Sabe quanto o ‘bolsa empresário’ contribuiu para o investimento no país? Zero
A conclusão é de um estudo publicado pelo Ipea. A estimativa é que o custo de programas como o PSI supere os R$ 300 bilhões. Isso considerando só o dinheiro que saiu dos nossos impostos para bancar as taxas de juros camaradas às empresas

Para um programa batizado oficialmente de Programa de Sustentação do Investimento (PSI), o mínimo que se esperava era que pelo menos ele cumprisse esse objetivo. Mas a política de concessão de empréstimos pelo BNDES a taxas subsidiadas - mais conhecida como “bolsa empresário” - não só não contribuiu para a taxa de investimentos da economia brasileira como pode até ter atrapalhado.
A conclusão é de um estudo publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A estimativa é que o custo de programas como o PSI seja da ordem de R$ 300 bilhões. Isso considerando só o dinheiro que saiu dos nossos impostos para bancar as taxas de juros camaradas aos empresários. Essa conta, que equivale a dez vezes o orçamento anual do Bolsa Família, ainda está em aberto e só será quitada definitivamente em 2060.
Os efeitos do uso do BNDES e dos demais bancos públicos para estimular a economia são amplamente debatidos entre os economistas. Como repórter que cobre o mercado de capitais, acompanhei esse tema de perto. Ate porque me cansei de assistir a empresas com plenas condições de captar recursos de investidores recorrerem às linhas mais baratas do BNDES.
Isso é ruim por dois motivos. Pelo mau uso do dinheiro público, que poderia ser empregado em áreas mais carentes, como saúde e educação, e por reduzir as opções de investimento disponíveis no mercado. No lugar de pegar dinheiro no BNDES, uma empresa poderia, por exemplo, obter os mesmos recursos com uma emissão de debêntures no mercado.
Com a demanda das empresas suprida pelo dinheiro de investidores como eu e você, o banco de fomento poderia atuar em projetos necessários para o país, mas que não encontram demanda no mercado. Foi isso que aconteceu, aliás, neste ano, quando as captações de recursos no mercado de capitais atingiram R$ 169 bilhões, uma alta de 24%.
Sobe e desce
Os defensores do bolsa empresário defendem que os empréstimos baratos concedidos pelo BNDES estimularam a geração de empregos e os investimentos na economia. Então, vamos à história. O PSI foi criado em julho de 2009, ainda no meio da hecatombe provocada pela crise financeira internacional. Mas o que deveria ser apenas uma saída emergencial até o restabelecimento do canal do crédito na economia durou até o fim de 2015.
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No período em que vigorou o programa, o BNDES manteve uma média de R$ 234 bilhões em empréstimos ao ano, em valores corrigidos pela inflação. O início do PSI coincidiu com um forte aumento no nível de investimentos em relação ao PIB, o que deu a sensação de sucesso da política.
Mas essa recuperação que ocorreu em 2010 pouco ou nada tem a ver com a atuação do BNDES, segundo Roberto Ellery, professor da Universidade de Brasília (UnB) e um dos autores do estudo, ao lado de Antônio Nascimento Junior e Adolfo Sachsida.
“A taxa de investimentos provavelmente aumentaria nessa época mesmo se não existisse o PSI”, diz Ellery.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores compararam a taxa de investimentos no Brasil com outros 23 mercados emergentes logo após a crise de 2008. E constataram que, na média, houve um desempenho semelhante ao do país. Ou seja, outros países também apresentaram uma recuperação dos investimentos depois da freada na crise financeira.
A principal diferença no comportamento da taxa de investimentos brasileira em relação à média dos outros países foi que, depois da retomada inicial, houve uma forte queda nos anos seguintes, mesmo com o PSI a pleno vapor até 2015.
Os pesquisadores também fizeram um exercício sobre como se comportaria a taxa de investimentos do país sem o bolsa empresário. E concluíram que a trajetória do indicador seria semelhante, e com uma queda até menor nos últimos anos.
Para onde foi o dinheiro?
Mas se o bolsa empresário não ajudou a estimular e nem mesmo a sustentar os investimentos, onde todo o dinheiro do programa foi empregado?
O mais provável é que os recursos tenham sido destinados a investimentos que seriam feitos de qualquer jeito, segundo Ellery. Ou seja, a existência ou não do programa não estimulou as empresas a investirem mais.
“O empresário provavelmente apenas substituiu uma fonte de financiamento mais cara por uma mais barata para um investimento que já estava planejado”, diz.
Para o professor da UnB, o programa de empréstimos baratos do BNDES não só não ajudou a fazer o investimento aumentar como pode ser o responsável pela queda verificada nos últimos anos. Isso porque pode ter estimulado uma antecipação de investimentos pelas empresas.
“Um empresário do setor de transportes que esperava substituir a frota dentro de cinco anos pode ter antecipado a decisão para se aproveitar das condições favoráveis do financiamento.”
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