Como navegar e obter retorno no mundo de juros baixos e bolsa cara
Todo mundo quer múltiplo barato, mas ninguém quer esperar anos para que o crescimento, hoje já no preço, seja entregue ou sentir na pele uma grande correção nos preços como a vista em março. Qual a saída?

Jordan Peterson costuma dizer que não podemos proteger nossos filhos da realidade; ao invés disso, os pais precisam fazer com que as crianças entendam que há “dragões” no mundo. Em sendo cuidadosa, a cria poderá aprender a lidar com tais feras, tendo os pais como ponto de referência no enfrentamento.
Recordei-me desse pensamento depois de passar um tempo com meu velho no último domingo. Todos nós nos apegamos a uma figura paterna, independentemente de quem seja responsável pela materialização. Ela é parte importante do enfrentamento que a criança terá de passar na vida adulta.
Além da reflexão, nesse mesmo Dia dos Pais, depois do tradicional almoço em família, ainda fui agraciado com uma recomendação de leitura de minha mãe.
Minha mãe foi por muito tempo professora de literatura do sistema público de ensino, por isso, indicação de livro sempre foi matéria obrigatória em casa. Talvez as analogias literárias dela tenham sido sua forma de expressar justamente o ponto de referência materno para o enfrentamento, também proposto pelos pais.
O nome da vez era Ariano Suassuna. Enquanto ela me recomendava “Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores”, duas outras obras notáveis do autor paraibano vieram à minha cabeça.
Leia Também
É curioso como obras de autores geniais como Suassuna mimetizam a realidade com uma proeza estética notável. A realidade é muito mais complexa do que conseguimos pressupor a priori e, por mais que busquemos obstinadamente interpretações e racionalizações, viveremos sempre sob a angústia da incerteza. Não à toa, o Felipe costuma trazer Kierkegaard e Nietzsche para o Day One. Ambos existencialistas e preocupados com a questão da ruptura do pensamento platônico com a realidade concreta.
No caso do “Romance d’A Pedra do Reino”, o resgate vai na linha daquele já sabido sebastianismo, referente ao sentimento do povo português que, durante o século 16, profetizava o retorno do rei D. Sebastião, desaparecido na África após a Batalha de Alcácer-Quibir.
Evidentemente, o rei nunca voltou devido a um único motivo: ele morreu.

Breve parêntese. Os traços desse anseio sebastianista são verificados, inclusive, na cultura brasileira em suas tratativas políticas. A esperança de que um candidato X ou Y possa trazer finalmente a correção de todos os males que afligem a nação pode ser entendida como um resquício desse processo social português; afinal, fomos colônia de Portugal.
Voltando ao assunto. Da mesma forma, em nosso meio, quando lemos diferentes pareceres sobre empresas ou setores, relatórios de gente muito séria e diferentes opiniões de gestores e analistas brasileiros e gringos, podemos identificar uma parcela de sentimento que se assemelha ao sebastianismo: um sebastianismo financista.
Explico.
Existe uma grande preocupação no mercado hoje. Se, por um lado, os juros estão estruturalmente baixos (de modo conjuntural também, devido ao expansionismo monetário sem precedentes), por outro, a Bolsa, que seria alternativa tradicional e notória quando os juros caem, também está muito cara.
Juros baixos e Bolsa sem atratividade. Gradualmente, ficamos sem opções. Abaixo, a imagem, que chegou a mim por contribuição de Christof Leisinger, ilustra a queda dos juros (em vermelho e invertido no eixo da direita) e a alta dos múltiplos acionário (em azul e no eixo da esquerda):

