Mais coisas estranhas nos investimentos: A Netflix atingiu a maturidade, mas e se estivermos todos errados sobre ela?
Netflix encontra-se em uma encruzilhada: serviço de streaming precisa reduzir investimentos em novas produções sem perder assinantes - e parece estar diante de uma solução viável

Olá, seja bem-vindo à Estrada do Futuro, onde conversamos semanalmente sobre a intersecção entre investimentos e tecnologia. A Netflix, cujo BDR é encontrado sob o ticker NFLX34, tem sido uma fonte inesgotável de debate entre os investidores de tecnologia.
Eu mesmo, após o péssimo resultado do 1T22 (quando as ações desabaram mais de 30%), escrevi uma coluna com insights e uma visão negativa sobre a ação.
Na ocasião, descrevi o grande problema que os investidores enfrentam ao avaliar a empresa: a Netflix alcançou maturidade sem demonstrar capacidade de gerar caixa com consistência.
O quanto vale uma empresa madura, de baixo crescimento e que não gera caixa? Geralmente, pouco.
Entretanto, o sucesso da marca e a escala da Netflix nos obrigam a refletir mais e buscar outras explicações além do óbvio.
Na coluna de hoje, vou explorar uma opcionalidade ainda muito especulativa, mas que pode virar o jogo a favor da Netflix (e torná-la um belo investimento aos preços atuais).
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O ciclo vicioso da Netflix
A queda vertiginosa das ações da Netflix pode ser resumida em três pilares:
- (i) desaceleração do crescimento, com dois trimestres consecutivos de queda na quantidade de usuários;
- (ii) aumento da taxa de cancelamentos; e
- (iii) incapacidade de gerar caixa consistentemente.
Netflix atingiu a maturidade
Sobre a desaceleração, a "lei dos grandes números" começa a exercer sua força gravitacional: com mais de 220 milhões de assinantes pagantes ao redor do mundo, é praticamente impossível que a Netflix siga crescendo num ritmo de encher os olhos.
Em outras palavras, ela parece ter alcançado a maturidade, ao menos no quesito "quantidade de usuários".
No último trimestre, a taxa de cancelamentos tornou-se assunto entre os investidores. A Netflix sempre foi o "benchmark" para toda empresa de assinaturas, comandando um dos "churns" mais baixos da categoria, mesmo se comparado a outras formas de serviços vendidas sobre o mesmo modelo.
As comparações são imperfeitas devido ao fato de a empresa ter descontinuado suas operações na Rússia, com o impacto sendo inteiramente sentido neste início de 2022, mas os investidores parecem convictos de que o churn aumentará.
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A Netflix e a produção de novos conteúdos
Ou melhor, convictos de que o único motivo pelo qual ele ainda não aumentou substancialmente é o fato de a Netflix queimar rios de dinheiro em produção de novos conteúdos, mantendo um ritmo de produção muito superior à rentabilidade.
Ou seja, a maioria do mercado acredita que a Netflix será rentável apenas se diminuir o ritmo de investimentos em conteúdo.
Ao mesmo tempo, essa maioria acredita que ao diminuir o ritmo, a empresa poderá provocar uma escalada brutal na taxa de cancelamentos, pois a Netflix acostumou seus clientes a receber conteúdos novos numa frequência muito alta.
A conta não fecha.
Ideias, por favor
Assumindo que essa hipótese esteja correta, a Netflix poderia diminuir o ritmo de investimentos em novos shows se, e somente se, ela encontrasse uma fonte de entretenimento alternativa, de custo muito inferior à produção de novos conteúdos e que mantivesse seus usuários entretidos e distantes do cancelamento.
Há sinais, ainda embrionários, de que a sua iniciativa de games talvez possa ser a resposta.
Lançado há poucos meses, o catálogo de games mobile da Netflix ainda é pequeno, mas traz uma proposta de negócios muito superior (ao menos na minha opinião) que o restante da indústria.
Hoje, o mercado de games mobile é cerca de 2-3x maior que o de consoles; a maioria da audiência consome games casuais, de baixa complexidade e destinados a "passar o tempo".
Para oferecer tais games gratuitamente, a indústria convergiu para o modelo de anúncios (como toda a indústria de conteúdos digitais).
Entre uma tela e outra, somos obrigados a assistir um vídeo de 30 segundos. Empresas bilionários, como Unity, AppLovin e outras surgiram para profissionalizar e criar soluções de automação para esse mercado.
No catálogo ainda pequeno da Netflix, os games são igualmente casuais e, aos poucos, irão alavancar as propriedades intelectuais da marca, como "Stranger Things", "Round 6", "La Casa de Papel" e outros.
Diferente do restante da indústria, esses games são consumidos sem anúncios, pois estão inclusos no valor da assinatura do Netflix (até aqui, os games tem sido exclusivos para os assinantes do Netflix).
Há alguns dias, um novo game chegou ao catálogo e sua recepção fez barulho entre os portais especializados: é o Poinpy (ou "Pompi", nas stores brasileiras).
‘Vale minha assinatura’
Poinpy segue exatamente o padrão descrito acima: um jogo casual, para passar o tempo, com arte impecável e uma progressão inteligente.
Na sessão de reviews da Apple Store americana, surgiram dezenas de comentários como este (abaixo), elogiando a qualidade do game e explicitamente reforçando como ele faz com que a assinatura do Netflix valha o valor cobrado.
Ainda é muito cedo, mas talvez o Poinpy seja uma espécie de segundo "momento House of Cards" (quando o Netflix validou a hipótese de que os conteúdos próprios teriam alto impacto e engajamento).
A produção de um game como o Poinpy é muito mais barata que uma série de televisão.
Além disso, esses jogos são caracterizados por reterem seus usuários mais engajados por muito tempo (muito mais que as tradicionais 8 horas de temporada de uma série qualquer), além de serem extremamente baratos de manter uma vez que o jogo esteja rodando.
A iniciativa de games do Netflix não impressionou aos investidores justamente por não ser um vetor de crescimento, mas talvez resolva o maior problema que a empresa enfrenta hoje: minimizar o cancelamento ao mesmo tempo em que mantém os custos controlados.
Aos preços atuais, com Netflix negociando a apenas 16x lucros, certamente essa é uma hipótese que vale a pena ser acompanhada nos próximos meses.
Postarei novidades por aqui.
Grande abraço,
Richard Camargo.
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