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Analistas se debruçaram sobre a estrutura da compra da Avon pela Natura — e, em linhas gerais, gostaram do que viram. Mas, considerando o rali recente das ações da empresa brasileira, a postura dos especialistas é cautelosa
Era uma bola cantada. Afinal, tanto a Natura quanto a Avon já haviam assumido o namoro publicamente — faltava só marcar a data do casamento.
O convite chegou na noite da última quarta-feira (22): a união das rivais históricas criará uma gigante global do setor de cosméticos, com faturamento anual superior a US$ 10 bilhões. A operação envolve a troca de ações das companhias — após o negócio, a Natura irá deter 76% da empresa combinada, enquanto os sócios da Avon ficarão com os 24% restantes.
A expectativa para o anúncio da transação tomou conta dos mercados ontem: as ações ON da Natura (NATU3) fecharam o pregão da quarta-feira em forte alta de 9,43%, a R$ 61,50, enquanto os papéis da Avon tiveram ganhos de 9% na NYSE, a US$ 3,49.
Mas... e agora? Ainda vale a pena comprar as ações da empresa brasileira, ou a festa do casamento não aceita convidados de última hora?
Bom, a primeira coisa que eu fiz hoje, ao chegar à redação do Seu Dinheiro, foi procurar a opinião dos analistas que acompanharam de perto todo o flerte entre as duas empresas. E, em linhas gerais, os especialistas gostaram dos termos da transação.
Mas os analistas também fizeram um alerta: afinal, considerando o fechamento de ontem, a R$ 61,50, os papéis da Natura acumulavam ganhos de 37,7% desde o início do ano. E, embora a compra da Natura abra possibilidades interessantes para o futuro, esse rali diminui a atratividade dos papéis neste momento.
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E, de fato, os papéis da Natura tiveram uma queda expressiva nesta quinta-feira (23), devolvendo boa parte dos ganhos acumulados ontem. As ações da empresa brasileira terminaram a sessão em baixa de 8,54%, a R$ 56,25, liderando as perdas do Ibovespa — confira aqui a cobertura completa dos mercados hoje.

Essa preocupação foi expressada com veemência pelo Bradesco BBI. Em relatório, o analista Richard Cathcart diz ver méritos na operação, mas acredita que as ações da Natura já subiram demais — o que torna a relação entre risco e retorno dos papéis pouco atrativa.
Nesse contexto, o banco cortou a recomendação para os ativos da Natura, de neutro para "underperform" — ou seja, com desempenho abaixo da média. O preço-alvo do Bradesco BBI para as ações é de R$ 55,00.
Para Cathcart, os pontos positivos da operação para a Natura incluem o ganho de escala e o fortalecimento no Brasil, uma vez que a nova companhia irá atingir uma participação de mercado de cerca de 16% no país — o Boticário, por exemplo, detém 12%. Além disso, a Natura irá aumentar sua exposição na América Latina e atingir novas categorias, já que a Avon é mais forte no setor de maquiagens, enquanto a Natura possui presença mais intensa em perfumes e cuidados com o corpo.
Mas, por outro lado, o analista estima que, considerando o recente rali, o mercado precifica um potencial de sinergias de cerca de US$ 300 milhões com a transação — acima da faixa divulgada pela própria natura, de US$ 150 milhões a US$ 250 milhões.
"Além disso, destacamos os riscos envolvidos na aquisição de uma empresa tão grande e que perdeu cerca de 30% de sua receita nos últimos cinco anos, e o risco mais amplo de disrupção conforme as duas empresas focam no processo de integração", diz Cathcart.
A questão do potencial de ganhos a serem gerados com a união também foi abordada pelo BTG Pactual. Em relatório, os analistas Luiz Guanais e Gabriel Savi ponderam que eventuais ganhos para os acionistas da Natura depende de as sinergias totais da operação ultrapassarem os US$ 520 milhões.
"Esperamos que os ganhos sejam capturados principalmente no front das despesas gerais e administrativas", diz o BTG, também ressaltando que o atual rali dos papéis da Natura implica que o mercado já está precificando as sinergias.
"Mas, apesar desse potencial e da valuation aparentemente atrativo da Avon, lembramos que a operação vai aumentar a complexidade do modelo de negócios da Natura", escrevem Guanais e Savi — e isso num momento em que a companhia lida com o turnaround da The Body Shop e com as tendências mais fracas no mercado local.
O BTG Pactual possui recomendação neutra para as ações da Natura, com preço-alvo de R$ 50,00 para os papéis em 12 meses.
O Itaú BBA também bate na tecla de que o rali das ações da Natura já precificou os potenciais ganhos de sinergia a serem destravadas pela operação. Contudo, o banco acredita que "fontes adicionais de valor" oriundas da transação podem continuar a dar suporte às ações no curto prazo.
Tais fontes incluem possíveis benefícios fiscais e uma eventual mudança de sede fiscal — fatores que, neste momento, o Itaú BBA diz serem difíceis de serem avaliadas.
"Essa é uma operação transformacional para a Natura e, como tal, deve aumentar de maneria significativa a capilaridade da companhia em termos de presença geográfica, ao mesmo tempo que expande a operação em diversos canais e fortalece o portfólio consolidado de produtos", escrevem os analistas Thiago Macruz, Julia Fagá, Marco Calvi e Vinicius Figueiredo.
O Itaú BBA tem recomendação "outperform" — acima da média — para as ações da Natura, com preço-alvo de R$ 52,00. Os analistas ressaltam, contudo, que estão trabalhando para incorporar os resultados da Avon no modelo de avaliação.

O banco mantém a recomendação de compra para a ação, além de ser a ação preferida do setor — ela é negociada a 13 vezes o preço da ação sobre o lucro estimado
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