Com um empurrãozinho do exterior, o Ibovespa cravou a 5ª alta consecutiva
O Ibovespa terminou longe das máximas do dia, mas conseguiu se segurar no campo positivo e engatou o quinto pregão em alta, ajudado pelo bom desempenho dos mercados globais

Numa das poucas músicas dos Beatles em que assumiu os vocais, Ringo Starr avisou: "I get by with a little help from my friends" — algo como "com uma ajudinha dos meus amigos, eu me viro". Pois o Ibovespa prestou atenção ao recado: com um empurrão dos mercados externos, o índice chegou lá e engatou a quinta alta consecutiva.
É fato que o principal índice da bolsa brasileira teve um desempenho modesto nesta terça-feira (15), fechando o pregão com ganho de 0,18%, aos 104.489,56 pontos — na máxima, chegou a tocar os 105.047,62 pontos (+0,72%). Mas também é fato que o Ibovespa não cravava uma sequência de cinco subidas desde o início de julho.
E hoje, o mercado brasileiro pegou carona nos ganhos expressivos vistos lá fora: nos Estados Unidos, o Dow Jones (+0,89%), o S&P 500 (+1,00%) e o Nasdaq (+1,24%) avançaram em bloco, assim como as principais praças da Europa. Nesse cenário, o Ibovespa apenas seguiu o fluxo, apesar dos pontos de preocupação no front local.
Entre esses focos de cautela doméstica, destaque para o panorama político: possíveis novas desavenças entre o presidente Jair Bolsonaro e o PSL mantiveram os agentes financeiros em alerta, assim como as discussões no Senado referentes à partilha dos recursos da cessão onerosa.
Mas, como cantou Starr — ou Joe Cocker, caso o Ibovespa prefira uma versão mais dramática da música (eu prefiro) —, tudo que o Ibovespa precisava era de uma ajudinha. Nesta terça-feira, ela veio.
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E qual foi o saldo dessa onda positiva? No fechamento do dia 8 — último pregão de desempenho negativo —, o índice marcava 99.981,40 pontos. Assim, em cinco sessões, o Ibovespa avançou exatos 4.508,16 pontos, um ganho acumulado de 4,51% no período.
Don't Let Me Down
Todo esse bom humor dos mercados globais teve alguns gatilhos: nos EUA, começou hoje a temporada de balanços do terceiro trimestre, e os primeiros resultados surpreenderam positivamente. Entre outras empresas, o J.P. Morgan, a Johnson & Johnson e a UnitedHealth reportaram números que superaram as estimativas dos analistas.
E, na Europa, notícias quanto à conclusão de uma versão preliminar do acordo para a saída do Reino Unido da União Europeia — o chamado Brexit — trouxeram otimismo às bolsas do velho continente. De acordo com a imprensa local, o premiê britânico, Boris Johnson, fez diversas concessões à UE para acelerar o processo.
O noticiário referente ao Brexit fez o DAX, da Alemanha, fechar em alta de 1,15%, e o CAC 40, da França, subir 1,05% — o índice pan-continental Stoxx 600 teve ganho de 1,11%. Por outro lado, o FTSE 1000, do Reino Unido, teve leve baixa de 0,03%, na contramão das demais praças europeias.
Além desses dois fatores, há o pano de fundo da guerra comercial entre EUA e China. Por mais que os detalhes da "primeira fase" do acerto firmado entre os governos dos dois países não sejam conhecidos — e que ainda haja faíscas na relação entre as potências —, a recente despressurização trouxe um alívio de curto prazo para os mercados.
Nesse cenário, o Ibovespa acabou acompanhando o cenário global e engatando mais uma alta. O desempenho da bolsa brasileira, contudo, ficou aquém do visto nos EUA ou na Europa, uma vez que o noticiário político doméstico trouxe fatores de preocupação e limitaram o apetite dos agentes financeiros, especialmente após os ganhos recentes.
Os mercados locais monitoraram os eventuais desdobramentos da operação de busca e apreensão conduzida pela Polícia Federal num endereço ligado ao presidente do PSL, Luciano Bivar — há o temor de que esse acontecimento agrave a crise entre o partido e o presidente Jair Bolsonaro.
Outro fator que apareceu no radar nesta terça-feira foi a votação, npelo Senado, do relatório sobre o projeto de lei sobre a partilha dos recursos da cessão onerosa — há a previsão de que a pauta seja discutida pelo plenário da Casa ainda hoje.
O progresso desse tema no Congresso é visto como fundamental para que a tramitação da reforma da Previdência tenha continuidade, uma vez que a falta de acordo para a partilha dos recursos do megaleilão do pré-sal travou a tramitação das novas regras da aposentadoria.
"Destravando a cessão onerosa e a Previdência, o Ibovespa pode até subir mais e quebrar os 105 mil pontos", diz Vitor Beyruti, economista da Guide Investimentos.
Help!
Já o dólar à vista continuou sem maiores alívios: a moeda americana fechou em alta de 0,87%, aos R$ 4,1641 — perto das máximas do dia, a R$ 4,1666 (+0,94%).
No exterior, o mercado de câmbio não apresentou uma direção definida nesta terça-feira: o dólar perdeu terreno em relação às moedas fortes e apresentou comportamento instável ante as de países emergentes — subiu em relação ao peso chileno, o rand sul-africano e o rublo russo, mas caiu na comparação com o peso mexicano.
A curva de juros também passou por uma correção positiva, num movimento de ajuste após as baixas expressivas vistas nos últimos dias. Os DIs para janeiro de 2021 subiram de 4,56% para 4,61%, os com vencimento em janeiro de 2023 avançaram de 5,55% para 5,63%, e os para janeiro de 2025 foram de 6,24% para 6,32%.
Apesar desse movimento de alta dos juros, Beyruti acredita que, no longo prazo, a tendência para os DIs é de queda, dada a fraqueza dos mais recentes dados da economia brasileira — o que abre espaço para que o Banco Central promova cortes mais agressivos na Selic, de modo a estimular a atividade doméstica.
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