Otimismo, crise e recuperação: os três atos de um semestre dramático para o Ibovespa
O Ibovespa fechou o mês de junho com ganhos acumulados de 8,76% e, com isso, saltou mais de 30% no segundo trimestre de 2020. Mas todo esse bom desempenho ainda não é capaz de apagar o colapso visto em março: no ano, o índice ainda amarga perdas de 17,8%

Ainda nos primeiros dias do ano, uma dúvida surgiu na redação do Seu Dinheiro: afinal, qual era a grafia correta de Qasem Soleimani? Era preciso padronizar a nomenclatura do general iraniano, já que tudo levava a crer que seu nome seria citado em muitas e muitas matérias em 2020 — e que o Ibovespa e o dólar à vista seriam duramente afetados por ele.
Você pode não se lembrar, mas Qasem Soleimani dominou as manchetes no início de janeiro: sua morte, resultado de um ataque militar americano, quase deu início a uma nova guerra mundial. E, definitivamente, não há nada mais urgente que um conflito bélico entre EUA e Irã, certo? Bem...
Pois é: o que parecia uma inevitável batalha entre potências militares virou apenas uma nota de rodapé em 2020 — os atritos logo cessaram e o mundo voltou a girar como sempre. Dito isso, o rali das bolsas globais, que esteve sob ameaça no começo do ano, continuou em curso.
- Eu gravei um vídeo para falar um pouco mais sobre os acontecimentos que movimentaram a bolsa brasileira e o mercado de câmbio no primeiro semestre. Veja abaixo:
Veja o Ibovespa: ainda em janeiro, chegou a flertar com o inédito nível dos 120 mil pontos. E, com a reforma da Previdência aprovada e a economia doméstica prometendo um crescimento firme, nada parecia capaz de parar o índice brasileiro.
Exceto, é claro, caso uma pandemia cujas proporções não eram vistas em cerca de 100 anos colocasse o mundo todo em quarentena — sai Qasem Soleimani, entra o coronavírus; sai o otimismo nos mercados, entra uma colapso sem precedentes nas bolsas globais.
O sonho do avanço inabalável do mercado de ações do Brasil logo deu lugar à crise da Covid-19. Dos 120 mil pontos vistos em janeiro, o índice rapidamente mergulhou rumo aos 60 mil pontos em março — e, no meio do caminho, tivemos nada menos que seis circuit breakers na bolsa brasileira.
Leia Também

O coronavírus, infelizmente, ainda está longe de ser uma página virada: mais de 10 milhões de pessoas já foram infectadas pela doença, com cerca de 510 mil mortes confirmadas no mundo. E a única maneira para conter o avanço do vírus — o isolamento social — também traz impactos severos à economia.
Uma crise simultânea de oferta e de demanda: comerciantes e prestadores de serviços têm de ficar parados, ao mesmo tempo em que os consumidores estão em casa, de quarentena. Um cenário trágico para a atividade global e que culminou na queda do consumo, no aumento do desemprego e na paralisia da economia do mundo.
Os mercados financeiros, é claro, não passaram incólumes por esse cenário sem precedentes: a aversão ao risco aumentou, as moedas de países emergentes se desvalorizaram e os investimentos em ações passaram por reviravoltas, dada a fragilidade de muitas empresas nesse contexto.
Isso não significa, no entanto, que as bolsas estiveram paradas desde então, largadas à falta de perspectiva de melhora. Pelo contrário: tivemos uma recuperação bastante interessante do Ibovespa e dos demais índices acionários do mundo nos últimos meses.
Nesta terça-feira (30), última sessão do semestre, o Ibovespa marcava 95.055,82 pontos, em baixa de 0,71%. Ok, ainda está distante dos 120 mil pontos prometidos em janeiro, mas também longe dos 60 mil pontos vistos em março.
Com o desempenho de hoje, o Ibovespa acumulou ganhos de 8,76% em junho, fechando o segundo trimestre do ano com uma alta de 30,18%. Ainda assim, considerando a queda de 36,86% vista nos três primeiros meses de 2020, o saldo do semestre é negativo: queda de 17,80%.

