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Fernando Pivetti
Fernando Pivetti
Jornalista formado pela Universidade de São Paulo (USP). Foi repórter setorista de Banco Central no Poder360, em Brasília, redator no site EXAME e colaborou com o blog de investimentos Arena do Pavini.
Entrevista exclusiva

‘Passamos por problemas sérios, mas são coisas passadas. Estamos preparados para vender mais no Brasil’, diz presidente da Taurus

Salesio Nuhs, presidente da Taurus e um dos responsáveis pela reestruturação da companhia, conta os bastidores do negócio da principal fabricante de armas do país

12 de março de 2019
5:45 - atualizado às 19:19
Salesio Nuhs, CEO da Taurus Armas, na cidade de São Leopoldo/RS - Imagem: Felipe Nogs/ Agência Preview

A cuia de chimarrão com o símbolo da Taurus Armas gravado expõe as tradições do presidente da companhia, Salesio Nuhs. Nome forte do setor de armas e munições, ele foi um dos responsáveis por resgatar a Taurus de uma das maiores crises financeiras de sua história, que por muito pouco não a colocou no temido grupo das recuperações judiciais.

Com um jeitão aberto de falar, como ele mesmo classifica, Nuhs topou me receber em seu escritório, que fica ao lado da principal fábrica da Taurus em São Leopoldo (RS). Em pouco mais de 50 minutos de entrevista, ele mostrou satisfação com a "virada" da companhia nos últimos anos e uma visão otimista para o futuro.

O decreto do presidente Jair Bolsonaro flexibilizando algumas regras para o porte de armas foi visto por Salesio como um divisor de águas. Segundo ele, a nova norma é capaz de expandir (e muito) as vendas no Brasil. Vale lembrar que, atualmente, apenas 15% de toda a produção de armas da Taurus é destinada ao mercado nacional.

E por falar em produção, Salesio se orgulha das 4 mil armas que são fabricadas diariamente em São Leopoldo. De acordo com ele, a transformação tecnológica permite que a empresa tenha ampla margem de atendimento. “Se as vendas no Brasil crescerem 30% ou 50%, não tem problema, eu irei atender”.

O presidente da Taurus também falou sobre o recente “boom” das ações da companhia na bolsa, que chegaram a se valorizar mais de 700% em pouco mais de um mês. Saindo da caixinha do “mito”, ele afirma que a valorização dos papéis sempre esteve muito além das questões políticas. Veja no vídeo abaixo os bastidores da fábrica da Taurus e suas perspectivas para o negócio:

A Taurus passou por um processo de reestruturação produtiva e financeira nos últimos anos. Como foi para você conduzir esse processo?

A Taurus passou por uma forte transformação com apoio da Galeazzi & Associados, que desde o final de 2017 trabalha em conjunto conosco na melhoria dos processos produtivos, financeiros e comerciais.

Em 2018, a companhia realizou a requalificação dos fornecedores, desenvolveu mais de 74 novos produtos, promoveu mais de 100 demonstrações em feiras e eventos diretamente ao mercado policial e militar, e deu início a construção da nova unidade fabril no estado americano da Georgia (EUA), que possibilitará um importante incremento na produção local em mais de 50% e o aproveitamento das melhorias operacionais, comerciais, fiscais e logísticas que o estado da Georgia oferece.

Quais os resultados obtidos nessa reestruturação?

Nosso último balanço financeiro, do terceiro trimestre de 2018, mostra que a Taurus apresentou o melhor resultado operacional desde 2009. Com uma significativa melhora da sua margem bruta e importante redução de despesas administrativas e comerciais, estes fatores vêm demonstrando que o processo de reestruturação está sendo bem-sucedido.

Os números ainda mostram um grande desafio, sobretudo em relação ao patrimônio e dívida, mas também apontam para uma reação da empresa em termos de lucratividade.

