Gasto com juro da dívida é o menor desde 2014
Redução no pagamento de juro acontece mesmo com dívida beirando 80% do PIB. Selic e inflação explicam

Ontem, o secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, chamou atenção para a expressiva redução nos gastos do governo com o pagamento de juros, mesmo com uma dívida que não para de crescer. Hoje, os dados do Banco Central (BC) ajudam a ilustrar essa história.
Vamos olhar os dados em 12 meses, que reduzem oscilações pontuais. Considerando o período encerrado em julho, o pagamento de juros equivale a 5,12% do Produto Interno Bruto (PIB), ou R$ 360 bilhões. Menor gasto desde novembro de 2014, quando o pagamento foi de 5% do produto.
Agora vamos aos números da dívida bruta. Em julho deste ano, a dívida foi equivalente a 79% do PIB, ou R$ 5,54 trilhões, contra 56% em novembro de 2014. O endividamento bruto não é ainda maior em função das devoluções dos empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os pagamentos feitos até maio de 2019 somam R$ 339 bilhões.
O que explica um pagamento de juro semelhante para um estoque de dívida que subiu em impressionantes 23 pontos do PIB ou R$ 2,4 trilhões é o comportamento da inflação e da taxa de juros no período. Esses são os principais indexadores da dívida. Temos inflação abaixo de 4% e juro na mínima histórica de 6%.
Vale a pena dar uma olhada nos números entre novembro de 2014 e julho de 2019. Chegamos a gastar 9% do PIB com juros, algo como R$ 540 bilhões, patamar de gastos visto apenas em países em guerra ou com graves problemas estruturais. Naquele período vínhamos de uma inflação de dois dígitos e Selic de 14,25%. Também tivemos um gasto elevado com swaps, que foi revertido nos anos posteriores.
Para dar uma ideia, vejamos a sensibilidade da dívida bruta à inflação e Selic, atualizadas hoje pelo BC. A cada variação de 1 ponto percentual da Selic, mantida por 12 meses, o impacto é de 0,43 ponto do PIB, ou R$ 30,4 bilhões. Já cada variação de 1 ponto percentual dos índices de preços, mantidos por 12 meses, tem impacto de 0,14 ponto do PIB, ou R$ 10,1 bilhões.
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Taxas implícitas
Outra forma de olhar para esse custo de carregar uma montanha crescente de dívida é acompanhar as taxas de juros implícitas da dívida bruta e da dívida líquida. A taxa implícita é um agregado dos diferentes ativos e passivos que incidem sobre o estoque do que devemos na praça.
A taxa implícita da dívida bruta fechou julho em 7,9%, menor da série histórica disponibilizada pelo BC, que começa em 2007. Esse custo chegou a 13,6% em meados de 2016.
Já a taxa implícita da dívida líquida (que desconta as reservas internacionais) fechou julho em 10,2%, também menor leitura da série iniciada em 2002. Para dar uma dimensão do alívio dos últimos anos, em janeiro de 2016, essa taxa estava em 32%.
Sem superávit, sem grau de investimento
Basicamente, a dívida cresce pois não conseguimos fazer superávit primário, que são as receitas menos as despesas, sem considerar a conta de juros. Vamos fechar o sexto ano consecutivo com um buraco nas contas e as projeções do Tesouro são de que isso vai continuar acontecendo até 2022.
Não por acaso, as projeções também são de elevação da relação dívida bruta sobre o PIB para cima dos 80% até 2022, isso já considerando o impacto da reforma da Previdência.
Embora as condições financeiras e indicadores de risco sugiram que o Brasil “tem preço” de um país com grau de investimento é essa trajetória do endividamento público que pode impedir o país de retomar o selo de bom pagador perdido em 2015
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