Essa recuperação do Ibovespa e das bolsas globais pegou muitos de surpresa, eu incluso neste grupo. Ok, alguns sinais de recuperação econômica começam a surgir na China, Europa e EUA, mas fato é que a economia global ainda está em níveis bastante deprimidos.
Além disso, o próprio coronavírus continua se espalhando pelo globo — o que, em última instância, pode frear a reabertura dos países e forçar uma nova onda de quarentena, o que pioraria ainda mais a atividade no mundo. O cenário está longe de ser otimista.
E, no Brasil, temos ainda nossas próprias questões: a tramitação de pautas econômicas está praticamente travada, as projeções para o PIB e outras variáveis são cada vez piores e a Covid-19 ainda está numa fase ascendente no país — isso sem falar nas enormes tensões políticas entre governo, Congresso e STF.
Sendo assim, é preciso fazer algumas considerações. Em primeiro lugar, algumas poucas empresas e setores conseguiram atravessar o período crítico de maneira mais ou menos firme — falo especialmente de companhias ligadas ao e-commerce, que viram a demanda aumentar em tempos de isolamento. A tese de investimento em ações desses segmentos, assim, saiu fortalecida em meio à pandemia.
E, de fato, ações como B2W ON (BTOW3), Magazine Luiza ON (MGLU3), Lojas Americanas PN (LAME4) e Via Varejo ON (VVAR3) estão entre os poucos ativos do Ibovespa que conseguiram terminar o semestre no azul — os papéis da B2W lideram o ranking, com alta acumulada de 70% no período.
Mas também há um segundo fator não tão óbvio que ajudou a dar força às bolsas de maio para cá: a forte injeção de liquidez por parte dos bancos centrais do mundo, aliada ao corte de juros em quase todos os mercados globais.
Pacotes de auxílio econômico foram lançados aos montes: Europa, Japão, EUA, Brasil e muitos outros governos e BCs abriram os cofres e colocaram dinheiro para circular, numa tentativa de manter a economia girando e evitar uma quebradeira desenfreada de empresas.
O corte de juros em bloco vai no mesmo caminho: com as taxas perto de 0%, a ideia é facilitar a tomada de crédito e, com isso, estimular o consumo, de modo a reaquecer a atividade econômica.
Essa combinação, no entanto, acabou sendo particularmente benéfica para as bolsas: juros baixos tiram a atratividade de investimentos em renda fixa, obrigando os investidores a buscarem alternativas mais arriscadas — no caso, no mercado de ações.
Assim, uma parte relevante dessa enxurrada de dinheiro veio parar nas bolsas, dando ânimo aos investidores por mais que as perspectivas econômicas ainda sejam nebulosas. Uma espécie de blindagem contra eventuais problemas.
Estresse contínuo no dólar
No mercado de câmbio, contudo, a história foi um pouco diferente: o dólar à vista passou por uma pressão quase contínua ao longo do ano, com um leve período de alívio em maio.
Nesta terça-feira, o dólar à vista subiu 0,25%, a R$ 5,4402, acumulando ganhos de 1,90% em junho. No trimestre, a alta foi de 4,69%; no ano, os ganhos já somam 35,6%.

Por que a trajetória do dólar difere tanto da do Ibovespa? Por que o mercado de câmbio manteve-se tão estressado, sem sinal da recuperação vista na bolsa?
Bem, ao mesmo tempo que a injeção de liquidez dá ânimo aos investidores e ao mercado de ações, ela não cega os agentes financeiros da realidade e dos riscos que permanecem no horizonte: tanto no Brasil quanto no exterior, ainda há bastante incerteza adiante.
Sendo assim, esses recursos abundantes servem para montar posições estratégicas: ao mesmo tempo em que os investidores permanecem alocados em bolsa, buscando boas oportunidades, eles também buscam algum tipo de proteção para a carteira — e, no caso, esse 'hedge' é o dólar.
Se tudo der certo e as bolsas deslancharem novamente, quem estiver posicionado agora vai se dar bem; se tudo der errado e o cenário se deteriorar, o dólar subirá ainda mais — e quem tiver comprado a moeda americana vai amenizar parte das perdas em bolsa.
Claro que a queda de juros no Brasil, com a Selic nas mínimas históricas a 2,25% ao ano, contribui para trazer pressão extra ao câmbio: com a taxa nesses patamares, o diferencial em relação aos EUA está cada vez menor, o que atrai menos investidores globais para o mercado brasileiro.
