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"Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras.
Sou irritável e firo facilmente.
Também sou muito calmo e perdôo logo.
Não esqueço nunca.
Mas há poucas coisas de que eu me lembre."
"O que eu sinto eu não ajo.
O que ajo não penso.
O que penso não sinto.
Do que sei sou ignorante.
Do que sinto não ignoro.
Não me entendo e ajo como se entendesse."
Clarice Lispector seria uma grande investidora. Se quisesse, claro. Acho que é a verdadeira autora do “Understanding is a poor substitute for convexity” (O entendimento é um substituto ruim para a convexidade), falsamente atribuído ao plagiador Nassim Taleb. É minha escritora favorita. O Guimarães Rosa não conta. Ele escreve em transe mediúnico. Psicografia não conta e, portanto, está alheio a qualquer tipo de comparação. Poderia dizer que o troféu Guimarães Rosa vai para a Clarice Lispector.
Ao menos em língua portuguesa, não conheço quem tenha melhor expressado nossas contradições e ambivalências do que ela. “Tenho duas caras. Uma quase feia, outra quase bonita. O que eu sou? Um quase tudo.” No almoço com a Roberta e um jornalista querido (são poucos, mas existem!) ontem, ela disse assim: “Eu anoto as músicas do Day One para ouvir depois. Você me fez ouvir a Britney Spears de novo! Leio os textos e acho tão… deixa ver... como eu falo? Tão... humanos.” Acho que foi um dos maiores elogios que ouvi na vida. “Humano, demasiado humano”, pretensiosamente como o livro de Nietzsche.
Os dois leitores (eram três, mas a mamãe parou de acompanhar) desta newsletter sabem da minha total e irrestrita contrariedade ao PT. Isso não muda. Mas quando essa dupla quer impor-me um Bolsonaro liberal, eu apenas rio. “Vamos privatizar tudo, menos o que é estratégico.” Chamamos tudo que é relevante de estratégico e não privatizamos nada material. “A China está comprando o Brasil.” Ora, onde estão as agências reguladoras para dar regras do jogo claras, independentemente da origem do comprador?Estou à procura de um verdadeiro liberal no Brasil. Pode ser só um. Eu nunca pedi nada. A direita se diz liberal na economia, enquanto quer controlar os costumes e a liberdade individual. A esquerda é intervencionista na economia e liberal nos costumes. Será que alguém pode ser liberal e ponto? Os princípios e os valores precisam ser universais. Caso contrário, não são princípios e valores. São apenas regras atribuídas de acordo com a conveniência do momento.
Sabe aquela pessoa com quem você conversa por 15 minutos e ela cita dez autores diferentes, com aforismos precisos, irônicos e refinados? Você sai da conversa encantado: “Uau, que erudição! Que sagacidade! Quando podemos nos casar?” Daí, no segundo papo, ela volta com os mesmos autores, as mesmas frases e aforismos. “Hmmm, era só uma cartilha decorada. One-tricky pony. Lá se vai mais um herói.”
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Bolsonaro é isso. Deram-lhe uma lista de dez bravatas liberais que ele precisa repetir a cada entrevista. “Não vamos subir impostos”, “vamos privatizar as estatais”, “vamos celebrar o livre mercado” e por aí vai. Há também a lista negra de palavras proibidas, claro: “rentismo”, “Consenso de Washington”, “neoliberalismo”… Abaixo da capa superficial da decoreba e da armadura, não há nada. Ele não faz ideia do que realmente está falando.
Os bolsominions podem se acalmar — eles ficam descontroladas na minha caixa de e-mails sempre que critico seu pai. Vou votar contra o PT também. Mas mais do que isso: numa dessas contradições e ambivalências humanas, sua completa ignorância em economia pode ser boa para o Brasil, porque, de tão tosco, não lhe resta alternativa senão delegar toda e qualquer decisão a Paulo Guedes e sua equipe de 40 economistas com sólida influência de Chicago.
