Ibovespa registra melhor novembro em 21 anos puxado por altas de Petrobras, Vale e bancos
Apesar de forte baixa hoje, principal índice acionário da B3 teve mês de alta vigorosa, com influência de vacina, Biden e fluxo de gringos. Ações de Azul, Gol e CVC lideram altas. Ingresso de fluxo estrangeiro na B3 sustenta queda do dólar

O Ibovespa não fez uma sessão positiva nesta segunda-feira (30), caindo 1,5% para 108.930 pontos em meio à aversão ao risco no exterior — bolsas em Nova York e na Europa foram derrubadas pela tensão entre Estados Unidos e China. Ainda assim, teve um mês de gala, para lavar a alma dos investidores que atravessaram um ano conturbado.
O principal índice acionário da B3 fechou o novembro subindo 15,9% — o melhor novembro desde 1999, ocasião em que subiu 17,8%, e o melhor mês de março de 2016, em que avançou 17% —, com um cenário mais favorável no exterior.
Basicamente, neste período os investidores tiveram novidades das boas sobre o desenvolvimento de vacinas, com os imunizantes de farmacêuticas como Pfizer e Moderna apresentando mais de 90% de eficácia nos testes da fase 3 e pavimentando o caminho da tomada de risco.
A vacina da AstraZeneca obteve 70% de eficácia em média de acordo com os testes da fase 3, mas encontrou uma taxa maior, de 90%, em um grupo que acabou recebendo metade da primeira dose, seguida de uma dose completa alguns dias depois — algo que não era inicialmente planejado pela empresa, o que pôs em xeque a credibilidade do experimento.
De qualquer forma, o que houve foi a chegada de resultados eficazes em um período de tempo relativamente curto, se considerarmos que a pandemia foi declarada como tal pela Organização Mundial de Saúde em março, isto é, há 8 meses.
Neste cenário, a covid-19 tem se apresentado como um risco mitigado — embora não riscado do radar de preocupações dos mercados.
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Para isto, basta ver que o coronavírus continua a se disseminar, e em grau acelerado no hemisfério norte, como visto na Europa e nos Estados Unidos, onde foram necessárias novas medidas de restrição de circulação de pessoas.
Um risco que, sim, foi tirado do radar foi o das eleições presidenciais americanas. O democrata Joe Biden sagrou-se vencedor e foi eleito trazendo uma promessa de um pacote de estímulos mais parrudo.
Mas, ao mesmo tempo, sua vitória ocorreu sem que uma "onda azul", de democratas dominando ambas as casas legislativas, se concretizasse, diminuindo as preocupações de investidores sobre projetos que ampliariam impostos sobre grandes corporações e visassem especialmente big techs. Consolidou-se aí uma espécie de "melhor dos mundos" para o mercado.
A mitigação do risco da covid com a esperança de uma vacina mais próxima e o fim das eleições nos EUA geraram um reposicionamento dos agentes financeiros, que passaram a trocar não apenas o setor de suas alocações, mas também os países.
Os mercados emergentes se beneficiaram amplamente deste movimento. Em novembro, os estrangeiros ingressaram com R$ 31,4 bilhões na bolsa brasileira, sendo resultado de R$ 306,9 bilhões em compras e R$ 275,5 bilhões em vendas.
Blue chips do Ibovespa, como Petrobras, Vale e bancos, se beneficiaram desse movimento de entrada de gringos, principalmente a petroleira e o setor bancário, já que são setores defasados do ponto de vista de preços, que só agora começaram a se recuperar com maior vigor.
As ações ON e PN da estatal subiram 34% e 32%, na esteira da alta do preço do barril de petróleo do tipo Brent, que subiu 27% em novembro.
Vale ON avançou 28%. Entre os bancos, Santander units tiveram ganhos de 24,5%, e Itaú PN, de 22%. Os papéis Bradesco PN e ON registraram altas de 21,6% e 20,2%, e Banco do Brasil ON, de 15%.
Juntas, essas ações respondem por uma participação de 40% na composição da carteira do Ibovespa.
"Foi um mês de montagem de posições para a reabertura da economia e de realização de lucros com empresas de tecnologia", diz João Vítor Freitas, analista da Toro Investimentos, citando o mau humor externo como um pano de fundo para uma realização de lucros hoje.
Freitas julga, no entanto, que a correção é natural, mas que pesou a regressão do Estado de São Paulo para a fase amarela no plano de reabertura da economia na postura de investidores hoje.
Quem desceu e quem subiu no mês
Ações penalizadas pela crise da covid-19, Azul, Gol e CVC ficaram entre as cinco principais altas do Ibovespa em novembro, também na esteira da esperança pelas vacinas. Os papéis subiram no mínimo 50% no período — no ano, no entanto, ainda conservam quedas de ao menos 34%.
As ações de PetroRio foram muito guiadas pela perspectiva de aumento de produção da empresa, que recentemente comprou participações em dois campos do pré-sal.
A visão de analistas e investidores é que a companhia possui uma operação eficiente e vai expandir sua produção em um momento de retomada dos preços do petróleo no mercado internacional em meio ao aumento da demanda.
O papel da Yduqs, empresa do setor de educação com foco em ensino superior, foi outro que, como as aéreas e a CVC, saiu com fortes perdas do período da covid-19. A alta no mês representa que os investidores optaram por comprar um papel considerado barato. Cogna ON, do mesmo setor, subiu 9% em novembro.