Ou seja, yield cai e Bolsa fica cara. Por sinal, como o Felipe costuma argumentar, existem motivos estruturais para os juros estarem baixos (demografia e tecnologia), assim como também existem motivos para cada vez mais os ativos renderem menos.
Isso porque, em um processo de tradicional arbitragem, um ativo de risco tem que pagar o retorno do ativo livre de risco mais um prêmio pelo risco específico (generalizando, isso vale para tudo); ou seja, se os juros caem e o ativo livre de risco rende zero (ou menos), todos os outros ativos rendem menos, por definição.
Isso é um problema, uma vez que múltiplos esticados apontam para uma relação risco-retorno pouco assimétrica. Historicamente, segundo levantamento do Credit Suisse, múltiplos mais altos geralmente precedem retornos futuros mais baixos. No caso, múltiplo de preço sobre lucro (P/L, linha azul acima) superior a 21 vezes é consistente com retornos perto de zero na próxima década (ex-dividendos).
Diante da dinâmica, levanta-se até a hipótese de alocações muito tradicionais no exterior, como a 60/40, estarem ultrapassadas e precisarem ser revistas. É um duro choque de realidade de que muita gente no mercado parece não ter se dado conta ainda.
Desculpe, acredito que a última frase possa me fazer ser mal interpretado.
Não é que as pessoas não percebem. Elas percebem e percebem muito. Mas, se todo mundo percebe, considerando um mercado supostamente eficiente, o fator já não deveria ser ponderado no preço? Ou então os fenômenos TINA (não há outra alternativa) e FOMO (medo de ficar de fora) seriam responsáveis por mais uma grande distorção?
Acredito que estamos, na verdade, diante de uma mudança de paradigmas, com a qual naturalmente será difícil de se adaptar. Os agentes costumam olhar a situação com as mesmas lentes que olharam o século passado, em uma espécie de saudosismo do que realmente deu certo.
Assim, a situação atual aparenta ser um monstro de sete cabeças, quando se trata, na realidade, de uma fase de transição para outro estágio de amadurecimento dos mercados, com a qual ainda não estamos acostumados.
Verificamos assim uma tentativa dos agentes de querer a qualquer custo voltar ao que deu certo no início do século passado, buscando grandes barganhas, quando em um mundo entendido como informacionalmente eficiente isso é muito difícil.
É uma espécie de sebastianismo: financistas no aguardo de uma situação de mercado que simplesmente pode não existir mais, procurando e esperando preços razoáveis novamente.
Todo mundo quer múltiplo barato, mas ninguém quer esperar anos para que o crescimento, hoje já no preço, seja entregue ou sentir na pele uma grande correção nos preços como a vista em março. Qual a saída?
Seria natural pensar que, diante de um novo contexto, uma nova proposta seja necessária. Temos costurado aqui na Empiricus diversas ponderações sobre alternativas de estratégias que procuram levar a nova realidade em consideração, com o resgate do Felipe de uma mescla entre smart beta e barbell strategy.
Paralelamente, duas classes costumam ser interessantes: i) os alternativos (líquidos e ilíquidos), que têm crescido na alocação dos grandes gestores de fortuna e dos gigantes escritórios patrimoniais de família e ii) classes menos privilegiadas no processo atual, pelo menos por enquanto.
Enquanto a primeira opção ainda é pouco acessível para o investidor de varejo brasileiro, a segunda já é uma realidade. Por sinal, vale destacar que o processo de encarecimento das empresas de tecnologia é compreensível. Se existe hoje muita emissão de moeda e, portanto, muita liquidez, os agentes têm que alocar os recursos de algum jeito.
Se a renda fixa não paga bem e as ações estão com fundamentos ruins (devido à economia em frangalhos no pós-pandemia), então o dinheiro parte para crescimento (“growth”), que é naturalmente entendido como tecnologia — você joga qualquer coisa no modelo e faz um fluxo de caixa descontado tendendo ao infinito. Pronto, criou-se a Bolsa distorcida atual.
Começa então a nascer um entendimento revigorado de que os emergentes podem voltar a ficar mais atrativos. Se olharmos por década (gráfico abaixo), esses mercados (em laranja) costumam se alternar com os desenvolvidos (em azul) em termos de performance de Bolsa.

Nesse caso, é possível que passemos a notar um fluxo gradual dos gringos para emergentes novamente, que possuem mais risco e, assim, mais prêmio pela alocação. Igual às classes de ativos menos privilegiadas, que podem ganhar alguns investidores globais.
Como muito bem pontuou Jean Van de Walle (autor da imagem acima e da tabela abaixo), para garantir retornos esperados mais atraentes, o investidor precisa se aventurar em mercados mais arriscados e relativamente baratos — o mundo assistiu à desvalorização cambial nos países emergentes (o Brasil que o diga).
Brasil, Colômbia, Turquia, Chile, Filipinas, México e África do Sul são negociados com descontos muito acentuados em relação às avaliações históricas e fornecerão retornos elevados se ocorrer uma reversão à média. Atualmente, os mercados estão precificando perspectivas econômicas difíceis para esses países.

