Menu
2019-07-27T12:31:43-03:00
Daniele Madureira
Daniele Madureira
Daniele Madureira é jornalista freelancer. Formada pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, tem pós-graduação em Jornalismo Social pela PUC-SP. Foi editora-assistente do site Valor Online, repórter dos jornais Valor Econômico, Meio & Mensagem e Gazeta Mercantil. Colaborou com as revistas Exame, Capital Aberto e com a edição do livro Guia dos Curiosos.
Bom, mas nem tanto

Mercosul e União Europeia: acordo para ‘liberar geral’ o comércio pesa na bolsa?

A receita vai crescer, mas as cotas continuam nos produtos considerados “sensíveis”, que envolvem um prazo maior para implantação das normas, de até 15 anos. Na lista está justamente o agronegócio.

16 de julho de 2019
5:49 - atualizado às 12:31
União Europeia e Mercosul
União Europeia e Mercosul - Imagem: Shutterstock

A primeira vez que eu visitei a Itália foi em 2008. Minha tia, casada com um italiano, fez questão de me ciceronear por Florença, terra natal do marido. Em uma das lojas do centro da cidade, me apaixonei por uma bela bota de camurça. Na época, custava algo em torno de 80 euros – muito caro para o meu bolso. Tentei barganhar (a indefectível mania dos brasileiros) e o sisudo vendedor não gostou da minha estratégia. Disse que aquele era um legítimo produto italiano e, como tal, tinha o seu preço. Não era como o tênis que eu usava, feito na China – ironicamente, era um Fila, a tradicional marca italiana que, ao contrário do que o “maleducato” vendedor achava, havia sido produzido no Brasil.

Eu acabei levando a bota e fiquei pensando naquele italiano. Em 2008, toda a Europa sentia o peso do gigante asiático. A economia chinesa crescia 9% ao ano, enquanto os países ricos patinavam na recessão. Depois de ingressar em 2001 na Organização Mundial do Comércio (OMC), após 15 anos de negociações, os chineses mostraram ao mundo que era possível fazer tudo rápido, em larga escala e a preços competitivos, ainda que a qualidade fosse questionável.

Após o anúncio do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul no fim de junho, depois de 20 anos de conversas, fico imaginando o que o vendedor italiano diria. A Europa é naturalmente protecionista e muito zelosa da sua agricultura – setor em que o Brasil se destaca no comércio internacional, assim como a pecuária. Parte dos europeus teme, realmente, que o acordo possa gerar um “efeito China” sobre seus negócios – latinos vendendo produtos competitivos no continente, mas com lastro socioambiental duvidoso. Mas será que o Brasil já tem motivos para comemorar a futura expansão do agronegócio em terras europeias? E a nossa indústria de bens de consumo estaria pronta para atingir o padrão europeu de qualidade?

Depois de ouvir analistas e especialistas em comércio exterior, a resposta é não – pelo menos, por enquanto. É claro que a redução de tarifas nos médio e longo prazos é positiva para a entrada de produtos brasileiros no Velho Mundo. A receita vai crescer, mas as cotas continuam nos produtos considerados “sensíveis”, que envolvem um prazo maior para implantação das normas, de até 15 anos. E boa parte desses produtos são justamente os do agronegócio, como carnes, açúcar e etanol.

“Tudo ainda é muito incipiente”, lembra Antônio Barreto, analista do Itaú BBA. “Como não sabemos os detalhes, nem como se dará a implantação das normas durante os próximos 10 anos [período de transição previsto para a maioria dos produtos], o acordo não é suficiente para mudar a nossa recomendação sobre as ações das empresas exportadoras”, diz. De acordo com o analista, a recente alta envolvendo as ações dos frigoríficos estão relacionadas diretamente às notícias sobre a febre suína na China.

Cotas continuam

No agronegócio, as regras do acordo com a União Europeia envolvendo o setor de carnes são as mais relevantes para a indústria: haverá uma cota de 99 mil toneladas de carne bovina para todo o bloco do Mercosul; 180 mil toneladas para carne de frango e 25 mil toneladas para carne suína. Hoje, 1% do total exportado pelos produtores de carne do Mercosul vão para a União Europeia; a partir do acordo, esse montante deve subir para 4%, diz Barreto. “É bom, mas não transformacional”, diz. “Ninguém vai ficar rico do dia para noite”, afirma.