A sétima maior alta percentual do mês ficou por conta de Embraer ON, que subiu 34% no período com a perspectiva de um imunizante contra o coronavírus. No ano, ainda tem queda de 60%.
| CÓDIGO | EMPRESA | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO MENSAL |
| AZUL4 | Azul PN | 38,02 | 68,60% |
| PRIO3 | PetroRio ON | 50,17 | 60,19% |
| GOLL4 | Gol PN | 23,52 | 49,90% |
| CVCB3 | CVC ON | 18,23 | 48,45% |
| YDUQ3 | Yduqs ON | 33,02 | 44,07% |
Demonstrando o fenômeno de rotação setorial como temos visto no último mês, no qual dos investidores venderam ações de "vencedoras" com as medidas de isolamento (tecnologia, e-commerce) e voltaram aos papéis de companhias da velha economia, B2W e Magazine Luiza fecharam o mês como lanternas.
O movimento também é produto de uma postura de realização de lucros — Magazine Luiza e Weg são as duas maiores altas percentuais do Ibovespa no ano.
Confira as maiores quedas do índice no período:
| CÓDIGO | EMPRESA | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO MENSAL |
| BTOW3 | B2W ON | 70,40 | -6,43% |
| MGLU3 | Magazine Luiza ON | 23,38 | -5,08% |
| WEGE3 | Weg ON | 73,57 | -2,98% |
| FLRY3 | Fleury ON | 26,56 | -2,89% |
| LAME4 | Lojas Americanas PN | 22,93 | -1,29% |
Dólar cai 7% no mês
O dólar, por sua vez, teve um recuo de 7% em novembro, refletindo a maior entrada de fluxos estrangeiros no país.
O enfraquecimento da divisa é consequência do redirecionamento de recursos de investidores de economias desenvolvidas para as de emergentes, como é o caso do Brasil, em meio à esperança de vacinas e após a eleição de Biden.
Entre as divisas desses países, o dólar apenas apresentou alta em novembro frente ao peso argentino. A moeda americana apresentou maior queda diante do peso colombiano, do real brasileiro e da lira turca.
"O mês de novembro teve evolução favorável do dólar no exterior, em função do termino da eleição, da vacina, e houve uma recuperação de moedas emergentes", diz Eduardo Velho, sócio e economista-chefe da JF Trust Investimentos.
O economista reconhece que o movimento de apreciação das divisas emergentes foi predominante no mês, mas que há fatores domésticos limitando a intensidade da menor aversão ao risco, afetando tanto o mercado de câmbio quanto o de juros.
"Aqui não deve ter votação do orçamento em dezembro, a única coisa que parece consenso é que o auxílio emergencial não vai ser prolongado. Sem orçamento, sem gatilho [a PEC emergencial possui um gatilho para corte de gastos em caso de descumprimento da regra de ouro], sem LDO, o governo pode parar, pode pesar na atividade econômica, pesar nas empresas."
Sobre a sessão de hoje, o economista do Banco BV, Roberto Padovani, afirmou que os riscos globais se sobrepuseram aos locais, pesando sobre o desempenho do dólar e dos juros.
"Dia já estava instável fora do país, é Opep e China", afirmou ele, sobre a reunião da Organização dos Países Exportadores de Petróleo sem definição sobre prorrogação dos cortes e também sobre a sanção dos Estados Unidos a uma empresa chinesa que supostamente vendia tecnologia para a Venezuela, novo episódio de piora do relacionamento entre Washington e Pequim.
O Dollar Index (DXY), que compara o dólar a uma cesta de moedas fortes como euro, libra e iene, também aponta para cima, indicando a força global do dólar na sessão de hoje.
No fim do dia, o dólar fechou em alta de 0,4%, cotado aos R$ 5,3462. Se no mês caiu 7%, é bom não perder de vista que no ano ainda acumula ganhos incríveis, superiores a 33%.
No cenário local, os investidores monitoram o andamento da pauta econômica do governo no Congresso Nacional.
O jornal Valor Econômico noticia que, passado o período de eleições, o objetivo primeiro da gestão Jair Bolsonaro é aprovar a Lei de Diretrizes Orçamentárias.
Outros projetos com tramitação travada, como o PLP 137 (que libera recursos R$ 177 bilhões de 29 fundos à covid-19), a PEC Emergencial, o PL da Cabotagem e o PLP 101, que estabelece o Programa de Acompanhamento e Transparência Fiscal, também são temas de prioridade.
Os juros, precificando a aversão ao risco, além de uma situação fiscal já delicada, chegaram a subir 20 pontos-base (0,2 ponto percentual) na ponta longa (contrato de janeiro de 2025), mas moderaram a intensidade do movimento ao longo da sessão.
Enquanto isso, os juros mais curtos marcaram altas mais leves, em face da percepção de uma elevação da inflação.
O boletim Focus do Banco Central apontou que os economistas estão observando um avanço cada vez maior dos preços para 2020, em meio à postura do BC de tratar essa inflação como resultado de um choque transitório.
Esta foi a 16ª semana consecutiva que o relatório mostrou um ajuste altista no principal indicador de inflação, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). Na semana passada, a expectativa era de fechar 2020 com um avanço de 3,45% — nesta, é de 3,54%, de acordo com a mediana.
"Não tem que falar em descontrole da inflação, porque não tem descontrole, tem é risco fiscal. Com certeza o mercado é racional e embute um prêmio de risco na curva de juros", diz Velho, da JF Trust Investimentos, sobre o desempenho das taxas.
- Janeiro/2021: de 1,932% para 1,912%
- Janeiro/2022: de 3,28% para 3,31%
- Janeiro/2023: de 4,94% para 5,00%
- Janeiro/2025: de 6,70% para 6,77%
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