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2018-12-28T17:52:33-02:00
Eduardo Campos
Eduardo Campos
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e Master In Business Economics (Ceabe) pela FGV. Cobre mercado financeiro desde 2003, com passagens pelo InvestNews/Gazeta Mercantil e Valor Econômico cobrindo mercados de juros, câmbio e bolsa de valores. Há 6 anos em Brasília, cobre Banco Central e Ministério da Fazenda.
câmbio

Para onde vai a taxa de câmbio em 2019?

Sendo direto, eu não sei e ninguém sabe. O que é menos controverso é sempre ter alguma quantidade de dólares na sua carteira de investimentos

29 de dezembro de 2018
5:30 - atualizado às 17:52
bola de cristal
Imagem: Shutterstock

“O câmbio foi inventado por Deus para humilhar os economistas. Nunca se sabe para onde ele vai.” A frase, atribuída ao economista Edmar Bacha, é bastante conhecida, mas ainda não vi uma melhor para resumir um dos preços mais complexos da economia.

Voltando até janeiro e olhando o boletim Focus, do Banco Central, a mediana das projeções feitas por um punhado de especialistas mostrava dólar a R$ 3,34 no fim deste 2018. Para 2019, um exercício de futurologia ainda mais ousado, o prognóstico era de R$ 3,4. O último Focus mostra dólar a R$ 3,80 no fim do próximo ano, mas não se apegue a esse número.

Encerramos 2018, com dólar a R$ 3,8755, valorização de 17% no ano, maior alta anual desde a disparada de 49% em 2015. A moeda tinha fechado 2017, na linha de R$ 3,30, vindo de R$ 3,25 em 2016.

A cotação mínima de fechamento do ano foi vista em 26 de janeiro, a R$ 3,1385. Já a máxima foi de R$ 4,20 em 13 de setembro, auge das incertezas eleitorais. Depois, a taxa chegou a cair a R$ 3,65 antes do segundo turno das eleições, no fim de outubro. Tirando a média do ano, o dólar foi de R$ 3,66.

Há um punhado de modelos para estimar a taxa de câmbio, como diferencial de juros internos e externos, a cotação de hoje mais uma taxa de juros, considerações sobre o balanço de pagamentos, correlações com o risco-país e alguns que somam todas as variáveis anteriores. Há também tentativas de estimar o “preço justo” da moeda, buscando entender se o preço está acima ou abaixo do tal “justo”, mesmo que o “justo” seja sempre o último preço em tela.

O fato é que ninguém sabe para onde o dólar vai, cegueira que cresce conforme se ampliam os horizontes preditivos. Assim, as tentativas de estimar o preço do dólar, como de outras variáveis, acabam misturando estudos e cálculos objetivos, com um pouco da intuição, “feeling”, experiência, percepção, discricionariedade, chame como quiser.

O lendário gestor da Oaktree, Howard Marks, diz que é possível que nunca saibamos para onde vamos, mas é sempre bom saber com clareza onde estamos. Também é possível fazer boas decisões de investimento olhando o presente, sem precisar fazer “chutes” ou palpites sobre o futuro.

E onde estamos no câmbio?

Começando pelo balanço de pagamentos, a situação do Brasil nas suas relações comerciais e financeiras com o resto do mundo é bastante confortável. O déficit externo orbita a linha de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) e é integralmente financiado pelo investimento externo.

Para 2019, o déficit deve aumentar, captando o crescimento da economia e a consequente demanda por bens importados. Relação que pode ser posta à prova caso a nova equipe economia leve adiante a promessa de rever tarifas de importação e abrir mais o país ao comércio internacional. Algo que pode ter impacto também sobre a inflação, mas isso é assunto para outro dia.

Em termos de diferenciais de juros, temos a Selic estacionada em 6,5% ao ano, enquanto o juro americano está entre 2,25% e 2,5%, com viés de alta. O diferencial é um dos menores já visto desestimulando as operações de “carry trade”, que consistem em pegar dinheiro barato lá fora investir por aqui e ganhar o diferencial (de forma bem simplificada).

