Como o desrespeitado gestor coreano Mu Hak You tomou o poder na Gafisa
Quem investir na Gafisa deixa de ser dono de uma fatia de uma companhia de capital pulverizado para ser um mero acionista minoritário. Troca de comando pode provocar ruptura em momento crucial para empresa.

Há 20 anos escrevo sobre os personagens, companhias e operações do mercado de capitais brasileiro. A primeira vez que ouvi falar do investidor coreano Mu Hak You, dono da gestora de recursos GWI, foi há 12 anos, numa reportagem de um jornal especializado. Desde então, nunca achei que ele conseguiria atingir o objetivo que parecia perseguir: assumir o controle dos negócios de uma empresa brasileira.
Pois aconteceu. Numa assembleia que durou o dia todo nesta terça-feira (25), a GWI destituiu o conselho de administração da construtora e incorporadora Gafisa e elegeu um novo, em que ocupa cinco das sete cadeiras. A Gafisa é - ou era- uma empresa sem controlador definido e, num caso assim, esse poder é, na prática, exercido pelo conselho.
Se você é um dos 10 mil acionistas pessoas físicas da companhia, saiba que a partir de agora a empresa, que tenta se reerguer após a recessão e os distratos que derrubaram o setor no Brasil, será comandada por um grupo de pessoas que nunca exerceu essa função. A GWI até tem um braço de real estate, mas o setor residencial é um “bicho diferente” - ninguém da companhia ou do mercado vê o gestor de recursos, seu filho, e os três outros funcionários da GWI que agora vão ditar a estratégia da empresa, como capacitados para a função.
Nos corredores da Gafisa o que se ouvia nos últimos dias era que se Mu Hak conseguisse tomar a gestão, o esperado era uma renúncia de diretores e de outros conselheiros que não estivessem alinhados a ele. Se isso se confirmar, será uma ruptura num momento que pode ser crucial para o futuro da empresa. Uma boa lição para quem acha que investir em ações se resume a alguns cliques e embolsar dividendos, sem acompanhar o que , de fato, acontece na operação e nas assembleias.
Acionistas ausentes
Mu Hak só assumiu a Gafisa pelo total descuido de todos os acionistas da empresa. Até o ano passado, o quórum das assembleias da construtora estava na casa dos 20%. Ou seja, ninguém parecia muito interessado no que acontecia por lá, à exceção de uns poucos acionistas estrangeiros. A GWI começou a comprar ações da Gafisa em outubro de 2017. Em janeiro de 2018, já tinha 27% das ações e chamava uma assembleia para alterar uma cláusula do estatuto da empresa conhecida como poison pill (pílula de veneno). Em companhias sem a figura de um controlador, essa cláusula costuma definir que se um acionista alcançar um percentual relevante de ações, que na prática lhe dê a capacidade de definir os rumos do negócio, ele deve fazer uma oferta por toda a companhia, acrescida de um prêmio.
No caso da Gafisa, 30% disparavam a oferta e a GWI, com o surpreendente - ou inocente- apoio de outros acionistas estrangeiros, conseguiu elevar esse percentual para 50%. Já ali, até o mais bobo dos acionistas enxergaria que a GWI tinha interesse em assumir a empresa. Ainda que nunca tivesse ouvido falar na gestora, uma simples pesquisa em um site de buscas denunciaria os planos.
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Passado de investidor ativista
Mu Hak ficou conhecido no mercado em 2006, após a proeza de conseguir um assento no conselho das Lojas Americanas, à época ainda comandada pelo trio Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles. Lá saíram as primeiras reportagens sobre ele. Após trabalhar anos em bancos de investimento no Brasil, ele pegou o dinheiro dele e juntou com o da comunidade coreana do bairro do Bom Retiro, em São Paulo, e montou a GWI em 1997.
Sempre operou da mesma forma. Aproveitou-se de preços baixos das ações, fez enormes posições geralmente alavancadas e foi buscar a participação no conselho para interferir na gestão. Nunca conseguiu ser ouvido -ou porque foi pego pela volatilidade do mercado, e teve de se desfazer das posições alavancadas, ou porque esbarrou em controladores que lhe fizeram oposição. O último caso ruidoso dele foi uma tentativa malsucedida de retirar do comando da Saraiva um dos integrantes da família fundadora. Antes disso, já havia tentado ter voz na B2W, Profarma e Marfrig. A cada novo investimento, o mercado só esperava para ver o momento da derrocada e esperar até quando ele ia insistir.
Mas, na Gafisa, diante de uma base acionaria pulverizada e desinteressada, a única oposição possível foi a da administração. O conselho tentou de tudo: manifestou-se contra a troca de integrantes, lançou procurações, incentivou o voto à distância e alertou os demais acionistas que um deles tentava assumir o controle da empresa sem pagar nada por isso. Mas Mu Hak chegou à assembleia de terça-feira com quase 40% das ações, percentual que, sozinho, praticamente definiu a assembleia.
Até hoje, Mu Hak não disse porque a empresa precisaria de um novo conselho nem porque entende que ele e sua equipe são as pessoas mais qualificadas para geri-la nesse momento em que ela começa a dar sinais de sair da crise. Não apontou quais os erros da gestão que justificariam a troca, sequer informou os atuais administradores sobre suas intenções _ eles só foram comunicados que seriam destituídos. Quando houve a tentativa de defesa, questionou a atitude da gestão com gastos com comunicação e advogados para evitar que ele assumisse a empresa, alegando que a gestão queria se perpetuar no poder. Nunca houve uma conversa entre o acionista e a atual gestão em busca de um entendimento.
Hoje à exceção da GWI, todos os demais acionistas da Gafisa acordam com um carimbo de minoritário. Já o gestor coreano aparentemente realizou seu sonho e vai ter a oportunidade de mostrar para o mercado que deve ser respeitado - ou não.
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