Os outros dois produtos mais relevantes para o agronegócio no acordo – açúcar e álcool – também deixam a desejar em volume, diz Ribeiro. A cota para o açúcar continua a mesma de 180 mil toneladas, o que representa 1% da produção brasileira. “A diferença é que se consegue um preço médio melhor”, afirma. Já em relação ao etanol, o Brasil vai poder exportar ao bloco europeu o equivalente a 2% sua produção. “O mercado doméstico é muito mais importante para a indústria de etanol”, diz.

Ainda no caso das carnes, não está claro até o momento como será a divisão da cota entre os países latinos que integram o Mercosul – Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. “O lado positivo é que a ‘cota Hilton’, imposta pela Europa sobre cortes bovinos de alta qualidade, deixa de existir”, afirma Barreto. Assim, as 99 mil toneladas que chegarão ao continente europeu serão de maior valor agregado.

Para Luciana Carvalho, analista do Banco do Brasil, as medidas anunciadas no acordo devem beneficiar o agronegócio de forma gradativa. “Com tamanhas indefinições no momento, só esse fato não muda nossa recomendação”, diz a analista, em relação às ações das empresas do setor.

As próprias empresas ainda estão reticentes em relação ao acordo com os europeus. O Seu Dinheiro entrou em contato com 12 companhias listadas na bolsa para saber das suas expectativas e preparativos. São empresas que atuam em setores apontados por especialistas com potencial para se beneficiarem das novas regras entre os blocos. Apenas três responderam: Marfrig, BRF e SLC. Também foram contatadas JBS, Cosan/Raízen, São Martinho, Embraer, Suzano, Vale, Natura, Arezzo e Camil. A maioria não quis se pronunciar.

Na visão de Miguel Gularte, presidente da Marfrig na América do Sul, “as expectativas são muito boas”, embora o rateio interno de cada país nas cotas não tenha sido definido. “Com certeza, vamos ter aumento nas exportações, já que a Marfrig possui plantas habilitadas no Brasil, Uruguai e Argentina para exportar para Europa. E ainda somos detentores da maior cota Hilton na América do Sul”, afirmou. “Vamos trabalhar nosso pricing e as estratégias, como sempre fazemos, e nos adiantar às oportunidades”.

Para a BRF, o acordo “é positivo e irá fortalecer o país com impactos benéficos para o setor agropecuário”, respondeu a companhia, em comunicado. “O trabalho realizado pelo Itamaraty, com participação direta da Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, é positivo para o cenário econômico deste e dos próximos anos, mesmo não sendo possível avaliar o impacto para a empresa neste momento”.

Já a SLC Agrícola respondeu que não tem “quase nenhum negócio com a Europa”, uma vez que tem como foco a Ásia, e que não traçou “nenhum plano específico” após as recentes mudanças no comércio mundial.
Para o economista Carlos Braga, professor da Fundação Dom Cabral, a distribuição da eficiência é desigual na indústria brasileira. “A Natura, por exemplo, não tem nada a temer”, diz. “Para as companhias que estão mais próximas à fronteira tecnológica, será mais fácil se adaptar ao novo ambiente competitivo ao longo dos próximos 10 a 15 anos”, afirma.

Na opinião do economista Mauro Rochlin, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), é importante saber se e como o acordo vai pôr fim às barreiras fitossanitárias impostas ao Brasil. “É algo que afeta a confiabilidade da indústria e nos últimos anos serviu como barreira burocrática, dificultando a entrada dos produtos brasileiros na Europa”, diz.

Por outro lado, o economista diz temer os efeitos do acordo sobre a indústria nacional, em especial o setor automobilístico – o Mercosul vai eliminar a tarifa de importação de automóveis ao longo de 15 anos. “A indústria brasileira, de maneira geral, tem baixa competitividade e estará exposta a uma concorrência muito maior”, diz. “Eu não sei se esse prazo é suficiente para compensar as décadas perdidas”.