Apesar da melhora operacional, o endividamento segue alto…

O planejamento estratégico, de fato, não vai pagar a nossa dívida. Então, qual é a saída? Ainda no ano passado, tivemos um reperfilamento do endividamento da companhia com seus principais credores, com um alongamento de cinco anos, sendo um ano de carência e taxas atrativas, o que reduziu mais de R$ 130 milhões o custo dos juros. Além disso, houve a disponibilização para venda de ativos e negócios não operacionais da companhia para a redução da dívida, como a operação de capacetes e o terreno da antiga planta em Porto Alegre. Estimamos que o desinvestimento nestes dois ativos pode abater cerca de R$ 150 milhões do nosso endividamento.

Em outubro de 2018 a empresa também lançou um aumento de capital através da emissão bônus de subscrição que podem proporcionar um aumento de capital de até R$ 402 milhões. As captações até R$ 300 milhões também serão utilizadas para redução de dívida. Acima deste valor, 50% vai reforçar o caixa e 50% vai reduzir a dívida da companhia.

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O recente "boom" das ações da Taurus coincidiu tanto com a eleição de Bolsonaro quanto com o aumento de capital da companhia. Como você encara essa valorização dos papéis?

Para mim foi uma coincidência. A renegociação da nossa dívida aconteceu em abril de 2018, e nesse acordo já estava previsto um aumento de capital. Nós temos um planejamento estratégico muito bem definido e não sei explicar os motivos para essa valorização das ações. É uma coisa que o mercado fez. Da minha parte, eu posso dizer que nós tivemos influência nos resultados constantes da companhia.

Mas, no meio de todo esse processo, parte dos controladores da Taurus venderam algumas de suas ações na bolsa. Como explicar esse movimento?

Eu, Salesio, não respondo pelos controladores. Sou contratado para presidir a companhia e não sei o que é que os controladores fazem, não tenho acesso a isso.

Cerca de 15% dos negócios da Taurus vem do mercado interno. Há um plano de mudança desse percentual, ampliando a fatia brasileira?

A Taurus é uma empresa global e os nossos principais mercados são os de fora do Brasil, em especial o mercado norte-americano, onde somos a quarta marca mais vendida.

Mas, com relação ao mercado do Brasil, acreditamos que naturalmente a participação dentro dos nossos negócios será ampliada, uma vez que, após o decreto do presidente Bolsonaro, os brasileiros agora terão mais acesso a compra de armas de fogo. Além disso, certamente haverá investimentos em segurança pública pelo atual governo, que considera o tema uma das prioridades.

Por falar em novo governo, de que maneira você recebeu o decreto de armas publicado por Bolsonaro?

O presidente da República, dentro das limitações de um decreto, foi muito feliz nas medidas estabelecidas, cumprindo com o que foi prometido em sua campanha eleitoral. As mudanças focaram no que realmente impossibilitava os cidadãos de terem uma arma de fogo para proteção pessoal, de sua família e propriedade, acabando com a discricionariedade na análise dos pedidos para o registro de armas de fogo e definindo as situações de efetiva necessidade.

Diferentemente dos boatos de que haveria uma restrição do número de armas que poderiam ser adquiridas, o decreto na verdade não limitou, sendo permitido até quatro armas pela efetiva necessidade, e não excluindo a aquisição em quantidade superior a esse limite, desde que se apresentem fatos e circunstâncias que a justifiquem, conforme legislação vigente.

Outro ponto que considero importante é a renovação automática dos Certificados de Registro de Arma de Fogo expedidos antes da data de publicação do Decreto, colaborando para manter estes armamentos legalizados.

O decreto deve mudar de fato o fluxo comercial de armas no país?

Sim, com mudanças na regulamentação para aquisição de armas, acreditamos que haverá um aumento da procura dos cidadãos brasileiros por armas de fogo para legítima defesa, proteção da família e da propriedade. Isso acontece porque, na prática, a maioria da população desconhecia a possibilidade de comprar armas de fogo no Brasil. E, com toda essa exposição em relação ao direito à legítima defesa nas eleições e no período da assinatura do decreto, a população está entendendo que pode adquirir armas de fogo bastando seguir as exigências legais.

Bolsonaro também comentou durante a campanha eleitoral que pretende abrir o mercado de armas brasileiro para concorrentes estrangeiras. Como você enxerga isso?

