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Governo muda estratégia de privatização da Eletrobras — mas pode barrar na Constituição

Técnicos argumenta que um senador apresentar o PL enviado pelo Executivo, como quer o governo, é inconstitucional

O ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes, concede entrevista coletiva.
O ex-ministro da Economia, Paulo Guedes - Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O governo quer que um senador apresente um "projeto clone" da proposta da privatização da Eletrobras enviada pelo Executivo ao Congresso no ano passado. A estratégia visa acelerar o andamento do processo, mas pode encontrar barreiras jurídicas.

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A ideia seria inverter a ordem de tramitação do texto, começando pelo Senado para depois seguir para a Câmara - porque o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), deixou claro que prefere deixar as discussões sobre o tema para 2021.

Na bolsa, as ações da Eletrobras são sensíveis ao tema da privatização. Conforme especulações em Brasília, os papéis sobem e descem. Nesta quinta-feira (27), ELET3 fechou em queda de 0,93%, a R$ 36,06.

Divergências

A estratégia do governo não é consenso. Técnicos argumentam que um senador apresentar o PL enviado pelo Executivo é inconstitucional - algo que pode até mesmo parar na Justiça, atrasando ainda mais o cronograma.

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A apresentação do "projeto clone" caberia a um senador que ainda seria escolhido, mas a relatoria seria do senador Eduardo Braga (MDB-AM), que participou de reuniões com o Ministério da Economia e de Minas e Energia.

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Para ele, antes de qualquer coisa, é preciso que a equipe econômica chegue a um acordo com a Câmara em relação à privatização da Eletrobras. "Não sou contra privatizar, sou contra dar barato e jogar fora a estratégia que isso representa para o País."

O que diz a lei

Pela Constituição, um projeto de lei de autoria do Executivo precisa, necessariamente, iniciar sua tramitação pela Câmara dos Deputados. Como o PL enviado pelo Executivo está parado na Câmara, surgiu a ideia de clonar o projeto para que um senador o apresente. Contudo, essa estratégia pode enfrentar polêmicas jurídicas.

A Constituição reserva ao Executivo a iniciativa de propor projetos de lei de algumas matérias. Por isso, a rigor, elas não poderiam ser objeto de um projeto de lei de iniciativa de um senador, pois daria origem ao chamado vício de iniciativa.

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Para fugir desse problema, uma saída, que já foi usada em outras oportunidades, é a apresentação de um projeto de lei autorizativo, em que o Poder Legislativo autorizaria o Poder Executivo a privatizar a Eletrobras.

Indicativo do STF

O Supremo Tribunal Federal (STF) já se manifestou pela inconstitucionalidade das chamadas "leis autorizativas" por diversas vezes. A Corte entende que essas propostas violam o princípio de independência e harmonia entre os Poderes.

Estudo da Consultoria Legislativa no Senado segue o mesmo entendimento. Além disso, o plenário do Senado vedou, em 2015, a apresentação de projetos de lei de iniciativa parlamentar que autorizem o Executivo ou o Judiciário a adotar ato em matéria que seja de competência reservada do próprio Poder em questão.

Ainda que essa regra seja ignorada em alguns momentos pelo Congresso, sempre é lembrada na tramitação de projetos polêmicos. Insistir nessa estratégia pode gerar uma fragilidade jurídica e ser explorada por partidos de oposição e sindicatos de trabalhadores.

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Se Braga aceitar relatar um projeto de lei dessa natureza, para fugir das fragilidades jurídicas da clonagem, o texto não poderia conter todos os itens da proposta enviada pelo governo.

Por exemplo, o projeto não poderia tratar da criação de uma nova estatal para abrigar Itaipu e Eletronuclear, que não podem ser privatizadas - a primeira devido ao tratado da usina binacional, a outra em razão do monopólio da União na exploração de atividades nucleares.

Essa parte, necessariamente, teria de constar de uma proposta legislativa apresentada pelo Executivo.

Privatização envolveria nova estatal

O governo pretende criar uma nova estatal como parte de seus planos para privatizar a Eletrobras.

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O Ministério de Minas e Energia solicitou a inclusão de R$ 4 bilhões no Orçamento de 2021 para prever recursos "caso se faça necessária" a nova empresa pública, que ficará com ativos como a usina de Itaipu e o complexo nuclear de Angra dos Reis, além de programas de governo no setor elétrico.

Polêmica, a privatização da Eletrobras é um desejo do governo federal desde 2016. A proposta foi enviada pelo governo Temer em 2018 para a Câmara, mas não avançou. No ano passado, o governo Bolsonaro encaminhou uma proposta muito semelhante ao Congresso.

Maia, no entanto, disse que só criaria a comissão especial para análise do projeto após o governo aparar arestas com o Senado - já que as bancadas do Norte e Nordeste eram contra a privatização.

*Com informações de jornal O Estado de S. Paulo e Estadão Conteúdo

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