, “como tem sido desde 1783 (até o erro de Khrushchev)”.
Para explicar melhor, o CEO da Tesla refere-se — em uma versão seletiva e alinhada à visão russa — à história da Península da Crimeia.
A Crimeia foi considerada parte da Rússia — na época, a antiga União Soviética — até 1954, quando o primeiro-ministro soviético, Nikita Khrushchov, transferiu a região para a Ucrânia.
Em 1991, com a dissolução da União Soviética e a independência dos membros, a Crimeia passou a integrar oficialmente a Ucrânia.
Três anos depois, a Rússia, a Ucrânia e o Reino Unido assinaram o chamado “memorando de Budapeste de 1994”, em que Moscou concordou em respeitar a integridade territorial ucraniana — com a Crimeia inclusa.
No início de 2014, porém, a península tornou-se foco de uma intensa crise entre a Rússia, Estados Unidos e Reino Unido.
Isso porque a população ucraniana estava dividida em dois grupos: o que buscava uma integração maior com a Rússia e as pessoas que apoiavam uma aliança com a União Europeia.
A população pró-Ucrânia realizou uma série de protestos contra a influência russa no país, o que gerou a queda do governo do líder pró-russo Viktor Yanukovich.
Acontece que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, já estava tomando as próprias medidas: em fevereiro daquele ano, o chefe de Moscou começou a enviar milhares de tropas militares adicionais para as bases que o país possuía na Crimeia.
Então, em março de 2014, a Rússia anexou a Crimeia. A Ucrânia, os EUA e o Reino Unido consideraram o referendo ilegal, mas Moscou apoiou o pleito.
Em outro tweet na segunda-feira, Elon Musk abriu uma nova enquete sobre o assunto: “Vamos tentar isso então: a vontade das pessoas que vivem no Donbass e na Crimeia deve decidir se elas fazem parte da Rússia ou da Ucrânia”, que permitia respostas de sim ou não.
Como a Rússia respondeu à enquete?
Como era esperado, o tweet de Elon Musk teve reações bem distintas nos dois países envolvidos no conflito.
Na visão da Rússia, que seria o lado beneficiado caso as propostas do bilionário fossem oficializadas, as falas do CEO foram extremamente positivas e renderam elogios por parte do Kremlin.
"É muito positivo que alguém como Elon Musk esteja procurando uma saída pacífica para esta situação", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, durante teleconferência.
"Comparado a muitos diplomatas profissionais, Musk ainda está procurando maneiras de alcançar a paz. E alcançar a paz sem cumprir as condições da Rússia é absolutamente impossível.”
Ucrânia insatisfeita com Elon Musk
Do outro lado, os ucranianos — tanto as autoridades quanto a população — demonstraram forte insatisfação com a publicação do CEO da Tesla.
A Ucrânia afirma que nunca irá concordar em ceder terras tomadas à força por Moscou, e destacou que referendos legais não podem ser realizados em território ocupado, onde um grande número de pessoas foi morto ou expulso.
Na última quinta-feira (29), o presidente da Rússia, Vladimir Putin, alcançou um dos objetivos militares do Kremlin em relação à invasão da Ucrânia: Moscou formalizou a anexação de quatro províncias ucranianas.
Em referendos realizados nos últimos dias, os eleitores das áreas das províncias de Lugansk, Donetsk, Zaporijia e Kherson, controladas pelo exército russo, decidiram deixar de fazer parte da Ucrânia.
Com isso, Moscou finalmente poderá estabelecer uma conexão terrestre entre o Rostov e a Península da Crimeia.
Logo em seguida, a Ucrânia afirmou estar se candidatando para ingressar na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e disse que não negociaria com a Rússia enquanto Putin fosse presidente.
Uma pesquisa de opinião realizada em Kiev na segunda-feira (03) pelo Rating Group mostrou que um número recorde de ucranianos, de cerca de 83%, deseja que o país se junte à Otan.
Em resposta à enquete de Musk no Twitter, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky abriu sua própria enquete: "Qual @elonmusk você gosta mais: Um que apoia a Ucrânia ou um que apoia a Rússia?". Após mais de 2,4 milhões de votos, 78,8% disseram preferir a primeira alternativa.
Por sua vez, o embaixador da Ucrânia na Alemanha, Andrij Melnyk, fez um tweet em resposta a Musk: “Fod…-se é minha resposta muito diplomática para você”, em tradução livre.
Melnyk ainda afirmou que “agora nenhum ucraniano NUNCA comprará seu maldito Tesla”.
Em seguida, o mestre de xadrez russo, Garry Kasparov, disse: "Isso é uma idiotice moral, repetição da propaganda do Kremlin, uma traição à coragem e sacrifício ucranianos".
Vale ainda destacar que nem mesmo o resultado da própria enquete de Elon Musk no Twitter foi positivo.
Considerando mais de 2 milhões de votos, aproximadamente 59,1% dos seguidores do bilionário na rede social discordaram de suas propostas.
Um ‘timing’ peculiar
É importante ressaltar que a enquete feita por Elon Musk sobre a política externa da Ucrânia e da Rússia acontece em uma semana agitada para o bilionário.
Isto é, os comentários foram feitos logo após a Tesla entregar dados trimestrais de produção enfraquecidos e, ainda, na mesma semana em que o processo contra o Twitter esquentará nos tribunais norte-americanos.
A fabricante de veículos elétricos produziu um recorde de 365.923 carros no trimestre e vendeu 343.830 automóveis entre julho e setembro de 2022.
Os números vieram bem abaixo da média das projeções dos analistas consultados pela Street Account, da FactSet, que esperavam a entrega de 364.660 veículos no período.
De volta à questão judicial, o CEO da montadora irá depor aos advogados que atuam no Twitter antes de um julgamento marcado para começar em 17 de outubro.
A empresa de mídia social está processando Musk após o bilionário ter desistido de um acordo de US$ 44 bilhões para comprar a plataforma.
Nesta terça-feira, as ações do Twitter (TWTR34) inclusive disparam aproximadamente 20% após rumores de que Musk teria voltado atrás e decidido seguir em frente com a compra da rede social.
Elon Musk não foi o único
O CEO da Tesla não foi o único bilionário a ‘participar’ das negociações de paz e propostas de resolução do conflito na Ucrânia.
No fim de março, negociadores russos e ucranianos iniciaram as primeiras discussões em Istambul — e as negociações contaram com a presença surpresa do bilionário russo Roman Abramovich.
Abramovich foi alvo das sanções do Ocidente após a invasão da Ucrânia pela Rússia e teve seus bens congelados, junto a outros oligarcas russos.
*Com informações de Reuters, CNBC e The Washington Post
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