A Taurus é uma empresa global, exporta para mais de 100 países, portanto, compete com as maiores empresas de armas nos mercados de exportação. A competitividade da Taurus é comprovada na prática pelo crescimento de suas exportações para outros mercados fora dos EUA em mais de 200% no primeiro semestre de 2018. Por isto, não tem razão para temer qualquer tipo de concorrência.

O problema, no entanto, está nas políticas tributárias e regulatórias que acabam favorecendo que fabricantes internacionais e que cria uma concorrência desleal com os fabricantes locais. Isso é inaceitável, pois empresas estrangeiras quando exportam para o Brasil não pagam os impostos, enquanto os fabricantes locais estão submetidos a uma tributação de cerca de 70% do preço bruto do produto. Além disso, as empresas gringas não geram empregos para os brasileiros e não passam por nenhum processo de homologação no Brasil.

E como mudar essa realidade?

Acredito que esta legislação atual deve ser revisada, até porque desta forma, com esta política tributária e regulatória, nenhuma empresa virá investir no Brasil. Por que alguém montaria uma fábrica por aqui, pagando todas essas taxas, se exportando as condições são muito mais simples?

O novo governo já trouxe algumas mudanças para o setor de armas através do decreto. Como você está avaliando a nova gestão federal do ponto de vista de negócios?

Eu vou responder como Salesio. Não só eu como todos os brasileiros têm uma expectativa muito grande nesse novo Brasil. Não porque foi esse ou aquele presidente que ganhou, mas porque nós quebramos um vínculo antigo e agora começaremos um novo ciclo na história do nosso país. A maioria dos empresários brasileiros estão com uma boa expectativa, os consumidores brasileiros estão com uma boa expectativa. Eu acho que tem um clima positivo no país. Evidentemente que estamos vendo as dificuldades do atual governo lá em Brasília, mas acho que nosso país caminha para o lado certo.

E como entra a Taurus nessa história?

Costumo dizer que o Brasil para nós é importante. Tudo o que acontecer no Brasil nós vamos acompanhar. Se as vendas no Brasil vão aumentarem 30%, 50%, não tem problema, eu vou atender. Somos uma empresa global, mas priorizamos o mercado brasileiro.

Passamos por problemas sérios, mas isso são coisas passadas. Hoje um funcionário nosso está feliz porque sabe que não vai ter problema nenhum, recebe o salário em dia, nós atendemos nossos clientes e eles estão satisfeitos.

Recentemente vocês também anunciaram a intenção de criar uma joint-venture na Índia para ampliar sua participação naquele mercado. Como vai ocorrer esse processo?

Somos uma empresa de interesse estratégico para o Brasil. A exemplo disso, vários países do mundo que querem ter uma base industrial de defesa acabam nos procurando. Evidentemente que precisamos avaliar o que vale a pena como negócio que não vale. No momento atual, nós estamos achando que o mercado da Índia é importante porque é uma das economias que mais crescem no mundo. Por lá, eles estão fazendo um projeto que busca desenvolver tecnologias de defesa sob domínio nacional. Para isso, o governo indiano está buscando parceiros no mundo que tragam tecnologias para o país.

Vale lembrar que o documento que nós assinamos, um memorando de intenções, estabelece que nós temos 180 dias para definir se nós vamos criar uma joint-venture ou não.

Falando em futuro, quais as expectativas para os números de 2019?

Estamos agora em um outro momento, com uma nova gestão. A Taurus hoje é uma empresa geradora de caixa operacional, nossa margem bruta é de cerca de 38% e nossa margem Ebitda supera 16%, sendo muito superior à média do segmento mundial.

Além dos desinvestimentos que podem abater cerca de R$ 150 milhões do nosso endividamento, a emissão bônus de subscrição podem proporcionar um aumento de capital de até R$ 402 milhões. Isso tudo pode reduzir a dívida da companhia em 50% já em 2019.

Também pretendemos em 2019 dar continuidade no processo de reestruturação, baseado em rentabilidade sustentável, qualidade e melhora dos indicadores financeiros e operacionais, além do forte investimento no desenvolvimento de novos produtos e tecnologias.

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