Assim, o dólar parece mais perto do patamar dos R$ 6,00 — o teto histórico em termos nominais para a moeda — do que, digamos, dos R$ 4,00 que funcionavam como uma 'barreira psicológica' para o mercado até o começo do ano.
MESMO QUE 'DÊ RUIM'
Faça chuva ou faça sol nas urnas: JP Morgan seleciona ações que podem ganhar com o melhor ou o pior resultado eleitoral
30 de setembro de 2026 - 13:05TAG SUMMIT
Não tem tempo ruim para a infraestrutura: as empresas preferidas da Perfin para atravessar crises e juros altos
29 de setembro de 2026 - 17:53PRÊMIO DE RISCO
Dólar a R$ 4,80? As pistas que as últimas eleições na América Latina dão para o desempenho do real
28 de setembro de 2026 - 18:45VISÃO DO GESTOR
“Não se ganha dinheiro comprando o que é popular”: onde a Inter Asset está vendo pechinchas na bolsa brasileira
27 de setembro de 2026 - 12:01INTER INVEST SUMMIT
Ações “órfãs” na bolsa, juros altos e uma armadilha no crédito: onde investir em 2027, segundo especialistas
26 de setembro de 2026 - 18:08RALI NA B3
Ibovespa a 207 mil pontos? Especialista do Inter diz o que pode destravar a bolsa brasileira após as eleições
25 de setembro de 2026 - 16:40ALÉM DA BOLSA
Os fundos imobiliários cetipados vieram para ficar? Entenda por que eles estão em alta e o que você precisa saber antes de investir
25 de setembro de 2026 - 15:54SETOR DE AUTOPEÇAS
JP Morgan pisa no freio e rebaixa Frasle (FRAS3) para venda. Analistas preferem outras 3 ações que podem saltar até 69%
25 de setembro de 2026 - 13:18MAIS AQUISIÇÕES
TRXF11 enche o carrinho de novo e paga R$ 2,83 bilhões, mas FII cai na bolsa; veja o que entra no portfólio
24 de setembro de 2026 - 13:02O OUTRO LADO DA MOEDA
R$ 4,50 ou R$ 5,80? O gatilho que vai definir o preço do dólar depois das eleições
23 de setembro de 2026 - 18:33RADAR DE FIIS
Fundo imobiliário leva calote de inquilino em recuperação judicial; entenda o impacto no bolso dos cotistas
23 de setembro de 2026 - 13:01SD ENTREVISTA
Tubarões saem e varejo entra: sinal de alerta para os FIIs? LAREAL revela o que os institucionais estão vendo
23 de setembro de 2026 - 6:01AS MAIS SAUDÁVEIS
Dasa (DASA3) é compra para o UBS BB, mas banco revela outras 2 favoritas — uma delas para dividendos
22 de setembro de 2026 - 19:50EM DESACELERAÇÃO
FIIs de shoppings sob pressão: é hora de separar o joio do trigo — e o BTG Pactual já escolheu os ativos favoritos
21 de setembro de 2026 - 20:01EM ESPERA...
Nubank, BTG Pactual e Banco do Brasil: os gringos já escolheram onde investir, agora só falta o gatilho certo para apertar compra
21 de setembro de 2026 - 17:19DIRETO PELA B3
IA, Ibovespa e até farmacêuticas gringas: Itaú BBA diz como investir em 800 ações com retorno de 23% ao ano sem dor de cabeça
18 de setembro de 2026 - 19:20EM TOM DE CAUTELA
Lula turbina Bolsa Família em 15% e faz o Ibovespa perder 3 mil pontos. Por que o mercado torceu o nariz?
17 de setembro de 2026 - 13:00DEU RUIM
Ação da Marcopolo (POMO4) despenca 26% no ano e XP rebaixou para neutra; mas há 2 fatores que podem impulsionar a ação
17 de setembro de 2026 - 12:46ONDE APOSTAR NA BOLSA
Lula ou Flávio? Você não deve esperar as eleições para se posicionar nestas ações, segundo a Kinea
17 de setembro de 2026 - 9:01VISÃO DO GESTOR