Paciência do Fed fomenta otimismo no mercado
O mercado financeiro chega ao final da semana apoiando-se no tom novamente suave (“dovish”) do Federal Reserve sobre a condução da taxa de juros neste ano. A fala do presidente, Jerome Powell, ontem, conseguiu amenizar a ansiedade por novidades na questão comercial entre China e Estados Unidos. Da mesma forma, os sinais de que é […]

O mercado financeiro chega ao final da semana apoiando-se no tom novamente suave (“dovish”) do Federal Reserve sobre a condução da taxa de juros neste ano. A fala do presidente, Jerome Powell, ontem, conseguiu amenizar a ansiedade por novidades na questão comercial entre China e Estados Unidos.
Da mesma forma, os sinais de que é preciso “paciência” na estratégia de aperto monetário nos EUA aliviam a tensão com o impasse sobre a paralisação do governo norte-americano (shutdown). Ainda assim, surpreendeu a declaração de Powell de que o balanço patrimonial do Fed será “substancialmente menor”.
Em outras palavras, ainda que o ciclo de alta dos juros no país seja interrompido em breve, a retirada de estímulos terá continuidade via a redução da compra de ativos pelo Banco Central dos EUA. Ainda não se sabe qual será tamanho desse balanço para voltar ao “nível normal” nem em quanto tempo ele será reduzido.
Mesmo assim, as principais bolsas asiáticas encerraram a sessão com ganhos, liderados pela alta em Tóquio (+1%). Xangai (+0,7%) e Hong Kong (+0,5%) também subiram, embaladas ainda pela notícia de que o vice-primeiro-ministro chinês, Liu He, deve visitar os EUA no fim deste mês para avançar nas relações comerciais antes de a trégua tarifária de 90 dias expirar, em 1º de março.
A negociação sobre o comércio sino-americano por um alto funcionário do governo chinês - Liu é o principal assessor econômico do presidente Xi Jinping - impulsionou o yuan chinês (renminbi) ao nível mais alto desde julho em relação ao dólar. A moeda norte-americana, aliás, caminha para a quarta semana seguida de perdas.
A mensagem mais suave do Fed tem enfraquecido o dólar frente às principais moedas rivais, o que dá sustentação ao petróleo e anima os metais básicos. Em Nova York, os índices futuros das bolsas tentam se firmar no positivo, ao passo que as principais praças europeias apontam para uma abertura no azul.
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Embraer e Previdência animam por aqui
Esse movimento lá fora pode fazer com que o dólar volte a furar a faixa de R$ 3,70, em meio à disputa do fluxo para países emergentes, e levar a Bolsa brasileira a renovar o recorde pela sétima vez neste ano. Afinal, por aqui, prossegue a confiança dos investidores na agenda de reformas do governo Bolsonaro.
Além dos sinais de que a equipe econômica pretende pressionar por uma reforma da Previdência mais profunda, capaz de durar 20 anos até que o tema volte à pauta, a agenda de privatização também segue a pleno vapor. O presidente Jair Bolsonaro disse que não via vetar o acordo bilionário entre Boeing e Embaer.
Para o governo, a proposta final, que visa a criação de uma nova empresa avaliada em US$ 5,2 bilhões, “preserva a soberania e os interesses nacionais”. Diante disso, não será exercido o poder de vetar o negócio. Com o aval do governo à fusão, as ações da fabricante brasileira de aeronaves devem decolar hoje na Bolsa.
Os investidores também monitoram as tratativas do Palácio do Planalto com o Congresso, em busca de apoio político para avançar com as medidas de ajuste fiscal. O governo trabalha para conseguir a reeleição de Rodrigo Maia na presidência da Câmara, bem como para reunir base no Senado.
Ainda assim, a proposta do ministro da Economia, Paulo Guedes, de adotar um sistema de capitalização, que substitui o atual regime de repartição, é algo novo, e pode voltar à estaca zero toda a discussão sobre novas regras para aposentadoria. Isso tende a elevar o prazo para que a medida seja votada, embora a proposta de reforma da Previdência seja apresentada na semana que vem.
