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“O senhor é tão moço, tão aquém de todo o começar, que lhe rogo, como melhor posso, ter paciência com tudo que há para resolver em seu coração e procurar amar as próprias perguntas como quartos fechados ou livros escritos num idioma estrangeiro. Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo, consiga viver a resposta. Quiçá carregue em si a possibilidade de criar e moldar — como uma maneira de ser particularmente feliz e pura. Eduque-se para isto, mas aceite o que vier com toda a confiança.”
Começo a semana com um trecho do livro “Cartas a um jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke. Talvez ele possa servir-lhe de pequena inspiração para enfrentar a segundona. Se for assim, já terá lhe sido útil. Qualquer pequena contribuição positiva basta a esse pobre redator. Mas pode ser que haja mais coisa aí, com implicações práticas para nossas decisões de investimento.
Em certa medida, as palavras são uma ode à dúvida, à capacidade de conviver com a incerteza e a falta de respostas. A razão é uma grande emoção, é o desejo de controle, nos ensina Nietzsche. Por que perseguimos certeza onde, no fundo, sabemos ser impossível alcançá-la? Havemos de aprender a navegar sem o controle, mediante a incerteza e a aleatoriedade que permeiam a vida. E, no fim, aceitar tudo que vier com toda a confiança. Amor fati.
Se reconhecemos a impossibilidade do controle, só nos resta acolher o destino com a melhor interpretação possível. Mesmo uma notícia ruim pode permitir-nos uma visão mais arejada e construtiva. Como diria o próprio Rilke, “mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações?”. Ou, na minha frase favorita de Shakespeare: “Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito”.
Diante da queda das criptomoedas nos últimos dias, há um certo descontrole em alguns de seus investidores. A dúvida mais eufórica aponta: seria o fim do bitcoin? Comentários do JP Morgan ajudaram a espraiar algum desespero. Segundo estudo recente do banco, se a criptomoeda não voltar a seu recorde, pode entrar em colapso.
Haveria motivos para desespero?
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Não sou especialista em criptomoedas. Embora tenha me dedicado a estudar mais esse nicho nos últimos meses, meu conhecimento a respeito ainda oferece a profundidade de uma folha sulfite.
Se você não sabe o caminho, mas conhece alguém que sabe, nada mais natural do que consultá-lo. Fui perguntar para o meu médico no assunto. André Franco, que é a pessoa de minha maior confiança nessa área, respondeu que vê a recente queda como uma oportunidade de compra, quase um ajuste natural depois de tantas altas do que propriamente uma mudança estrutural na trajetória de alta secular.
A resposta aliviou qualquer potencial preocupação mais pronunciada que eventualmente pudesse emergir. Confesso, porém, estar despreocupado com a questão mesmo antes da rica conversa com o André.
Minha opinião sobre as criptomoedas é muito semelhante àquela recém-emitida por Ray Dalio. Ainda que você não entenda muito bem a natureza dos criptoativos, tudo bem. De novo, temos de aprender a transitar por questões que não entendemos direito. Demova-se de seu desejo de controle. Importam muito mais a assimetria positiva oferecida pelos ativos digitais e os ganhos de diversificação por eles oferecidos, desde que devidamente dimensionados (eu sugiro não ultrapassar 2,5% de seu portfólio nisso), do que qualquer outra característica técnica.
Se o argumento de autoridade de Ray Dalio não for suficiente, talvez possa recorrer a Clarice Lispector, que seria uma grande investidora: “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”.
Você não pode comprar bitcoin ou qualquer outra criptomoeda esperando ausência de volatilidade. Algo que se multiplica ene vezes pode também cair 30%, 40%, 60%. É da natureza da coisa. A mesma característica que lhe faz sonhar com 500% de ganhos oferece um risco de perda importante. Não há como dissociar as coisas, escolher somente as características que lhe agradam, alijando-se dos defeitos. Você compra a caixa de especialidades Nestlé e, para comer o Alpino, vai ter que encarar aquele outro de banana horroroso. É um pacote, entende?
Mais uma vez citando Nietzsche, ativos financeiros são como nós mesmos: uma perseguição do equilíbrio entre forças dionisíacas e apolíneas, uma eterna convivência com forças ambivalentes. E já que estamos falando nele, outra prescrição do autor parece pertinente sobre o assunto: não devemos temer águas turbulentas, mas rasas.
A questão das criptomoedas é muitas vezes tratada com muita superficialidade e maniqueísmo. Para alguns, é o futuro do mundo, e precisamos nos lotar de bitcoins. Para outros, é uma grande bolha prestes a estourar. Será que a virtude não está no meio. Ou, ainda que haja dúvidas legítimas sobre a trajetória das criptomoedas, sobretudo no curto prazo, será que não haveria coisas lucrativas para se fazer nesse mercado? Não poderíamos tergiversar sobre a ininteligível questão de “para onde vai o bitcoin nesta semana” e pensar em estratégias responsáveis nesse ambiente que prescindam de uma resposta para essa pergunta?
Enquanto as redes sociais se digladiam, há gente boa explorando oportunidades simples de ganhar dinheiro. Entre elas, está um simples “cash and carry” com retorno esperado de até 18% em dólares, sob uma volatilidade de 2% ao ano. Você compra a moeda digital à vista e bate o futuro. Além disso, é remunerado por validar a rede ao deter o ativo e pode explorar potenciais arbitragens entre preços aqui e lá fora.
A discussão vai além do bem e do mal.
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