A guerra Rússia x Ucrânia mexe com o preço dos alimentos — e pressiona BRF (BRFS3), JBS (JBSS3) e outras ações da B3
Os países em guerra são importantes exportadores de trigo e milho, insumos importantes para JBS (JBSS3), BRF (BRFS3), Ambev (ABEV3) e outras

Com as tensões entre Rússia e Ucrânia evoluindo para confronto armado, muito se fala nos impactos para o setor global de energia, já que os russos são importantes produtores de petróleo e gás natural. Mas há outro front em que a guerra gera apreensão: o de alimentos — os dois países têm papéis decisivos no mercado de commodities agrícolas. E, nesse cenário, as ações de BRF (BRFS3), JBS (JBSS3) e outras empresas que dependem desse tipo de produto tendem a sofrer com pressões no médio prazo.
Indo aos números: juntas, Rússia e Ucrânia são responsáveis por 18% das exportações globais de milho e de 28% das vendas internacionais de trigo, de acordo com dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) compilados pelo Itaú BBA. Não à toa, a dupla é conhecida como "celeiro da Europa".
E, com a possibilidade de fechamento desse celeiro por causa da guerra, os preços dessas commodities já começam a subir. Os contratos futuros de milho na bolsa de Chicago sobem mais de 3% hoje, e os de trigo avançam mais de 5%. É uma lógica semelhante à do petróleo: um corte súbito na oferta gera um pico nas cotações.
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Só que, no caso do petróleo, muito se fala num efeito benéfico às empresas de óleo e gás, como a Petrobras (PETR4), PetroRio (PRIO3) e 3R Petroleum (RRRP3), já que a alta na commodity impulsiona a geração de receita. Mas, para empresas como BRF, JBS e outras do setor de alimentos e bebidas, a lógica é oposta: o aumento no trigo e no milho causa um salto na linha de custos — o que, obviamente, é uma má notícia.
O setor de proteína animal, por exemplo, é dependente de trigo e milho no que diz respeito aos preços de ração — uma alta das commodities implica em custos maiores para manutenção de rebanho. Outras empresas, como Ambev (ABEV3) e M. Dias Branco (MDIA3) usam os produtos como matéria-prima.
O Itaú BBA analisou os potenciais desdobramentos que a guerra entre Rússia e Ucrânia poderá trazer ao setor de alimentos e bebidas da B3. Veja os prognósticos para sete companhias que atuam nesse segmento.
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M. Dias Branco (MDIA3): potencial de ser a mais afetada

- Recomendação: market perform (semelhante a neutro)
- Preço-alvo: R$ 27,00
O Itaú BBA lembra que a compra de trigo representa quase metade da estrutura de custos da M. Dias Branco (MDIA3), uma das principais produtoras de massas e biscoitos do país. Sendo assim, o preço da commodity é um fator-chave para a rentabilidade da companhia no curto prazo.
"No atual ambiente adverso de consumo, qualquer alta no preço do trigo pode afetar diretamente a companhia, já que o repasse de custos seria um desafio", escreve o banco. "Estimamos que cada 5% de aumento nos custos com o trigo demandam um aumento de 2% nos preços dos produtos para neutralizar o impacto no Ebitda".
A instituição pondera, no entanto, que não há risco de desabastecimento de trigo; além disso, por mais que os preços da commodity devam subir no mundo todo, apenas 1% das importações brasileiras vem do leste europeu, o que pode mitigar o efeito maléfico sobre a M. Dias Branco.
Ambev (ABEV3): maior inflação nos custos pode afetar a rentabilidade em 2023

- Recomendação: market perform (semelhante a neutro)
- Preço-alvo: R$ 18,00
O banco estima que cerca de 10% do custo dos produtos vendidos da divisão de cerveja da Ambev (ABEV3) no Brasil estejam relacionados aos preços do milho e do trigo. "Isso é vital para determinar a rentabilidade em 2023, ainda mais porque os consumidores parecem bastante resistentes a repasses em 2022 e 2023".
Por outro lado, o Itaú BBA pondera que a estratégia de hedge da Ambev deve protegê-la das turbulências ao longo do ano; e, em 2023, quando o impacto começará a ser sentido, ela terá tido tempo para preparar uma estratégia de precificação que incorpore esse novo cenário de custos.
Camil (CAML3): custos de trigo pressionam os resultados da Santa Amália