Como diria Taleb, o problema do mundo não são as pessoas que não sabem, mas aquelas que não sabem o suficiente. O idiota convicto é uma ameaça perigosíssima à humanidade. Dilma achava que sabia de economia. Deu no que deu.
O que mais me preocupa hoje não são as contradições de Bolsonaro — por ora, mera retórica eleitoral. Aliás, as contradições e ambivalências humanas nunca me preocuparam. Ao contrário, estou mesmo apreensivo com a falta delas.
O mundo caminha para a falta de antagonismo às próprias ideias, à ausência de autocrítica, ao ensimesmamento, ao radicalismo de concepções iniciais. Em certo sentido, estamos nos desumanizando, perdendo o contato com a divergência, seja ela de terceiros ou mesmo interna nossa. Ninguém mais se pergunta: “Será que estou mesmo fazendo isso certo?”. Só o constante embate entre argumento e contra-argumento é que pode nos fazer progredir por superação positiva.
As pessoas passam a maior parte do seu dia em frente a um computador, a uma televisão via streaming e a um celular. Neles, os oligopólios de Google, Facebook, Netflix, Apple e Amazon usam seus algoritmos para nos expor somente àquilo que já é de nosso próprio interesse. Não entramos em contato mais com o contraditório. Então, vamos enfiando dentro de nós mesmos, cada vez mais profundo, num ciclo de retroalimentação com feedback positivo (ou negativo, sei lá, depende do ponto de vista).
Damos um passo além no viés de confirmação das Finanças Comportamentais, a tendência de se lembrar, interpretar ou pesquisar crenças e hipóteses iniciais. Estamos entrando cada vez mais para dentro nas próprias ideias originais, ficando mais radicais dentro do nosso espectro individual.
Perdoe os neologismos, mas é uma espécie de “viés de caudalização”, ou de radicalização e extremização de si mesmo. Passamos a pertencer à cauda das distribuições. Isso ajuda a explicar o completo esvaziamento do centro político. Só há opiniões nas caudas, numa distribuição muito pesada nos extremos de variância infinita.
Não é o Fim da História, de Francis Fukuyama, quando a queda do muro de Berlim matou a última antítese à tese da democracia liberal.
Também não é aqui o fim da espécie conforme proposto por Yuaval Harari em “Homo Deus”, em que, superados os velhos problemas da humanidade (fome, praga e guerra), iríamos agora em busca de novos desafios, como a imortalidade, o exocortex e a singularidade. Os humanos passariam por um processo de endeusamento. Não é o caso aqui.
Se também a caminhada da humanidade é uma trajetória dialética igual à da História, temos agora o Fim do Homem, que não tem mais antítese às suas próprias teses. Matamos nossas contradições, ambivalências, incertezas, pluralidades, multiplicidades, que são nossa maior riqueza. E claro: o narcisismo das pequenas diferenças vai sempre nos empurrar para acreditar na superioridade incontestável do nosso jeito frente ao do outro.
Se você teve paciência de chegar até aqui, poderá perceber que não se trata de uma conversa de Clarice, Rosa, Nietzsche, Fukuyama, Harari. Estou falando da radicalização do seu portfólio. Tenho dois alertas hoje:
Eu, Felipe, não estou mais preocupado com as eleições. Pra mim, a não ser que aconteça uma revoada de cisnes negros, está decidido. Estava zero preocupado com o Datafolha ontem — falei isso aqui internamente. Estou pensando no governo já.
Agora, minha preocupação de cunho prático é de que toda essa conversa de fim das contradições tenha um desdobramento importante para o seu portfólio: a não convivência com o contraditório, com a contemplação de cenários alternativos à sua principal aposta, pode ser um caminho perigoso para o excesso de otimismo com ativos brasileiros, alavancagem e concentração exagerada.
Por mais otimista que esteja (e, sim, eu estou), mantenha uma carteira diversificada, balanceada, com moeda estrangeira e alguns seguros clássicos. Apostas do tipo all-in podem simplesmente representar o fim do homem investidor. Não há assimetria mais desfavorável.
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