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Isabelli Neckel

RACIOCÍNIO CONTRAINTUITIVO

Imposto menor hoje, inflação maior amanhã: pesquisadores da FGV alertam para risco de alta duradoura na inflação

De acordo com eles, a diminuição de impostos sobre combustíveis e energia pode ter resultado oposto ao esperado

inflação - perder dinheiro
Imagem: Shutterstock

Parece uma consequência óbvia: com menos impostos, os preços dos produtos também vão cair, certo? Mas, segundo pesquisadores da FGV, não é bem assim. Uma redução de impostos agora poderia até mesmo aumentar a inflação mais pra frente.

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Desse modo, a diminuição de impostos sobre combustíveis, conta de luz e outros itens de energia, anunciada nesta semana pelo governo federal, pode ter o resultado oposto ao esperado pelo Palácio do Planalto.

Esse foi o alerta feito na quinta-feira (09) por pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) durante o II Seminário de Análise Conjuntural, evento online organizado pela instituição em parceria com o Estadão.

Situação pode levar a aperto monetário mais duradouro e acentuado

Para os pesquisadores, mesmo que haja um alívio de curto prazo, a inflação poderá voltar a subir mais a frente, e ficar elevada por mais tempo, exigindo um ciclo de aperto monetário mais duradouro e, talvez, maior.

"É uma enorme ilusão achar que redução de impostos vai reduzir inflação e trazer juro pra baixo", afirmou José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV Ibre. “Tudo ali é temporário. Na virada do ano, o que acontece com a inflação? Sobe de novo”.

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Em pouco mais de um ano, a taxa básica Selic foi de 2% ao ano para 12,75%. Para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), marcada para a semana que vem, a expectativa é de que a Selic seja elevada pelo menos a 13,25%.

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Na avaliação de Senna, um ex-diretor do BC, as medidas anunciadas na última segunda-feira pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) não deverão moderar esse ciclo de elevação de juros. Pelo contrário: a tendência é o BC "ficar mais preocupado com o futuro", o que "significa prejuízos de longo prazo".

Redução de impostos tende a pressionar expectativas para a inflação de 2023

A pesquisadora Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro Ibre, destacou que o anúncio da redução de impostos tende a elevar as expectativas de inflação para 2023.

No mais recente Boletim Focus, elaborado pelo BC com as projeções de analistas de mercado, as expectativas já giram em torno de 4,5% para a inflação do ano que vem, diante de uma meta de 3,25%. Entretanto, como a divulgação semanal está suspensa devido à greve dos servidores do Banco Central, a pesquisa Focus está defasada. A última edição do boletim foi divulgada no início de maio, ainda com dados de abril.

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Em sua participação no evento, Armando Castelar, pesquisador associado do FGV Ibre,  lembrou que as perspectivas de curto prazo para a atividade econômica em 2022 melhoraram nos últimos meses.

Porém, o principal problema do cenário é a persistência da inflação alta no mundo todo e a necessidade de subir juros, questão que segue pesando sobre a possibilidade de um crescimento sustentável.

"Quando a gente comemora que o IPCA caiu abaixo de 12% em 12 meses tem alguma coisa errada", disse Castelar, referindo-se aos dados do IPCA de maio, que mostraram uma variação de 11,73% no acumulado em 12 meses.

Eleições 2022 geram incertezas

lula e bolsonaro

Castelar destacou que o "risco político-eleitoral" entrou no radar dos agentes econômicos nesta semana, com as reduções de impostos anunciadas pelo presidente Jair Bolsonaro e também com a divulgação de um primeiro esboço do programa de governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

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“Não é definitivo, mas veio à tona e não deixa ninguém tranquilo sobre 2023", completou o pesquisador.

Até agora, com os resultados das contas do governo, pelo menos no curto prazo, vindo melhores do que o inicialmente esperado, esse risco estava sendo deixado de lado por investidores e analistas.

Para Castelar, com "a questão político-eleitoral voltando com tudo à cena", a tendência, até o fim do ano, é que as incertezas em torno dos rumos da política econômica num próximo governo federal pesem sobre a economia.

Os principais impactos deverão ser o adiamento ou moderação nos investimentos, a elevação do risco-País e a elevação da taxa de câmbio, ainda que não se espere um salto do dólar como aconteceu na campanha eleitoral de 2002 diante da perspectiva da vitória de Lula.

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*Com informações do Estadão Conteúdo.

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