Inflação calibra juros
Dados sobre a inflação ao consumidor no Brasil (IPCA) e nos Estados Unidos (CPI) em dezembro são o destaque da agenda econômica desta sexta-feira, uma vez que os números podem calibrar as apostas dos investidores em relação ao comportamento da taxa de juros nesses países.
Primeiro, às 9h, sai o IPCA e a previsão é de que o índice oficial de preços no varejo apague a queda registrada em novembro (-0,21%) e avance 0,15% em dezembro. Ainda assim, se confirmado, será o menor resultado da série histórica do IBGE para o mês.
Com isso, a taxa acumulada em todo o ano passado deve desacelerar a 3,75%, ficando abaixo da meta perseguida pelo Banco Central, de 4,5%, pelo segundo ano seguido. Esses números tendem a reforçar o cenário de juros baixos por um período prolongado no Brasil e podem até esquentar a discussão sobre novos cortes na taxa Selic.
É válido lembrar que o cenário de juros baixos tende a manter atraente os retornos oferecidos pela renda variável, favorecendo a alocação de recursos na Bolsa. Em contrapartida, a Selic no piso histórico por mais tempo tende a pressionar o real, em meio ao retorno do diferencial de juros maior no exterior do que o praticado aqui.
Ainda no mesmo horário, saem dados domésticos sobre o custo da construção civil no mês passado e sobre o desempenho regional da indústria em novembro. Depois, o foco se desloca para a inflação ao consumidor norte-americano ao final de 2018, às 11h30.
Os números do CPI podem reforçar as apostas de que o Federal Reserve deve revisar a estratégia de elevar os juros norte-americanos mais duas vezes neste ano, já que os EUA têm demonstrado resiliência no crescimento econômico, ao mesmo tempo em que a inflação no país teima em não subir. Mas isso não significa que não haverá ao menos uma alta em 2019 nem que o custo do empréstimo deve cair.
Ontem, o presidente do Fed reforçou a visão mais flexível da autoridade monetária na condução da taxa básica de juros neste ano, ressaltando os riscos vindos da desaceleração da atividade e da volatilidade no mercado financeiro. Por isso, ele reiterou que o Fed terá de ser mais paciente em 2019.
Shutdown afeta agenda do dia
Apesar de a paralisação do governo dos EUA (shutdown) estar afetando o anúncio de diversos dados econômicos, é praticamente certo que haverá a divulgação do CPI norte-americano, uma vez que estão abertos todos os escritórios do Departamento do Trabalho, que calcula o dado.
Ontem, o Departamento do Comércio dos EUA adiou, sem previsão de nova data, a divulgação dos estoques no atacado norte-americano em novembro, por causa da falta de recursos. Com isso, os números do orçamento do Tesouro, previstos para as 17h hoje, também não devem ser publicados.
O impasse entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o Congresso sobre a construção de um muro na fronteira com o México tem interrompido as atividades da administração pública. O líder da Casa Branca diz que não irá ceder e prepara um anúncio de “emergência nacional” para conseguir a verba para a obra.
Trump trava uma queda de braço com os democratas. Ele só não conseguiu ainda explicar como trocou a promessa feita durante a campanha presidencial, de fazer o vizinho latino pagar pelo muro, por uma situação que paralisa as atividades federais há mais de três semanas, até que o cidadão norte-americano financie a construção.
O shutdown começou às vésperas do Natal e entra hoje no vigésimo primeiro dia, sem sinais de desfecho. Com a continuação do impasse, Trump não irá ao fórum econômico em Davos, o que mostra a disposição dele em quebrar o recorde de 21 dias seguidos de paralisação, registrado no primeiro mandato Clinton.
Moro com Bolsonaro
Não será, portanto, dessa vez que Bolsonaro irá se encontrar com Trump. O presidente brasileiro irá à cidade suíça no fim deste mês, acompanhado do ministro da Justiça, Sérgio Moro, além do chanceler Ernesto Araújo e de Paulo Guedes. A mensagem que o ex-juiz federal da Lava Jato irá levar a Davos é de que o combate à corrupção irá melhorar o ambiente de negócios no Brasil.
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