Outra variável são os ingressos em portfólio, notadamente bolsa de valores e mercado de títulos, que vão completando mais um ano sem grande movimentação, com saída líquida de US$ 3 bilhões até novembro.

Essa linha do balanço pode ter maior relevância agora em 2019 dada às expectativas com relação ao crescimento da economia e à realização das reformas fiscais, que colocariam o país no radar de grandes investidores internacionais.

Aliás, essa expectativa com reformas e com o desempenho do novo governo permeia todos os exercícios de futurologia que vemos neste fim de 2018. E para a taxa de câmbio não é diferente.

Faz pouco, os especialistas do BTG estimaram dólar entre R$ 3,40 a R$ 5,0, a depender das reformas, juros externos e do comportamento da moeda americana antes seus principais pares internacionais.

O Morgan Stanley e Credit Suisse falam em dólar a R$ 3,55 a R$ 3,60 no começo de 2019, também a depender das reformas.

Foi justamente esse vetor menos palpável, de expectativas, que levou o dólar a R$ 4,20, e nos fez ler projeções de R$ 5 ou mais, e derrubou a moeda a R$ 3,65, gerando prognósticos de dólar a R$ 3,30. É um mercado onde o psicológico dos investidores aparece com mais fúria. Quando o medo e a euforia dominam, os fundamentos não importam e é justamente nesses momentos que surgem as melhores oportunidades de entrada e saída.

Olhe o gringo

O mercado de câmbio brasileiro é caso único no mundo, pois são os derivativos que formam o preço do dólar à vista e não o contrário, como acontece nos demais mercados. É um caso de rabo que balança o cachorro.

Isso decorre de uma série de limitações às operações com dólar físico por aqui que se contrapõem a exuberante estrutura e volume de negócios no mercado futuro, que está entre os maiores do mundo. Para dar uma ideia, a proporção é de um dólar negociado à vista para mais de dez no mercado futuro.

Por isso, o investidor tem que estar sempre atento ao que acontece na B3, pois é lá que a formação de preço do dólar acontece. É no mercado futuro onde comprados, que ganham com a alta do dólar, e vendidos, que ganham com a queda da moeda, protegem suas exposições em outros mercados e fazem apostas direcionais na moeda americana.

Os grandes players no mercado de dólar futuro e cupom cambial são os bancos, os fundos de investimento e os estrangeiros. Normalmente se o estrangeiro está comprado, como agora, os demais estão vendidos.

Para dar uma ideia, o estrangeiro chegou a ter uma posição comprada, ou aposta contra o real, de quase US$ 42 bilhões no começo de dezembro. Ao longo de boa parte do segundo semestre essa posição não ficou abaixo dos US$ 30 bilhões.

Movimentações nesse estoque têm implicação na formação de preço. Nos últimos dias, o estrangeiro fez uma redução de posição na casa de US$ 7 bilhões, ajudando a explicar o recuo recente da cotação.

Assim, acompanhar as posições em dólar futuro e cupom cambial na B3 também é uma boa forma de tentar saber “onde estamos” e uma dica do que está por vir. Se o estrangeiro seguir "virando a mão" a tendência é de dólar para baixo.

Dito tudo isso, o que fazer?

Não tem conselho seguro ou certeza no câmbio. Se você acredita que o preço sobe ou desce, por convicção própria ou porque sabe mais que os outros, é possível se aventurar nos contratos futuros. Mas se prepare para “passar calor”, como diz o jargão, pois é comum o mercado teimar em ir para o lado oposto assim que você montar sua posição.

O ponto mais sensato que tenho ouvido é manter sempre um percentual relativamente baixo da sua carteira de investimento em moeda americana. Encare como diversificação, proteção e manobre essa exposição de acordo com o “onde estamos”. Para o dólar ou qualquer outro ativo crie seus “stops”, descubra sua tolerância às perdas e quanto de alta te deixa feliz.

Agora, se sua dúvida é comprar dólar para uma viagem, ao invés de perguntar para seus amigos e familiares, vá comprando aos poucos, trabalhe com a ideia de uma taxa média.

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