O curioso caso da Dexxos, a sócia da Petrobras que trocou de nome e sobe 690% na bolsa
Rafael Alcides, CEO da Dexxos (antiga GPC), fala ao Seu Dinheiro sobre a longa recuperação judicial e as perspectivas futuras para a empresa

A bolsa brasileira é cheia de episódios peculiares. Há a transformação do Magalu em gigante do varejo; há a ascensão e queda das empresas de Eike Batista; há o salto global da Ambev e da Natura. E há também o curioso caso da Dexxos Participações.
Se você nunca ouviu falar nela, não se preocupe: Dexxos é o novo nome da antiga GPC Participações — a mudança foi aprovada pelos acionistas na última segunda-feira (7). E por que trocar a marca?
Bem, nas palavras da própria empresa, trata-se de uma estratégia para a "modernização da identidade visual". Um rejuvenescimento à la Benjamin Button para um grupo que está na ativa desde 1997.
E olha que essa não é a primeira vez que a companhia passa por uma reinvenção. Em novembro do ano passado, a Dexxos conquistou um feito para poucos: conseguiu renascer das cinzas após um longo processo de recuperação judicial.
Quer saber mais sobre a GPC — quer dizer, Dexxos? Pois bem: a empresa hoje atua principalmente nos segmentos químico e de aço, sendo fornecedora importante para a indústria de óleo e gás. Ela também é sócia da Petrobras na Companhia Petroquímica do Nordeste (Copenor); cada uma tem metade do ativo.
São setores que estão aquecidos, apesar da pandemia — o que injetou vitalidade nas atividades do grupo. No primeiro trimestre de 2021, a receita líquida aumentou quase 50% na base anual, chegando a R$ 345,4 milhões.
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"Não dá pra fazer uma recuperação judicial somente para tratar do passivo, sem cuidar da operação", disse Rafael Alcides, CEO da Dexxos, em entrevista ao Seu Dinheiro — ele atribui boa parte do sucesso atual da companhia ao trabalho que foi feito no passado para sanear a empresa e deixá-la apta a capturar as oportunidades e demandas do mercado.
E é claro que essa combinação entre recuperação judicial bem-sucedida e melhor ambiente de negócios não passou despercebida na bolsa: as ações da Dexxos (DEXP3) acumulam ganhos de 690% no período de um ano — do começo de 2021 para cá, a alta é de cerca de 130%.
Longos anos no limbo
Para entender o que a Dexxos é hoje, é preciso voltar ao passado — mais precisamente, até abril de 2013. Deixe-me refrescar a sua memória: a presidente Dilma Rousseff estava em seu primeiro mandato, o Papa Francisco acabava de assumir o Vaticano e o 7 a 1 contra a Alemanha nem passava pelas nossas cabeças.
Pois abril de 2013 foi o momento em que a Dexxos, então GPC, entrou em recuperação judicial — e permaneceria nela por sete anos. Uma estrutura de capital alavancada, com um nível de endividamento incompatível com a geração de caixa, levou a companhia a uma situação financeira crítica.
"A vertente da recuperação judicial cuida do passivo, mas também tivemos um foco grande na reestruturação das operações", disse Alcides. "Não só cortes de custo, ganho de eficiência, captura de sinergias. Também mantivemos foco no investimento, no core business".
Uma das primeiras decisões, ainda em 2013, foi paralisar as operações no setor de Metanol, que demandavam recursos sem gerar um retorno atrativo. A partir daí, a empresa passou a focar nos segmentos químico, de aço e de óleo e gás, em que permanece até hoje.
“A estrutura estava inadequada, mas tinha bons ativos e negócios. Precisava de uma gestão melhor do portfólio.”
Rafael Alcides, CEO da Dexxos (antiga GPC)
E por que a recuperação judicial demorou tanto tempo para ser concluída?
Em primeiro lugar, a venda do terreno da planta de metanol, no Rio de Janeiro, esbarrou em entraves burocráticos que atrasaram o processo em dois anos — o que travou o plano de recuperação, que atrelava a alienação desse ativo à quitação de dívidas concursais.
Em 2015, quando a venda finalmente foi liberada, o país encontrava-se em recessão econômica — e os potenciais compradores do terreno desapareceram. Foi necessária uma nova versão do plano, aprovada no ano seguinte, desta vez tendo fluxos de pagamento como base.
Mesmo com a crise dos anos 15-16, a Dexxos já se encontrava numa situação financeira bem melhor, passando a gerar caixa. Os próprios resultados anuais mostram essa evolução:

