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Mesmo com renovação, grande número de partidos e ausência de lideranças pode tornar aprovação de reformas mais caras, contrariando leitura inicial do mercado
A surpresa com o resultado das eleições para o Congresso, que mostrou renovação e queda de caciques históricos pode não ser tão positiva quanto parece. Dispersão partidária e falta de liderança podem elevar o custo fiscal das reformas.
A avaliação é do mestre em economia pela UnB e doutor em direito pela UFMG, Bruno Carazza. E diverge um pouco da primeira leitura do mercado com relação à governabilidade de um eventual governo Jair Bolsonaro.
Para o pesquisador, o Congresso que emerge das urnas é muito mais desarticulado, com as bancadas, como a ruralista e evangélica, apresentando um peso maior que os partidos.
É um pouco a questão do chamado voto temático, algo que Jair Bolsonaro vem apresentando como um fiel de sua governabilidade. Segundo o presidenciável, antes da eleição ele já teria mais de 120 votos de parlamentares alinhados a suas propostas.
Segundo Carazza, como Bolsonaro não tem um arco partidário muito grande e estável ele vai tentar jogar com isso. O que é um pouco perigoso do ponto de vista fiscal.
Carazza fala com bom conhecimento de causa, pois fez extensa pesquisa para publicar o livro “Dinheiro, Eleições e Poder: as engrenagens do sistema político brasileiro”, onde cruza doações eleitorais com depoimentos da Lava Jato.
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“Partidos quando atuam em bloco visam poder. Negociam com base em Orçamento, cargo, diretoria de estatal. Quando se desloca a ótica para a questão das bancadas, elas querem benesses, querem subsídio, crédito direcionado, desoneração fiscal, regulação mais favorável. E isso pode prejudicar, inclusive, o esforço fiscal do governo”, explica.
Um bom exemplo disso foi a recente aprovação de projeto para a renegociação de dívidas do setor rural, que chegou a ser estimado em R$ 15 bilhões.
“Bancadas fecham questão nos temas que lhe são caros, mas será que o ruralista vai votar em peso em uma reforma previdenciária? Quem sabe a articulação com partidos não seria mais confiável que bancada?”, questiona, lembrando que partidos têm instrumentos de coerção dos filiados.
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Para Carazza, mesmo com a eleição expressiva de 52 parlamentares do PSL, partido de Bolsonaro, a agremiação política chega à Câmara dos Deputados sem quadros para exercer liderança, pois a maior parte dos candidatos é novata.
“Vão ter de surgir novas lideranças. Acho que vai ter um período de acomodação na Câmara e no Senado pela falta de grandes lideranças”, ponderou.
Nomes como Romero Jucá (MDB-RR), que não conseguiram reeleição, são figuras conhecidas por fazer a inevitável mediação entre Congresso, governo e diferentes grupos de interesse. Para dar uma dimensão, Jucá virou piada aqui em Brasília, pois não importava quem fosse eleito, ele seria o líder do governo. E, de fato, ele foi o líder de todos os presidentes desde Fernando Henrique Cardoso (FHC).
“Ainda tenho de computar mais alguns dados, mas a população deu uma lição no pessoal da Lava Jato. A conta que vem sendo acumulada desde 2013 foi apresentada agora”, explica.
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Carazza já esperava essa maior renovação na Câmara dos Deputados, mas o desempenho do PSL surpreendeu, bem com o encolhimento de partidos tradicionais, como MDB, com menos 32 deputados, e PSDB, menos 23 cadeiras, em comparação com 2014.
Então, o quadro geral é de maior fragmentação, já que siglas menores e médias ganham peso, cenário que criaria muita dificuldade.
“Sempre no início de governo tem uma lua de mel. Então é de se esperar que ele consiga formar base razoável, mas será fragmenta e heterogênea. O que faz com que os problemas que temos hoje, continuem, como atender grupos específicos e aprovar determinadas propostas. O quadro é um pouco melhor do ponto de vista do candidato, mas é de difícil condução”, explica.
O especialista não crava uma vitória de Bolsonaro neste segundo turno por cautela. “As coisas mudam muito rápido e erramos muita coisa no primeiro turno”, pondera. Mas avalia que o cenário está muito mais fácil para o capitão reformado do Exército.
Segundo Carazza, o PT perdeu o timing de sinalizar para o eleitor de centro. Se tivesse feito isso ao longo do primeiro turno teria chance de reverter votos a seu favor.
“O Haddad vai ter de roubar voto do Bolsonaro. Se pensar bem é pouco provável que quem votou em Amoedo ou Daciolo vai virar para o Haddad. A luta do PT em direção ao centro é mais difícil e internamente é difícil para o partido assumir isso”, explica.
Carazza lembra que há um sentimento antipetista muito significativo na sociedade e que o PT apostou em alguns posicionamentos que são muito sensíveis para boa parte da sociedade. Entre eles, conceder indulto ao Lula e a questão envolvendo a Venezuela. Além disso, o programa econômico do Haddad é muito estatizante, lembrando a desastrosa Nova Matriz Econômica da Dilma Rousseff.
“Mais que um sentimento anti-PT é um sentimento contra o sistema. O Bolsonaro conseguiu encarnar esse sentimento da população de que todo mundo é corrupto. Mesmo sendo uma figura do sistema, ele conseguiu encarnar essa visão de que é diferente, por não estar envolvido nos escândalos de corrupção”, disse.
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Ainda de acordo com o especialista, Bolsonaro se beneficiou, de alguma forma, do atentado sofrido no começo de setembro, pois o protegeu de ataques de outros adversários. Ele também soube lidar bem com a lógica de uma campanha mais curta e que mostrou que o dinheiro não foi tão relevante. Sinal claro de que o investimento de recursos em campanha mais curta demorou a maturar veio do tucano Geraldo Alckmin, que tinha dinheiro e tempo de TV, mas não teve votação expressiva.
Nas eleições para a Câmara, diz Carazza, a lógica do dinheiro continuou marcante, com maior correlação entre gasto e voto.
“Apesar do crescimento do PSL que foge do padrão, nos outros partidos prevaleceu a lógica de quem arrecadou mais, conseguiu ser eleito.”
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