- Recomendação: market perform (semelhante a neutro)
- Preço-alvo: R$ 11,00
A Camil (CAML3) entrou no segmento de massas em agosto do ano passado, com a compra da Santa Amália — e, numa lógica semelhante à da M. Dias Branco, o aumento no preço de trigo mexe diretamente com os custos de matéria-prima.
"Com essa expansão, os preços do trigo entraram na estrutura de custos da Camil e, num evento de desbalanceamento no comércio internacional, é de se esperar uma pressão nesse front", escreve o Itaú BBA, estimando que uma queda de 1 ponto percentual na margem Ebitda da Santa Amália causará uma contração de 1% no Ebitda da empresa como um todo.
Mas também há boas notícias para a Camil: a inflação do trigo e seus derivados tende a aumentar a demanda por arroz, o que pode compensar os eventuais impactos negativos causados.
JBS (JBSS3): alta do milho x preços melhores de aves

- Recomendação: outperform (semelhante a compra)
- Preço-alvo: R$ 47,00
No caso da JBS (JBSS3), há uma exposição direta aos preços do milho nas operações da Pilgrim's Pride, US Pork e Seara, o que pode pressionar diretamente as margens do grupo — a estrutura de custos tende a crescer, já que a ração para aves e suínos depende da commodity.
"Acreditamos que o ambiente ainda saudável de consumo nos EUA possa mitigar as turbulências no mercado americano", diz o banco. "Os consumidores brasileiros estão num contexto menos sólido e podem ser mais resistentes ao repasse nos preços, especialmente nos produtos processados".
BRF (BRFS3): inflação nos custos pode superar os preços melhores de aves

- Recomendação: market perform (semelhante a neutro)
- Preço-alvo: R$ 24,00
O Itaú BBA destaca que as exportações de aves tendem a atingir preços mais atrativos, especialmente no Oriente Médio — área que respondeu por cerca de 25% das receitas da BRF (BRFS3) em 2021. No entanto, a elevação nos preços de milho tende a pressionar negativamente a estrutura de custos da empresa.
"Acreditamos que os efeitos negativos de uma quebra da cadeia de comércio devem superar os positivos, principalmente porque o poder de precificação sobre os produtos processados no Brasil parece limitado no atual momento. Estimamos que, a cada 10% de alta no preço do milho, o custo dos produtos vendidos da BRF irá aumentar em 2%".
Marfrig (MRFG3): efeitos indiretos do investimento na BRF

- Recomendação: outperform (semelhante a compra)
- Preço-alvo: R$ 26,00
No caso da Marfrig (MFRG3), os impactos sobre a linha de custos são mínimos, considerando o uso bastante restrito de ração animal por parte da companhia — a empresa é focada na produção de bovinos. Além disso, menos de 2% da receita líquida vem da exportação para o leste europeu.
No entanto, vale lembrar que a Marfrig, hoje, é dona de 33% da BRF; assim, eventuais impactos sobre as operações da dona da Sadia e da Perdigão por causa da alta no milho tendem a se espalhar pelos resultados da empresa.
Minerva (BEEF3): impactos limitados

- Recomendação: outperform (semelhante a compra)
- Preço-alvo: R$ 17,00
Dentre as empresas analisadas pelo Itaú BBA, a Minerva (BEEF3) é a menos impactada: assim como a Marfrig, ela é focada em bovinos e exporta muito pouco para o leste europeu. "A demanda global por carne bovina ainda está aquecida, e as rotas de exportação podem ser ajustadas para mitigar o impacto de interrupções relacionadas à Rússia e à Ucrânia", diz o banco.
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