Ano Novo, risco antigo: Ibovespa abre 2021 em queda com cautela sobre coronavírus, após lockdown no Reino Unido
Ações de empresas aéreas e shoppings ficam entre principais quedas do dia, em meio à alta das infecções no exterior

O Ibovespa deu a impressão de que ia longe já na sua estreia em 2021.
Isto porque, logo com 10 minutos de sessão nesta segunda-feira (04), o principal índice acionário da B3 registrou a sua máxima histórica intradiária atingindo o patamar de 120.353,81 pontos — no pico, avançou 1,12%.
Anteriormente, o recorde do índice havia sido registrado na sessão de 30 de dezembro, a última de 2020, quando alcançou os 120.149,85 pontos.
A partir daí, no entanto, a coisa minguou.
O ímpeto comprador dos investidores foi freado com a piora do humor em Nova York e o Ibovespa passou a reduzir a sua alta.
Tendo passado a cair com maior intensidade a partir de 13h50, ficou em terreno negativo até perto das 15h. Dentro desse período, marcou a mínima intradiária de 0,8%, aos 118.061,77 pontos. Entre 15h10 e 16h40, ficou no azul, mas, depois disso passou a alternar pequenas altas e baixas.
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No fim do dia, marcou leve queda de 0,14%, aos 118.854,71 pontos.
As ações de grandes bancos operaram em queda firme ao longo de toda a sessão e contribuíram com uma pressão decisiva sobre o índice.
Estes foram os casos de Bradesco, Banco do Brasil e Itaú, no que foi um movimento de "correção natural" de papéis de empresas ligadas à economia doméstica após uma valorização importante, disse Gabriel Mota, operador de renda variável da RJ Investimentos, escritório filiado à XP.
Outra ação do setor financeiro com importante participação na carteira do Ibovespa, B3 ON terminou o dia em queda de 0,8%.
Papéis de empresas aéreas ficaram entre as principais quedas do dia, bem como de outras "perdedoras" da crise com o distanciamento social, como de shoppings.
O desempenho é explicado por um risco antigo: o coronavírus.
Para ser mais preciso, a preocupação refere-se ao endurecimento das regras de isolamento no Reino Unido e nos Estados Unidos, que tiveram novos recordes de casos registrados no sábado — superaram, respectivamente, as 57 mil e 291 mil infecções registradas.
Por volta das 17h do horário de Brasília, o premiê Boris Johnson anunciou que a Inglaterra estava entrando em lockdown nacional.
Mais cedo, a BBC já havia informado que o nível de alerta contra o coronavírus iria ser atualizado de 4 para 5 no Reino Unido.
A elevação do alerta indica que o sistema de saúde do país está sobrecarregado e que são necessárias medidas de distanciamento mais rígidas, a fim de reduzir a circulação do vírus.
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"Ponto de atenção que vale ressaltar é que o novo ciclo de contaminações pode até mesmo atrasar a logística de vacinações", diz Stéfany Oliveira, analista de investimentos da Toro, citando também que o mercado acionário se manteve mais cauteloso aqui e lá fora ao longo do dia com a projeção de que uma maior disseminação do vírus retarde a retomada econômica.
A expectativa é que mais governos na Europa possam decretar ou mesmo estender lockdowns.
O ministro da Saúde da Alemanha, Jens Spahn, disse em televisão alemã no fim de semana que é provável que as autoridades do país aceitem prolongar as restrições para reduzir as infecções. Os líderes regionais do país devem se reunir na terça-feira.
A França, por sua vez, registrou mais de 12 mil novas infecções no domingo, muito acima da meta do governo de manter o número de novos casos abaixo de 5 mil.
Destaques da bolsa
As ações de empresas ligadas a commodities se apreciaram neste começo de ano, com destaque especial para as siderúrgicas.
Os papéis de CSN, Gerdau e Usiminas sobem no mínimo 2,3% — a companhia carioca é a que mais se valorizou, com a ação disparando 7,3%.
A alta do minério de ferro no exterior sustentou o forte movimento. A cotação de referência, do porto de Qingdao, na China, mostrou avanço de 3% hoje. Outra ação que reagiu positivamente a essa notícia foi a da Vale, que avançou 4,3%.
Os papéis da gigante Petrobras também subiram fortemente, destoando da queda nos preços do barril de petróleo Brent no mercado internacional. A commodity reagia ao impasse da Opep+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados).
O cartel tem de decidir se manterá os cortes de produção em 7,2 milhões de barris por dia no mês que vem ou se os reduzirá em mais 500 mil bpd, como fez em dezembro.
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"Ainda assim, a perspectiva para as empresas do setor no ano é boa, tem um cenário favorável com retomada da atividade econômica", diz Henrique Esteter, analista de investimentos da Guide. "O mercado se posiciona assim porque avalia que Petrobras vai ser um nome para surfar 2021."
Ações da PetroRio, por sua vez, dispararam e lideram os ganhos do Ibovespa.
| CÓDIGO | EMPRESA | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| CSNA3 | CSN ON | 34,17 | 7,28% |
| PRIO3 | PetroRio ON | 74,80 | 6,57% |
| GGBR4 | Gerdau PN | 26,04 | 6,50% |
| VALE3 | Vale ON | 91,46 | 4,59% |
| GOAU4 | Metalúrgica Gerdau PN | 11,80 | 4,80% |
Na ponta perdedora, além dos bancos, os papéis de empresas aéreas ficaram entre as principais baixas, refletindo a cautela com os casos de covid-19 no exterior. Gol PN e Azul PN caíram no mínimo 4%.
