Desarticulação na política e economia capenga fortalecem Rodrigo Maia
Desgaste envolvendo Ministério da Educação é pano de fundo para demonstrar insatisfação com governo, mas reformas devem acontecer

O pano de fundo é o contingenciamento de orçamento para a Educação, mas o quadro que se desenhou nesses três dias da “semana do tsunami” é de uma grande desarticulação política em um momento em que ficou mais claro ainda que estamos “no fundo do poço” em termos de atividade econômica.
Começando pela política, a semana traria a importante votação da medida provisória que faz a reestruturação administrativa do governo. Desde a semana passada, o clima já tinha azedado com a retirada do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do ministro Sergio Moro.
O movimento foi visto como uma derrota do governo, mas atiçou as redes sociais e a base mais fiel de Jair Bolsonaro em defesa de Moro, que no domingo foi “agraciado” com uma indicação antecipada ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Enquanto se digeria esse noticiário, entra a campo a estratégia de falar que há tempo para votação e que a semana seria dedicada à apreciação de outras medidas que também têm prazo de validade para passar pelo Congresso. Só faltou combinar com os russos, como veremos mais adiante.
No meio tempo, a celeuma envolvendo o orçamento da Educação ganha novos contornos, enquanto o ministro tenta explicar que são 3,5% e não 30% e que contingenciamento é diferente de corte, o Congresso vai lá e empurra uma convocação para Abraham Weintraub prestar esclarecimentos no dia que o governo enfrenta a mobilização das ruas (ou parte delas).
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Para piorar, deputados saem de reunião com Bolsonaro falando que o contingenciamento seria revertido. Prontamente, saem notas desmentindo os parlamentares. Do ministério da Economia, veio a seguinte nota: “O ministério da Economia esclarece que não houve nenhum pedido por parte da Presidência da República para que seja revisto contingenciamento de qualquer ministério.”
Nada pior do que bulir com a vaidade parlamentar. Manifestações de revolta e insatisfação com o governo e sua articulação política.
No meio do fogo cruzado, aparece o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e diz ao “G1” que houve confusão sobre essa revisão de contingenciamento, que o desmentido foi feito rápido para o dólar não acordar a R$ 4 (não adiantou muito) e, de quebra, rifa o líder do governo no Câmara, major Vitor Hugo (PSL-GO).
Segundo Onyx, a convocação do ministro foi uma reação dos parlamentares não ao caso envolvendo o Ministério da Educação, mas sim uma reação a um vídeo de Vitor Hugo dizendo que a Casa votaria medidas provisórias nesta semana, “sem combinar com a cúpula da Câmara”, ou seja, com os russos.
Bom, todo esse introito para dizer que quem deve estar rindo à toa lá de Nova York é o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, único personagem que se fortalece em meio a essa desarticulação, mesmo sendo atingido pela delação de Henrique Constantino da Gol.
A confiança dos parlamentares no presidente da Casa é “inabalável”, segundo me contou um consultor político. E a notícia interessante em termos de investimento é que os parlamentares acreditam que Maia conseguirá levar adiante a reforma da Previdência.
Esse apoio que Maia tem será algo importante para que essa situação não se agrave. Ele tem condição de pacificar a relação política.
É a expressão máxima do que se diz abertamente pelos corredores do Congresso, de que as reformas, não só da Previdência, mas também a tributária e outros temas, devem avançar apesar do governo. A oposição não gera preocupação para ninguém, pois a avaliação é de que nem eles sabem o que querem ou que são.
Note que a deterioração de relação foi muito rápida, pois poucas semanas atrás vimos Bolsonaro fazer diversos gestos aos congressistas, como ter mais reuniões, falar publicamente na sua confiança no Congresso e ceder na recriação de ministérios.
A preocupação de parte do parlamento, agora, é que o núcleo familiar de Bolsonaro utilize as novas denúncias para atacar Rodrigo Maia, retomando a estratégia de colocar as redes contra a “velha política”, termo que aliás saiu do vocabulário do presidente depois dos desentendimentos de março.
Na economia...
Enquanto isso, no lado econômico, vem a confirmação de que estamos andando para trás. Revisões e mais revisões para baixo no crescimento, inclusive do próprio governo e mais bancos e consultorias falando em Produto Interno Bruto (PIB) negativo no primeiro trimestre.
Na manhã desta quarta-feira, vem um indicador palpável, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que aponta variação negativa de 0,68% no primeiro trimestre ante o quarto.
No começo de março, escrevi que para a reforma da Previdência ser a “salvação da lavoura” em termos de atividade econômica ela teria de ter um tempo de tramitação muito mais rápido do que os mais otimistas previam. No quadro que se desenhava, de trâmites legislativos até o terceiro trimestre, já teríamos passado por um “choque de realidade”, com os dados de atividade, decepcionando até meados do ano, ou mesmo antes disso.
O choque de realidade chegou e o risco é vermos ações desesperadas do governo para fazer alguma coisa que dê resposta rápida na atividade. Isso pode colocar em confronto direto a ala política com a equipe econômica, desgastando o ministro Paulo Guedes.
Não por acaso, já lemos algumas vezes que o governo prepara pacote de medidas para destravar o crédito para empresas, fazer nova liberação das contas inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e adotar algum programa para limpeza do nome de endividados (o SPCiro das eleições, lembram?).
Também cresce a pressão para que o Banco Central (BC) retome os cortes da Selic, mesmo que uma redução de 0,25 ponto ou meio ponto tenha impacto apenas marginal na propensão marginal do consumo/investimento. Para o BC, é a incerteza que ronda a política local e a guerra comercial que impedem a tomada de decisões.
Estamos soterrados por anos e anos de questões estruturais não resolvidas e governo e equipe econômica precisam de algo que o dinheiro não compra: tempo.
Enquanto isso pedem calma e alguma compreensão de todos, pois estão chegando agora, faz quatro meses que estão no poder. O que não deixa de ser verdade, mas outro artigo que também está em falta é paciência.
Passados os tsunamis da semana, e ainda estamos na quarta-feira, o governo terá de repensar estratégias políticas e tentar comprar tempo no lado da economia.
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