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Um investidor conservador sabe que uma boa ação tem seus defeitos

“Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta.” CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE Se o sábado é uma ilusão, a segunda-feira deve ser a mais dura e fria realidade. Começamos a semana com Nelson Rodrigues. O conservador é um cético na capacidade de grandes revoluções oferecerem um futuro não testado […]

Imagem: Nelson Rodrigues , 1981 , Carlos Moskovics Registro fotográfico Carlos Moskovics

“Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta.”

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Se o sábado é uma ilusão, a segunda-feira deve ser a mais dura e fria realidade. Começamos a semana com Nelson Rodrigues.

O conservador é um cético na capacidade de grandes revoluções oferecerem um futuro não testado que seja superior ao que sobreviveu ao teste do tempo. Se as instituições, sejam elas formais ou informais, estão aí há muitos anos, deve haver algum valor nelas. O reacionário é mais do que isso. Ele quer retomar condições pregressas já superadas.

Eu presto atenção ao que eles dizem, mas eles não dizem nada. Todos preconizam a vitória prospectiva do value investing sobre o growth num mundo de mais inflação e mais juro, depois de anos de estagnação secular e protagonismo dos cases de crescimento. Mas o que seria esse value investing? Alguém já o viu por aí, indo com a família ao Jardim Zoológico dar pipoca aos macacos?

Voltando a Nelson Rodrigues, como “a televisão matou a janela”, o YouTube matou o Investidor Inteligente e o Security Analysis. Embora haja uma defesa retórica abrangente sobre o value investing clássico, ao olhar certas cotações em Bolsa, sinto que falam-se coisas sem a menor vergonha na cara, desapegadas da realidade objetiva.

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O problema é que eu, assim como Nelson, só acredito nas pessoas que ainda se ruborizam. E elas parecem minoria. A era do Instagram é também a falência da moral e da coragem. Infectados pelo vírus de preconceitos modernos, alguns abandonaram a cartilha clássica.

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Em relatório recente, a QQR resumiu em cinco tópicos sua prescrição top-down para o momento, sendo o primeiro deles uma espécie de obrigatoriedade: buy cash flows; ou seja, compre fluxos de caixa no presente.

O que me vem imediatamente à cabeça? Vale é o primeiro nome, oferecendo um fluxo de caixa livre ao acionista superior a 20% neste ano. Negociando a pouco mais de 3 vezes EV/Ebitda e sem dívida, isso é uma aberração de fluxo de caixa para o acionista. Já é uma paixão antiga. Uma namorada arisca que nos entrega bons lucros acumulados. Oferece um susto ou outro, como no final da semana passada, a partir da forte correção do minério de ferro na China em dois dias. Mas, melhor assim: “Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível”.

E como sabemos que “perfeição é coisa de menininha tocadora de piano”, tenho me atraído também por Petrobras. De maneira pragmática, as preocupações recentes (todas elas pertinentes) vão sendo superadas, uma a uma. E, então, muito desconto frente a uma cesta global de petrolíferas e uma monstruosidade de 25% de fluxo de caixa livre para o acionista em 2021.

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Uma boa ação não é aquela que não tem defeitos. Essa já está precificada à perfeição. Então, seu risco é enorme, porque a realidade objetiva vai nos mostrar, cedo ou tarde, a ilusão. O risco onde não há risco é enorme, porque seu preço é caro. Quero olhar justamente para os defeitos baratos, os mais baratos. “O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais o vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota.” 

Sejamos sinceros: o consenso atual consegue enxergar valor e mérito em empresas com muitos fluxos de caixa no presente e receitas em dólar, produtoras de commodities e exportadoras. Mas e os nossos próprios defeitos, os domésticos largados em Bolsa? Somos capazes de enxergar?

Há uma cartilha bem tradicional, talvez até um pouco clichê, do velho e bom Benjamin Graham: procure por empresas abaixo de 7 vezes lucros, abaixo de 1,2 vez na relação Preço/Valor Patrimonial e, se possível, pagadoras de dividendos. Pode parecer ultrapassado, mas, por incrível que pareça, existem coisas assim por aí.

Sanepar pode ser complicada e, literalmente, exigir a dança da chuva, mas atende aos critérios.

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Direcional cometeu o grave pecado de ser uma incorporadora — e isso parece realmente imperdoável, como uma traição imperdoável aos supostos sábios (na verdade, preconceituosos) do value investing. “Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém.” De fato, parece que o sucesso de Direcional a poucos interessa. Isso está a 6 vezes lucros 2022, abaixo do NAV e pagando 13% de yield em sete meses.

Se isso não é value investing, então o que é?

Como uma pequena condolência ao comedimento e à moderação de Bruno Covas, raros em épocas de polarização, encerro da mesma forma que comecei, recorrendo a Nelson Rodrigues: “Como são parecidos os radicais da esquerda e da direita. Dirá alguém que as intenções são dessemelhantes. Não. Mil vezes não. Um canalha é exatamente igual a outro canalha.”

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