Para essas economias, o debate tem um caráter fiscalista diferente. É importante apresentar credibilidade orçamentária para o investidor estrangeiro. A discussão que passamos hoje de revisão da carga tributária será importantíssima nesse sentido (preocupação adicional com o Brasil no sentido de pagar a conta do coronavírus).
Todos os países (emergentes e desenvolvidos) vão entrar nesse debate para acomodar a nova realidade de expansão fiscal e monetária — o emergente que fizer melhor isso tende a ficar na frente.
Vamos afugentar o sebastianismo financista e alocar de maneira fria nosso capital, correndo riscos com responsabilidade. Não é porque não enxergamos solução, em um primeiro momento, que a solução não existe. A discussão tem que ser menos sobre o suposto medo das coisas estarem caras e mais sobre onde alocar em um mundo diferente.
Se preferirem esperar o retorno dos preços à racionalidade, fiquem à vontade, respeito a posição. Já eu prefiro me movimentar com diligência e ponderação, correndo o risco certo e sempre com proteções locais e internacionais (moedas fortes e uma alocação em ouro e prata).
Se estiver em busca de uma carteira completa, feita para buscar retornos com ações ao mesmo tempo em que traz proteções para evitar prejuízos exagerados caso um cisne negro apareça no lago dos mercados, aqui está uma sugestão.
FECHAMENTO DOS MERCADOS
No último pregão antes das eleições, Ibovespa dispara, chega nos 192 mil pontos e sobe 2,63%
2 de outubro de 2026 - 17:36POR QUE É TÃO IMPORTANTE?
Mais petróleo na Margem Equatorial: Petrobras (PETR4) anuncia nova descoberta e confirma boa qualidade do óleo encontrado em agosto
2 de outubro de 2026 - 10:50Conteúdo BTG Pactual
Fundo multimercado que já rendeu CDI + 4,36% desde sua criação segue na ‘contramão’ das tendências; conheça
1 de outubro de 2026 - 14:00PODCAST TOUROS E URSOS
Eleições podem levar o Ibovespa acima de 200 mil pontos? A visão de Rodrigo Glatt, sócio da gestora GTI
1 de outubro de 2026 - 11:32BALANÇO DO MÊS
Tesouro Direto dispara em setembro com retorno de mais de 5% — mas outro investimento toma a dianteira e fica no topo do ranking
30 de setembro de 2026 - 19:16FECHAMENTO DOS MERCADOS
O vento a favor que fez o Ibovespa decolar 4 mil pontos, inverter o sinal e fechar setembro no azul
30 de setembro de 2026 - 17:49MESMO QUE 'DÊ RUIM'
Faça chuva ou faça sol nas urnas: JP Morgan seleciona ações que podem ganhar com o melhor ou o pior resultado eleitoral
30 de setembro de 2026 - 13:05TAG SUMMIT
Não tem tempo ruim para a infraestrutura: as empresas preferidas da Perfin para atravessar crises e juros altos
29 de setembro de 2026 - 17:53PRÊMIO DE RISCO
Dólar a R$ 4,80? As pistas que as últimas eleições na América Latina dão para o desempenho do real
28 de setembro de 2026 - 18:45VISÃO DO GESTOR
“Não se ganha dinheiro comprando o que é popular”: onde a Inter Asset está vendo pechinchas na bolsa brasileira
27 de setembro de 2026 - 12:01INTER INVEST SUMMIT
Ações “órfãs” na bolsa, juros altos e uma armadilha no crédito: onde investir em 2027, segundo especialistas
26 de setembro de 2026 - 18:08RALI NA B3
Ibovespa a 207 mil pontos? Especialista do Inter diz o que pode destravar a bolsa brasileira após as eleições
25 de setembro de 2026 - 16:40ALÉM DA BOLSA
Os fundos imobiliários cetipados vieram para ficar? Entenda por que eles estão em alta e o que você precisa saber antes de investir
25 de setembro de 2026 - 15:54SETOR DE AUTOPEÇAS
JP Morgan pisa no freio e rebaixa Frasle (FRAS3) para venda. Analistas preferem outras 3 ações que podem saltar até 69%
25 de setembro de 2026 - 13:18MAIS AQUISIÇÕES
TRXF11 enche o carrinho de novo e paga R$ 2,83 bilhões, mas FII cai na bolsa; veja o que entra no portfólio
24 de setembro de 2026 - 13:02O OUTRO LADO DA MOEDA
R$ 4,50 ou R$ 5,80? O gatilho que vai definir o preço do dólar depois das eleições
23 de setembro de 2026 - 18:33RADAR DE FIIS
Fundo imobiliário leva calote de inquilino em recuperação judicial; entenda o impacto no bolso dos cotistas
23 de setembro de 2026 - 13:01SD ENTREVISTA
Tubarões saem e varejo entra: sinal de alerta para os FIIs? LAREAL revela o que os institucionais estão vendo
23 de setembro de 2026 - 6:01AS MAIS SAUDÁVEIS
Dasa (DASA3) é compra para o UBS BB, mas banco revela outras 2 favoritas — uma delas para dividendos
22 de setembro de 2026 - 19:50EM DESACELERAÇÃO