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Declaração recente de Campos Neto conteve apostas maiores que a de um ponto; crise hídrica e desaceleração da China podem aparecer em comunicado de decisão
O Banco Central (BC) vai fazer tudo para trazer a inflação de volta para a meta, mas não vai alterar a estratégia ao sabor de cada novo indicador econômico. A fala de Roberto Campos Neto, presidente da autoridade monetária, no início da semana passada provocou uma reviravolta nas projeções do mercado para a taxa básica de juros (Selic).
A expectativa majoritária dos agentes financeiros aponta para uma elevação de 1 ponto percentual na Selic, para 6,25% ao ano, na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta-feira.
Será o quinto aumento seguido dos juros, em um contexto de inflação tocando os dois dígitos em 12 meses, economia fragilizada e, mais recentemente, ameaçada de crise hídrica. O BC começou a aumentar a Selic em março, quando a taxa estava na mínima histórica de 2% ao ano.
Mas o consenso em torno da alta de 1 ponto na Selic se formou apenas nos últimos dias. A alta dos preços — que bateu 9,6% no último ano, conforme o IPCA de agosto — fez uma parte maior do mercado cogitar uma aceleração mais forte da Selic. A mudança nas expectativas ocorreu depois que Campos Neto sinalizou que não alteraria o "plano de voo" a cada novo dado econômico.
Em agosto, quando elevou a taxa básica de juros em 1 ponto percentual, o BC disse em comunicado que faria um movimento na mesma proporção em setembro.
O ajuste da Selic é o principal instrumento de controle da inflação, que também é influenciada pela quebra de cadeias produtivas com a pandemia e outros fatores de pouco alcance do BC.
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Um deles é a a crise política, que atingiu o ápice nas manifestações de 7 de setembro e acabou ajudando a pressionar o dólar — que por sua vez também afeta os preços da economia.
Apesar da disparada da inflação, o mercado ainda acredita no poder do BC em domar o dragão. De acordo com o Boletim Focus mais recente, analistas projetam o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 4,10% em 2022, pouco acima do centro da meta de 3,5%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.
As decisões do BC hoje já miram o próximo ano, considerando o tempo de efeito da política monetária, que costuma levar seis meses. A Selic deve encerrar 2021 em 8,25% ao ano, segundo as projeções reunidas pelo Focus.

Para o Goldman Sachs, tendo em vista declarações recentes dos membros do Copom (Comitê de Política Monetária), não só de Campos Neto, a probabilidade de uma alta de 1,25 ponto é pequena. Eles projetam uma elevação de 1 ponto nesta quarta.
Em relatório do último dia 17, os economistas Alberto Ramos e Daniel Moreno dizem que o BC vai continuar elevando a Selic para um nível acima do neutro.
Entre os motivos que devem balizar a decisão, a dupla cita pressões inflacionárias altas e disseminadas na economia, aumento intenso de custos na cadeia de suprimentos, deterioração das expectativas sobre os preços, falta de progresso das reformas e ajuste fiscal, além do "ruído político".
No comunicado após a reunião do Copom, o BC deve sinalizar altas adicionais. "O Copom deve reconhecer as surpresas negativas de inflação, sinais crescentes de disseminação da alta de preços, deterioração sobre as expectativas de 2021-2022, e piora generalizada para as perspectivas de inflação, incluindo núcleo e serviços", escreveram os economistas.
O Credit Suisse também está entre as instituições que esperam mais doses do remédio amargo da Selic: seriam quatro aumentos de 1 ponto na Selic e uma alta final de 0,50 ponto, levando a taxa para 9,75%.
O sócio e economista da BRA Investimentos, João Beck, diz ainda que pode haver referências no comunicado a uma possível desaceleração do crescimento na China - sinalizada com dados recentes de produção industrial e vendas no varejo, além da crise da dívida da Evergrande, a segunda maior incorporadora imobiliária do país.
"Já está dado que China vai passar por uma fase de desalavancagem, o que pode contribuir para que o preço das commodities caia, impactando a inflação por aqui", diz o economista.
Para Beck, se o Fed, o banco central dos EUA, postergar uma elevação dos juros, o BC ficará menos pressionado a aumentar a taxa. A autoridade monetária também comunica decisão nesta quarta-feira, às 15h (horário de Brasília).
O economista considera que houve algum avanço na discussão sobre precatórios, as dívidas do governo na Justiça cujo parcelamento tramita no Congresso, e diz que a reforma administrativa "está andando", embora ainda não haja solução no Congresso.
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