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Estadão Conteúdo
Rompimento da barragem

Um ano após Brumadinho, alta cúpula da Vale tenta se defender de acusações

19 de janeiro de 2020
17:34
Sobrevoo da área atingida pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho
O rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG), que deixou 259 mortos, completará um ano no próximo sábado (25) - Imagem: Isac Nóbrega/PR/Fotos Públicas

Foi dentro de um jato particular da Vale, durante a viagem de volta ao Brasil, depois de participar do Fórum Econômico de Davos, na Suíça, que Fabio Schvartsman, então presidente da mineradora, recebeu a notícia do rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG). Um ano após a tragédia de 25 de janeiro, um dos maiores acidentes ambientais do mundo, que deixou 259 pessoas mortas - 11 ainda estão desaparecidas -, o executivo está imerso na preparação de sua defesa.

O voo de Davos tinha São Paulo como destino final. Ele passaria o fim de semana com a família. Ainda no ar, recebeu um telefonema do diretor de sustentabilidade e relações institucionais da Vale, Luiz Eduardo Osório. Na mesma hora, decidiu pousar no Rio. A ligação mudou a rota de sua carreira.

Aos 65 anos, o ex-principal executivo da Vale tinha dito que coroaria sua trajetória profissional à frente da mineradora. Agora, tenta se livrar de potenciais processos de negligência que possam recair sobre ele. A expectativa é de que o Ministério Público de Minas Gerais apresente nos próximos dias as denúncias criminais contra a Vale e seus principais gestores.

Considerado um dos maiores executivos do País, após passagens pela empresa de papel Klabin e pelo grupo Ultra, Schvartsman assumiu o comando da Vale em maio de 2017, sob o lema "Mariana nunca mais". Em função da tragédia de Brumadinho, está afastado do grupo desde março de 2019 a pedido do Ministério Público Federal e de Minas Gerais.

O executivo não aceitou ser amparado pela área jurídica da mineradora. Contratou uma equipe estrelada de advogados criminalistas, entre eles a banca de Pierpaolo Bottini, que defendeu o empresário Joesley Batista, um dos donos da Friboi.

A defesa de Schvartsman também chamou o escritório Barbosa, Mussnich e Aragão (BMA) para fazer uma investigação interna a pedido do próprio executivo para vasculhar milhares de e-mails, trocas de mensagens de celular e atas de reunião que o executivo participou para mostrar que ele não teve responsabilidade direta no acidente.

Com perfil discreto, mas posicionamento firme em grandes negociações, Schvartsman está recolhido nos últimos meses, mas não saiu totalmente de cena. Costuma ser visto nos principais restaurantes da região da Faria Lima, principal corredor do mercado financeiro do País. Neste mês, viajou com sua família para os Estados Unidos.

Procurados, o executivo e a defesa não quiseram conceder entrevista. A Vale informou que coloca à disposição assessoria jurídica a seus empregados por se tratar de uma investigação sobre fatos ocorridos durante o exercício de suas atividades profissionais.

'Seguro reputação'

Para se defenderem de potenciais acusações de negligência pela tragédia ambiental de Brumadinho, executivos da Vale acionaram o seguro de responsabilidade civil de diretores e Administradores (D&O), conhecido no mercado como "seguro de reputação". Comum nos EUA, essa cobertura é concedida ao alto escalão de grandes empresas que têm riscos ambientais ou que podem enfrentar processos de corrupção.

No caso da Vale, esse seguro garante não só a defesa jurídica, mas a proteção do patrimônio pessoal dos principais executivos, de atos e decisões tomadas por eles em suas funções em cerca de US$ 150 milhões. Antes do desastre de Mariana, essa cobertura, feita pela seguradora Zurich, era de US$ 200 milhões.

Após a tragédia de Brumadinho, quatro executivos da Vale foram afastados. Além de Fabio Schvartsman, saíram Peter Poppinga, diretor da área de ferrosos e carvão do grupo, Lúcio Flávio Gallon Cavalli, de planejamento, e Silmar Magalhães Silva, de operações do corredor sudeste. Todos continuam recebendo salários da Vale.

Responsável pelas operações da mineradora, Peter Poppinga corre o risco de ser responsabilizado criminalmente pelo acidente, dizem fontes.

Apesar do afastamento de Poppinga ter sido anunciado como temporário, seu contrato com a Vale terminou no ano passado. Fora do mercado, ele vive em compasso de espera de uma eventual denúncia. Representado pelo escritório David Rechulski, Poppinga tem adotado postura colaborativa com as autoridades. Também entregou seus passaportes - brasileiro e alemão, já que tem dupla nacionalidade - depois que o Ministério Público Federal tentou pedir sua prisão alegando a possibilidade de fuga do País.

O executivo já enfrentava ação penal relativa ao rompimento da barragem da Samarco, joint venture entre Vale e BHP, em Mariana, em novembro de 2015, por ser conselheiro de administração do grupo. Em setembro passado, contudo, o juiz do caso Samarco rejeitou a denúncia do MPF contra os membros do conselho.

Uma análise técnica sobre barragens preparada pelo especialista em mineração, Juarez Saliba, que é executivo da Vale, e um relatório de governança e risco e compliance da auditoria Delloite, que foram pedidos por Fabio Schvartsman antes do acidente de Brumadinho, serão usados pelas defesas dos executivos.

Procurados, Zurich, Delloite e Rechulski não comentam.

Queda na arrecadação

A paralisação de operações de minas da Vale após Brumadinho gerou perda de R$ 22,3 bilhões em receitas para a economia de Minas Gerais no ano passado. A estimativa Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) leva em conta perdas na indústria extrativa e em outros setores da economia. A retração do setor e a crise fiscal no Estado levaram a entidade a projetar uma queda de 1,24% do PIB mineiro em 2019, contra estimativa de crescimento de 3,3% antes do desastre. Os impactos negativos devem continuar em 2020.

Ações voltam a patamar de antes de Brumadinho

O rompimento da barragem de Brumadinho arranhou a reputação da Vale, impôs um freio às suas metas de produção, mas, diante das proporções da tragédia, o estrago foi limitado do ponto de vista operacional.

Após perder R$ 74 bilhões em valor de mercado no pregão seguinte ao desastre, quando era avaliada em R$ 290 bilhões, as ações da Vale já estão no mesmo patamar de antes do acidente. Na sexta-feira, 17, os papéis fecharam a R$ 57, alta de 1,5% sobre dia 24 de janeiro de 2019, um dia antes do rompimento da barragem.

Com a redução da produção de minério da Vale, por causa do desastre, a oferta global da commodity diminuiu. Com isso, o preço do minério teve sustentação no patamar de US$ 100 a tonelada, atingindo um pico, no ano passado, de US$ 120, ante uma faixa de US$ 70 por tonelada antes do desastre.

Nos primeiros nove meses de 2019, a receita operacional da Vale totalizou US$ 27,6 bilhões, alta de 3,2% sobre mesmo período do ano anterior. A companhia registrou, contudo, prejuízo de US$ 121 milhões, ante um ganho de US$ 3 bilhões em relação aos nove primeiros meses de 2018. A Vale reportou provisões e despesas de US$ 6,3 bilhões relacionadas à ruptura da barragem de Brumadinho. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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