Outra empresa afetada pela crise da pandemia foi severamente punida hoje pelos investidores: a ação da Embraer liderou a queda do Ibovespa, caindo mais de 5%.
Os shoppings foram outros que operam para baixo no começo deste ano, refletindo a preocupação com o avanço do coronavírus. Iguatemi ON e Multiplan ON recuaram no mínimo 4%.
| CÓDIGO | EMPRESA | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| EMBR3 | Embraer ON | 8,37 | -5,42% |
| JHSF3 | JHSF ON | 7,44 | -4,74% |
| IGTA3 | Iguatemi ON | 35,46 | -4,55% |
| SBSP3 | Sabesp ON | 42,56 | -4,23% |
| MULT3 | Multiplan ON | 22,55 | -4,16% |
Bolsas americanas têm forte queda; europeias sobem
Os índices acionários à vista nos Estados Unidos fecharam o dia em quedas firmes, superiores a 1,25%, à medida que os investidores se retraíram de seus ímpetos compradores depois de as bolsas subirem a níveis recordes no fim de 2020.
Além disso, a perspectiva de que os democratas possam assumir duas cadeiras no Senado com as eleições na Geórgia também pesou no sentimento dos investidores.
Isto porque uma vitória "azul" faria o Senado rachar exatamente na metade entre democratas e republicanos, situação que, no caso de eventual empate em votações, daria o voto de minerva para a vice-presidente eleita, Kamala Harris.
Ao mesmo tempo em que uma proeminência democrata na agenda econômica provavelmente faria passar acordos por mais estímulos, também poderia resultar em planos de taxação e maior controle sobre as "big techs".
No velho continente, as bolsas tiveram um dia no azul, ainda que tenham fechado em altas mais comedidas diante do que se viu pela manhã.
Como "driver" do movimento, o PMI industrial da zona do euro subiu ao maior nível desde maio de 2018 e o da Alemanha, desde fevereiro de 2018, o que estimulou a tomada de risco por parte dos investidores com base numa retomada na economia do bloco.
Refletindo o início da aplicação em pessoas do grupo de risco da vacina da farmacêutica AstraZeneca, desenvolvida em parceria com a Universidade de Oxford, o FTSE 100, principal índice da bolsa de Londres, foi o que se destaca e disparou quase 2% — o índice fechou antes do decreto de lockdown feito por Johnson. O Reino Unido é o primeiro país a utilizar esse imunizante.
No front da vacinação por aqui, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou, no sábado, pedido da Fiocruz para importar 2 milhões de doses da mesma vacina. A Fiocruz deve agora realizar a solicitação de seu registro até quarta.
Hoje, a Anvisa solicitou à fundação comprovações de que a vacina usada na Índia é a mesma sendo aplicada no Reino Unido.
Dólar fecha em alta e juros caem
O dólar virou com a moderação em seu preço atraindo compradores antes do início da tarde, mas também seguindo um movimento de alinhamento global a divisas emergentes, contra as quais o dólar se fortaleceu.
A falta de fluxo nas sessões iniciais do ano também fez com que a moeda ficasse mais volátil a pequenas entradas de recursos no mercado de câmbio.
"O dólar tem ficado restrito em um range de R$ 5,05 a R$ 5,30, hoje tem uma questão de performance correlacionada entre as moedas emergentes", diz José Faria Júnior, diretor da Wagner Investimentos. "Pode ter um pouco de overhedge ainda para ser feito, pode ser um fluxo pontual, mas o dólar no geral vai ganhando frente aos emergentes."
Apesar disso, Faria Júnior ressalta que o viés do dólar no médio prazo é de queda, com a fraqueza global da moeda no radar.
No fim do dia, a moeda subia 1,53%, para R$ 5,2681, repercutindo também a piora na tomada do risco representada pela queda das bolsas em Nova York, em meio a índices preocupantes de contaminação pelo Sars-Cov-2 nos EUA e na Europa.
A perspectiva de mais estímulos fiscais com a predominância democrata no Congresso dos EUA fez mais cedo com que a moeda perdesse força.
Lá fora, com o euro mais forte em meio à alta da indústria da zona, a tendência é de recuo do dólar, como indica o Dollar Index.
Os juros futuros recuaram, mas mostraram apenas um leve viés de queda. Pela manhã, o PMI (índice de gerente de compras) industrial do Brasil apontou desaceleração em dezembro em relação a novembro.
"A indústria segue aquecida no curto prazo, mas vai perder força sem o auxílio emergencial", diz Silvio Campos Neto, economista e sócio da Tendências Consultoria. "A atividade econômica tem um hiato do produto aberto e ociosidade, e, por esse lado, não há razão para uma alta de juros. O que afeta mais esse dia a dia de mercado no curto prazo é questão fiscal."
As taxas para janeiro/2026, por exemplo, registraram uma leve descompressão de 3 pontos-base (0,03 ponto percentual).
Veja as taxas de fechamento de alguns vencimentos:
- Janeiro/2022: de 2,87% para 2,84%
- Janeiro/2023: de 4,20% para 4,18%
- Janeiro/2024: de 5,10% para 5,07%
- Janeiro/2026: de 6,08% para 6,05%
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