Em suma, os europeus estão longe de “liberar geral” para os latinos. E há um longo tempo de maturação do acordo pela frente – começando pelo período para aprovação das medidas pelo parlamento de todos os países envolvidos. Mas nada impede que, numa futura visita à Europa, eu encontre um belo par de sapatos brasileiros nas vitrines italianas. Para mim, soaria como “una piccola vendetta”.

Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Comentários
Leia também
UMA OPÇÃO PARA SUA RESERVA DE EMERGÊNCIA

Um ‘Tesouro Direto’ melhor que o Tesouro Direto

Você sabia que existe outro jeito de investir a partir de R$ 30 em títulos públicos e com um retorno maior? Fiz as contas e te mostro o caminho

De cisne a patinho feio

O que esperar para os resultados e para as ações dos grandes bancos?

Resposta deve ficar mais clara a partir da próxima semana, quando começa a temporada de divulgação de balanços. Os lucros bilionários estão garantidos, mas a previsão é que os bancões naveguem por mares bastante turbulentos ao longo deste ano (e dos próximos)

RECUPERAÇÃO EXTRAJUDICIAL

Recuperação extrajudicial da Triunfo é suspensa pela 1ª Câmara do Tribunal de Justiça de São Paulo

Hoje, os papéis da companhia terminaram o dia cotados em R$ 2,07, o que representa uma alta de 11,29%. Apenas em janeiro, os papéis da Triunfo já subiram 22,49%

SEU DINHEIRO NA SUA NOITE

Petrobras à beira da privatização

Caro leitor, São grandes as expectativas do mercado em torno das vendas de ativos estatais para o setor privado durante o governo Jair Bolsonaro. Recentemente, o secretário especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados, Salim Mattar, disse que a meta do governo federal é levantar R$ 150 bilhões em privatizações apenas em 2020. Mas Bolsonaro já […]

De volta aos 118 mil pontos

Noticiário corporativo dá as cartas e Ibovespa sobe mais de 1%; dólar cai a R$ 4,17

Num dia de calmaria no exterior, o Ibovespa fechou em alta firme, impulsionado pelo bom desempenho das ações das siderúrgicas, da Eletrobras e do setor de papel e celulose.

PETRÓLEO

Campo de Lula permanece em 2019 como o maior produtor de petróleo do Brasil

Primeiro campo supergigante brasileiro, Lula foi descoberto em 2006, representando hoje 34,2% da produção do País

PETRÓLEO

Produção de petróleo no Brasil cresce 7,78% em 2019, diz ANP

A maior alta foi registrada pela produção de petróleo na região do pré-sal, de 21,56%, para 633,9 milhões de barris, segundo agência

MAIS ESCLARECIMENTOS

Contrato para abrir ‘caixa-preta’ é da gestão Temer, diz presidente do BNDES

“Não foi esta diretoria que contratou a auditoria. Chegamos em julho no banco e 90% do relatório estava pronto”, afirmou Montezano

OLHO NO VAREJO

XP diz que ações de varejistas não estão caras e coloca Lojas Renner, Via Varejo e Vivara entre as apostas para setor

Para o analista, a alta nos múltiplos é reflexo do aumento das expectativas dos investidores com a melhora do consumo e expansão das varejistas. Mas ponderou que, ao mesmo tempo, tal fato diminui a margem de erro por parte das empresas

Altas e baixas

Eletrobras, siderúrgicas, Marfrig, JBS e Klabin: os destaques do Ibovespa nesta quarta-feira

As ações da Eletrobras reagiram positivamente à recomendação de compra pelo Itaú BBA. Siderúrgicas e Klabin também subiram, enquanto Marfrig e JBS caíram

em compasso de espera

Gol nega revés após Boeing adiar novamente retorno do 737 MAX

Modelo foi suspenso por autoridades em todo o mundo após dois acidentes deixarem centenas de mortos no fim de 2018 e início de 2019

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu
Advertisements