“Implementamos o plano em 2017 e já estaríamos aptos a encerrar em 2018”, diz Alcides. “Mas, entre 2018 e 2020, ficamos aguardando as etapas processuais do Judiciário, é uma fase que não depende da empresa.”
A Dexxos, antiga GPC, encerrou a recuperação judicial em 12 de novembro de 2020 — exatos 2.769 dias no limbo.
Dexxos e o futuro
Mas deixemos o passado e olhemos para frente. Como está a Dexxos hoje em dia e quais são suas perspectivas para o futuro, agora que a GPC ficou para trás?
Para entender melhor o momento da companhia, é mais fácil analisar por divisão: no primeiro trimestre de 2021, o segmento químico teve receita bruta de R$ 272,6 milhões, alta de 51,4% em um ano; o segmento de aço, por sua vez, avançou 47,2%, para R$ 171,5 milhões.
Em maior ou menor escala, o aquecimento da construção civil dá forças a ambos os braços de atuação da Dexxos: as resinas químicas feitas pela empresa são vendidas principalmente à indústria de painéis de madeira; os tubos de aço também são demandados pelo mesmo setor.
"Em junho de 2020 já sentimos uma retomada aquecida, tivemos um excelente segundo semestre de forma geral", disse Alcides, referindo-se à divisão de químicos — o setor de aço demorou mais a pegar tração, mas também encontra-se num bom momento.

E a recuperação vista no setor de aço se deve também ao bom momento da cadeia de óleo e gás, em que a Dexxos é uma fornecedora reconhecida de tubos para campos terrestres — um segmento que possui contratos de prazos estendidos, dada a natureza dos projetos.
Quanto ao futuro, Alcides mostra-se otimista: a Dexxos fez investimentos para ampliar a capacidade de produção de resinas químicas e aposta numa continuidade do ambiente benéfico para a construção civil, com juros ainda estruturalmente baixos, apesar do movimento de alta na Selic.
E, na área de tubulações de aço, o executivo crê que as movimentações da Petrobras serão fundamentais para trazer dinamismo ao setor: ao se focar no pré-sal, a estatal abre espaço para mais empresas atuarem em campos terrestres já maduros — como 3R, Petrorecôncavo e Eneva, entre outras.
“A partir do momento que a Petrobras começa a desinvestir no onshore, surgem novos players e há uma diversificação no mercado brasileiro.”
Ações em alta forte
Dito tudo isso: e as ações da Dexxos, como estão?
Bem, a empresa tem papéis ordinários e preferenciais sendo negociados em bolsa, mas os códigos mudaram junto com o nome: GPCP3 virou DEXP3; GPCP4 virou DEXP4.
E, como falamos no começo do texto, essas ações passam por uma valorização intensa desde o começo do ano. Veja abaixo o comportamento das ONs:

Um perfil animador, considerando o bom momento operacional da companhia, não? Sim, mas há um problema: a baixa liquidez.
A Dexxos tem 29,4 milhões de ações ordinárias e 1,9 milhão de papéis preferenciais — e isso já depois de um desdobramento na proporção de um para cinco, concluído em setembro do ano passado.
Mesmo assim, o volume de negociação continua modesto: nos últimos 10 dias, as ações ON tiveram, em média, 522 mil negociações diárias; em termos financeiros, o giro foi de R$ 24,5 milhões no período.
Apesar dos números ainda tímidos, a Dexxos tem melhorado gradualmente seus indicadores de giro e volume de negociação. Com o desfecho bem sucedido da recuperação judicial e os níveis atuais de liquidez, as ações ON da companhia já são elegíveis para o índice Small Caps da B3 (SMLL).
Dito isso, vale comparar os dados de liquidez de algumas das ações do SMLL com o das ações da Dexxos. Veja como está a média de negociações nos últimos 10 dias das ações de menor peso na composição do índice:

Ou seja: apesar do volume de negociação menor, o giro financeiro de Dexxos ON é maior que o dessas cinco ações — a valorização expressiva dos papéis ao longo do último ano impulsionou a métrica.
Por outro lado, se você quer aproveitar a disparada da Dexxos na bolsa, também precisará lidar com o volume ainda restrito — e as eventuais dificuldades para se desfazer dos papéis, caso julgue necessário —, apesar dos esforços feitos pela companhia para aumentar a liquidez.
É importante lembrar que nem todas as ações da Dexxos estão em circulação na bolsa. Cerca de 39% dos papéis ON — os que dão direito a voto nas assembleias — estão nas mãos de membros da família Peixoto de Castro, que controla a empresa (daí o nome GPC).

Alcides reconhece que a questão da liquidez é um ponto fraco da companhia e que a base acionária tem feito questionamentos a respeito do tema. "Estamos evoluindo no lado da governança, tem sido foco da administração", disse.
E, de fato, a mesma assembleia que deu sinal verde à troca no nome também aprovou outra mudança importante: a empresa irá submeter à B3 um pedido para migração ao Nível 1 de governança corporativa, em que as companhias são obrigadas a manter ao menos 25% das ações em circulação e a divulgar mais informações ao mercado.
Não é muito, mas é um passo — mais um nesse curioso caso da bolsa.
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